Bleak House (2).

1. Em geral as personagens de Dickens não mudam. As que mudam sofrem alterações tão radicais que se tornam inverosímeis (como Scrooge nos Contos de Natal). Ora, se elas não mudam, o que sobra para o romance? O leitor contemporâneo pode observar Dickens em acção como se fosse um cego a compensar a falta de um sentido com o excesso de todos os outros.

2. Por exemplo, o tempo. No romance canónico costuma ser o tempo biográfico. O protagonista nasce, vai para o reformatório, alista-se na marinha, visita os mares do Sul, etc. Mas em Bleak House a experiência do tempo é intensificada, porque o autor recorre ao símile de um julgamento que se iniciou há décadas e ninguém sabe quando acabará. Ressonâncias bíblicas: o julgamento, o juízo. Este leimotiv combina muito bem com o rol de falsas e verdadeiras virtudes revelado pelas personagens. Também elas serão julgadas. Só que, ao contrário de Kafka, Dickens retira dramatismo ao processo judicial para nos transmitir um retrato do tempo que, tal como o da vida, é suavemente opressivo e fácil de malbaratar. Porquê fazer isto? Porque, como os protagonistas não mudam, o autor precisa de contrastes.

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