Sem filtros.

A blogosfera em peso rasgou as vestes quando leu estas declarações do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto. Num país em que a palavra juventude serve de eufemismo a uma casta de adultos indolentes e primadonas agastadas da classe média urbana, e em que por desporto se toma o futebol — prática criminosa só debelável com a interdição — qualquer laracha que o burocrata responsável pelos dois buracos negros proferisse ao microfone teria potencial incendiário. Ainda por cima se fosse verdade.

E o que disse o homem? Que os nossos inúteis, se não encontrarem trabalho cá dentro, devem procurá-lo lá fora. Isto, na economia do euro, é uma lapalissada rudimentar, mas causou as apoplexias do costume.

E o que acrescentou o homem? Que depois de conhecerem as boas práticas dos países de destino poderão voltar à origem e realizar os seus projectos com outra segurança. Tem algum mal? Não tem. É o bê-á-bá da autonomia que uma sociedade civilizada deve exigir a maiores de dezoito anos.

Infelizmente, os nossos jovens ainda querem esta merda:

Tretas, corrupção e muita mama. E a mama, por agora, acabou.

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24 pensamentos sobre “Sem filtros.

  1. “E o que disse o homem? Que os nossos inúteis, se não encontrarem trabalho cá dentro, devem procurá-lo lá fora. Isto, na economia do euro, é uma lapalissada rudimentar, mas causou as apoplexias do costume.”

    1) As generalizações são o diabo: muitos – e são muitos mesmo – que não encontram trabalho “cá dentro” estão longe de ser inúteis. E bastantes dos que o são devem essa desgraçada condição às máfias académicas que os convenceram que o diploma que no final do curso lhes entregariam serviria para alguma coisa de mais útil do que tapar a mancha de humidade na parede da sala (de casa dos pais, claro). Essas, sim, irremediavelmente inúteis, e pior do que isso, coniventes com a gigantesca burla da “educação” nestas últimas décadas.

    2) Claro que se querem ter alguma coisa que se aproxime de “uma vida”, grande parte terá mesmo de ir “para fora”. Mas isso é o que TERÃO DE FAZER, não é o que o secretário de Estado deve dizer. Porque, ao dizê-lo, a consequência natural e imediata disso é demitir-se: fica lá a fazer o quê? A tutelar uma “prática criminosa só debelável com a interdição”?

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    1. João:

      Eu sei, claro. Mas desculpe lá se o ofendo, a atitude das pessoas que conheço com menos de 35 anos está toda errada. Já estava errada aos dezasseis, idade em que qualquer dinamarquês arranja um emprego se tiver vergonha na cara, e está errada agora, em que se deixam apascentar nas pós graduações dadas por essas máfias académicas que você critica em vez de saírem (e a expressão do tipo, embora feia, é correcta) das “zonas de conforto”. Você acha que um inglês aos trinta anos ainda mora em casa do papá, mesmo que não arranje emprego em Londres? Por essa altura já ele trabalha na nova zelândia — e a língua, aqui, não é desculpa.

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      1. Não me ofende coisa nenhuma. Mas a questão é que eu também conheço umas quantas “pessoas com menos de 35 anos”, pelo menos com licenciaturas,que há anos, já desistiram de trabalhar na área em que, supostamente, se formaram, trabalham ao balcão de lojas ou em biscates temporários (o salário mínimo é quase um luxo), e, agora, mesmo essas hipóteses, começam a ser difíceis. E, sim, vários já sairam da “zona de conforto”, para a China, Filipinas, Espanha, Inglaterra… alguns também ludibriados pelos vários “inov”, andaram uns mesitos por lá, e acabaram por ter de voltar com um CV recheadíssimo em “tirar bicas”.

        Claro que sair para o mundo não só não faz mal como faz muito bem. Mas volto à pergunta: o secretário de Estado, então, existe para quê? para dizer lapalissadas?

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  2. Ou, por exemplo, o ar de escândalo que os estudantes de Coimbra faziam quando eu lhes dizia que em França ( que conheço bem) e noutros países é comum o universitário ter um part-time. E isto na época das vacas gordas.
    Também é verdade que o sec. é um la Palice, mas isso é o menos.

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    1. Filipe, lembro-me muito bem que quando andei nos países nórdicos não havia criadas brasileiras a limpar os quartos de hotel: eram universitários. É natural que essa gente depois chegue ao mercado de trabalho “a sério” é já saiba o que é trabalhar. Infelizmente esta nossa cambada de inúteis, mesmo quando é muito nova, recusa-se a fazer trabalhos “menores”. São chiques como a merda.

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      1. Eu trabalhava nas ferias da universidade e fui bolseira desde o ensino secundario e universidade da Fundação Gulbenkian (a unica bolsa que valorizava mais as notas do que criterios que ou mentiam ou eram mesmo muito pobres – eram dados aos filhinhos do papa que não declaravam impostos e a uma minoria que precisavam mesmo e mais que eu).

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  3. Há aqui uma zona excessívamente sensível que parece perturbar o raciocínio deste post. Embora tenham sido criados muitos cursos de treta, houve muita juventude que estudou com afinco e que está bem preparada. É uma perda para o país que esse investimento na educação, pago em boa parte pelos contribuintes portugueses, vá dar frutos lá no estrangeiro.

    Um governante do país não se devia conformar com tanto à vontade com essa perda. A esse governante eu daria o conselho de sair da sua zona de conforto e trabalhar para criar melhores condições para que essa juventude possa trabalhar por cá. Por exemplo evitando interferir nos horários de trabalho das empresas privadas e reduzindo os prazos de pagamento do Estado, permitindo o aparecimento de empresas pequenas e dinâmicas que não dependam excessivamente do financiamento dos bancos.

    Ou então emigrando ele como aconselham aqui: http://infernocheio.blogspot.com/2011/10/jovens-aconselham-governo-emigrar.html

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    1. Mas isso não quer dizer que o diagnóstico não esteja correcto. O problema é o seguinte: ou temos uma economia internacional e estamos integrados nela ou temos uma economia paroquial e aí não vale a pena fazer cursos excepto para as necessicadas do mercado interno. Afinal as universidades dos outros países também formam gente qu depois vai trabalhar para fora, não somos os únicos.

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    2. Claro os licenciados custam dinheiro e só um estado parvo é que pode dar-se ao luxo de gastar dinheiro a licencia-los e depois não os ter a capitalizar esse investimento.

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  4. Parto do principio de q os comentadores aqui presentes já passaram os “entas”. Assim, arrisco afirmar q bem cedo (visto aos dias de hoje) começaram a trabalhar – fosse nas férias ou a part-time, não tanto para subsistir, mas para colmatar as necessidades próprias de cada um – copos, roupa a gosto, universidade, etc., e q por tal nos é estranho, aquele gesto da mão estendida: pq é dia de copos, pq acabou o tabaco ou a gasosa ou pq é preciso mais um livro para o curso. Mais estranho é aquele olhar nº 35 qd lhes falamos em trabalhar 1 mês dos 3 de férias, para aprenderem e gozar como querem – pq o q lhes é dado nunca chega.
    Dir-me-ão q falo de malta à volta dos vinte. Certo. Mas a essa malta sempre surtiu efeito a técnica da mão estendida – era um direito deles e uma obrigação dos pais.
    O q me choca neste tema não é a inercia dessa geração agora com trintas – a grande parte tem o q merece ou foi vitima da condescendência dos pais. Choca-me sim, ter conhecimento de muita gente com valor, trabalhadora há mt tempo, da nossa idade, q emigra sem qq garantia, por desespero, com a família às costas. Não são estes que devem estar destinados a tal.
    Qt às afirmações do Sec. de Estado: talvez peque pela habitual generalização, mas não na ideia.

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    1. “que emigra sem qq garantia, por desespero, com a família às costas”. Exacto, mas esses são “crescidos” e tal, portanto tudo bem. O discurso juvenil em Portugal sempre foi nefasto.

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  5. Apenas um número nas suas estatísticas, mas se de facto aprecio os seus textos mordazes e contundentes e provocadores, não apreciei de todo este. Parece-me que transporta uma visão algo inverosímil que considera todos como sendo portadores das mesmas armas e das mesmas oportunidades, e redutora, porquanto resume os desempregados a uma “cambada” de preguiçosos que vive dos rendimentos alheios: se a análise se aplica a uma franja considerável não poderá estender-se de forma global sem que perca sustentatbilidade. E depois a velha questão da importação forçada de culturas que não são a nossa, ou que não eram: como imputar a um desempregado de 30/40 anos a falha de não ter começado a trabalhar aos 16 anos e de não ter emigrado nas férias patrocinadas pelos ascendentes a cada Verão com vista a praticar sucessivamente o inglês, francês, espanhol, e a língua otomana também, enquanto servia/bebia umas cervejas no bar da esquina. Talvez a realidade que desenha se desfie numa tela citadina feita de ousadias que nem todos encontram, como não podia deixar de ser. Existem realidades menos agradáveis em que a inovação, o empenho profissional e a criatividade não surgem crivadas pela oportunidade concretizada. Quando pensamos no desemprego não podemos deixar de ver esse lado e as soluções deverão ser ambivalentes.

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    1. Sílvia, não estava a tentar culpar ninguém, apenas a dizer que o que era antes já não é: ou seja, deixemo-nos de falar da “juventude” como se fazia nos anos 90. Muita gente ainda não percebeu isso e julga que o Governo lhes deve dar empregos, pelos quais devem esperar sem sairem da esplanada. A nossa economia é europeia há décadas.

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      1. Isso sim Luís. O mercado de trabalho não admite mais visões utópicas de segurança eterna e estabilidade imutável. Impõe-se o encaixe da necessária versatilidade e flexibilidade do posto de trabalho.

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  6. De facto, devemos ser o único país da Europa onde 90% dos universitários com menos de 23 anos não trabalham. E onde 90% das pessoas que se escandalizam com isso – eu incluído – (não) fizeram exactamente a mesma coisa.

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