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As melhores fotografias, aqui e aqui. Não deixem de ler os textos.

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Não explicam.

O horror, a tragédia, a malandragem. No Jornal de Negócios dá-se hoje voz à angústia sem fim que devasta o sector do calçado. Os empresários do ramo precisam de mais 1500 pessoas, mas não há em Portugal 1500 pessoas que queiram trabalhar. Entre gritos lancinantes de impotência e desânimo, os nossos criadores de empregos confessam que já tentaram tudo, excepto aumentar salários — porque os salários baixos, evidentemente, não explicam a situação.

Claro.

O que explica a situação é o sol e a praia, a ausência de valores, o colapso das famílias, o tabagismo e o consumo de psicotrópicos, o declínio da fé verdadeira, o aborto livre e a natural propensão para a indolência do barrasco lusitano.

Tudo excepto os salários baixos.

Aliás, quatrocentos e oitenta euros por mês em Santo Tirso dão lindamente para alugar um T4 e pôr os filhos no colégio. Ao fim de semana joga-se golfe em Arcozelo ou dá-se um saltinho ao Bull & Bear.

Os salários não explicam, portanto. As leis da oferta e da procura funcionam em todo o lado mas são miraculosamente suspensas acima de Valongo, nas fábricas de calçado português. As empresas do mundo inteiro atraem funcionários com dinheiro e regalias, excepto na Cancela & Teresinha, na Natália Lda ou na Tavares & Irmãos. Aí podem lançar à rua libras de ouro ou maços de notas que não aparece ninguém.

Esta situação chocante  justifica que o Governo tome uma atitude firme para persuadir os nossos compatriotas a trabalharem um pouco mais. Talvez, enfim, com a subida do IVA, um aumento do preço dos transportes ou o fim das comparticipações nos medicamentos.

Já foi feito? Então mandem a polícia.

Ajudar as empresas.

Em resumo:

– Nomear como Ministro da Saúde alguém ligado a diversas empresas com interesses nesse sector.

– Anunciar cortes no sector que levarão a uma degradação significativa do Serviço Nacional de Saúde.

– Nomear alguém próximo para estudar os cortes e pensar numa solução que passe pela criação de mecanismos que “sejam incentivadores de geração de receita própria”, de preferência tendo passado por empresas acima de qualquer suspeita, como é o caso do BPN, alguém que se possa invejar de ter um currículo inigualável na área da gestão de serviços de saúde e que possa constituir com sucesso uma comissão liquidatária do sector.

– Entregar o que restar à gestão de privados, transformando um direito humano universal num direito a que só pode aceder quem tem (muito) dinheiro.

Mais palavra ou menos palavra é isto mesmo.

Forte Apache.

Agora que nasceu o Forte Apache, projecto que sucede ao Albergue Espanhol, aproveito para testemunhar o excesso de delicadeza e impecável civilidade com que o Pedro Correia se afastou do debate político, há cerca de dois meses, no Delito de Opinião. Não era preciso tanto, claro.

Adenda: caro João, só é pequeno porque não tenho a tua prática. Mas há muito mais aqui.

Cool.

Um longo convívio com publicitários fez-me suspeitar das pessoas que tentam ser originais. Metade da minha vida foi passada com gente que sabia o que era giro, ou fixe ou muito bom em todos os matizes, mas desconhecia o conceito de sublime. Sem acesso à cultura clássica, muitos dos meus colegas moviam-se num quadro de convenções a que chamavam criatividade — ignorando que existem tantos círculos de convencionalismo numa cabeça imatura como de padecimento no Inferno de Dante, e que o que julgavam giro, ou fixe ou muito bom não era frequentemente mais do que o exercício de uma convenção tardia num novo círculo exibido a cada trimestre pelas revistas da especialidade.

Por isto eu nunca quis ser original: gosto de cidades velhas, de livros velhos e de fotografia, que é a menos artística das representações. Tento conhecer os limites da minha prisão. O cool, com a sua língua de trapos, enfastia-me.

Ah, sim, temos de fazer sacrifícios.

O Hugo Mendes tem colocado informação preciosa no Jugular. (O que fazia ele no tempo de Sócrates? Assobiava para o lado). Certo é que este post sobre o imposto para ricos que tanto inflamou as almas sensíveis do PSD (e o que faziam elas nos tempos do corte ao subsídio de Natal e do aumento dos transportes públicos? Adivinhem) coloca a questão onde é preciso — nos antípodas de José Manuel Fernandes. Se alguém próximo do Governo se dignar a responder-lhe talvez vejamos o início de um debate público sério; o que, enfim, já cá vai fazendo alguma falta.

Ficha de leitura: “Rites of Passage”, William Golding.

Nota: estas fichas de leitura são escritas para consumo próprio, servem-me para compreender um pouco melhor as obras e não para as apresentar ao leitor. Muitas vezes irão versar sobre pormenores de composição um tanto ou quanto rebuscados, mas coloco-as aqui porque talvez interessem a meia dúzia de pessoas.

Rites of Passage, primeiro volume da trilogia To the Ends of the Earth, ganhou o Booker de 1980. Há uma excelente recensão ao livro no blog do Guardian.

O plot é muito simples, o que só acentua a extraordinária perícia técnica de Golding. A caminho da Austrália, no início do Séc XIX, um jovem dandy redige, para diversão do padrinho, o relato da travessia. Os passageiros são caracterizados em tom de comédia ligeira até ao momento em que o reverendo Colley é praxado em público pela tripulação. Colley fecha-se no quarto e morre de fome e ensimesmamento. Mais tarde saberemos que esta tragédia foi provocada pelo embaraço de ter proporcionado um fellatio ao garboso marinheiro que o conduziu aos aposentos durante a embriaguez.

O que me interessa aqui é a precisão de relojoeiro com que Golding nos transmite a informação a pouco e pouco até a tornar devastadora. Isto é feito com recurso a várias técnicas:

  1. Uma longa exposição, que introduz a obra em tempo lento, muito enganador.
  2. A opção por um narrador homodiegético, que participa na acção mas:
  3. está ausente em momentos essenciais, ou tem acesso à acção de modo imperfeito, como ocorre durante a praxe.
  4. Para justificar a ausência do narrador, Golding cria um subplot amoroso e faz coincidir o seu clímax com a humilhação pública do reverendo.
  5. Este subplot é imediatamente extinto depois de cumprir a função.
  6. Ergo: pormenor raro e interessante, o clímax do plot principal (a praxe e não o fellatio, que no livro é quase uma coda) é ocultado pelo clímax do subplot. É a primeira vez que encontro isto.
  7.  Depois chega o momento da grande revelação, quando Talbot, o narrador, encontra o diário do reverendo. O leitor respira de alívio porque agora já sabe que vai ter acesso aos pormenores do caso e à explicação do suicídio de Colley.
  8. O diário de Colley serve ainda para nos revelar uma personagem angelical que contrasta muito com a caricatura desenhada anteriormente por Talbot — o que tem uma função importante na retórica da narrativa, porque cria uma nova verosimilhança, mas não só:
  9. esse angelismo também prepara a surpresa que o leitor terá ao deparar com a revelação do fellatio ao marinheiro.
  10. Segue-se aquilo que parece à primeira vista a resolução do livro: um falso inquérito que serve apenas para proteger os responsáveis.
  11. O inquérito conclui e sedimenta, neste livro, um dos grandes temas de Golding: a ideia de que num espaço fechado o verniz da civilização dá em pouco tempo lugar à barbárie, e que esta sempre triunfa.
  12. Nas últimas páginas, quando já nos despedimos da novela, é então testemunhado por duas personagens secundárias o acto sexual que de facto originou a grande vergonha e a morte do clérigo.

Em outras mãos este enredo daria lugar a uma pepineira. Golding transforma-o numa pequena obra-prima.