Diários da Lenita (1): “Contra a esquerda, marchar, marchar”.

Querida Bimby,

Hoje inauguro este diário que adquiri por apenas oitenta e nove cêntimos no regresso às aulas do Pingo Doce.

Graças à economia de mercado, posso escrever em belas páginas pautadas em vez de esborratar folhas de papel higiénico como se fazia nos tempos do gonçalvismo. O papel higiénico também está mais barato, mas prefiro usar os meus recortes do Público — jornal que recebo de graça — para não viver acima das possibilidades. Ontem despachei assim seis meses de crónicas do Rui Tavares, e hoje darei o mesmo destino aos artigos do Santana Castilho. Enquanto eles abusarem do mercado livre para sabotar o capitalismo nunca lamentarei o efeito regulador de Kellogg’s Special K, embora o k me lembre sempre Das Kapital.

Trato-te por Bimby em homenagem à Anne Frank, uma menina sionista muito boazinha que se escondeu num sótão para fugir à esquerda nazi. O diário dela chamava-se Kitty mas, lá está, por causa de Karl receei que a sombra desta letra funesta se intrometesse entre ambas. Titty não era uma opção. City atraiu-me, mas evoca um homem sofisticado e charmoso, de chapéu de coco, que singra no mundo rarefeito da alta finança — um namorado, não uma confidente.

Bimby, pelo contrário, assinala todo o respeito que nutro pela mulher portuguesa, pela sensatez da sua economia doméstica e pela severidade com que rejeita os ditames da educação pública.

Tenho a certeza de que vamos ser muito amigas, Bimby. Juntas derrotaremos o comunismo, o estatismo, o ateísmo, o modernismo, o despesismo e o esquerdismo. Pois, como dizia o camarada Mao, as mulheres suportam sozinhas metade do céu.

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19 pensamentos sobre “Diários da Lenita (1): “Contra a esquerda, marchar, marchar”.

  1. “Bimby, pelo contrário, assinala todo o respeito que nutro pela mulher portuguesa, pela sensatez da sua economia doméstica e pela severidade com que rejeita os ditames da educação pública.”

    Genial.

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  2. Bimby. Tenho um “ódio” mortal a esta palavra.
    Uma vez tive num jantar em Barcelona onde ouvi falar de Bimby toda uma noite…Não consigo ouvir mais sequer a palavra Bimby, e julgo que vai ter sequela….

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  3. Juntas derrotarão, também, o «politicamente correcto» (a Lenita não se cansa de bramir contra o «politicamente correcto»). No final da história (tal como idealizada pelo Fukuyama), a Lenita casará com o amiguinho Zenelito Nandes e serão todos felizes para sempre — bem, talvez a Bimby seja excluída do final, porque um final a 3 soa-me muito progressista para a Lenita.

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  4. Vc. é tramado. Não fazia a coisa por menos que formar aqui nova Santa Aliança travão do jacobinismo? Deixe-se de Congressos de Vienas homem!

    O qu’é que lhe passará p’la invenção a seguir? Pedir ao Cavaco que abra ao público a biblioteca da Mansão da Coelha? provocando congestionamento no aeroporto de Faro, sobrelotação nos voos low cost, as praias ao abandono e a ruína dos dos donos da restauração ribeirinha em toda aquela formosa costa?

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