“Ah, nação pecadora, viveiro de criminosos, berço de crianças corrompidas…”

Eis a notícia do dia: os Manuscritos do Mar Morto do Museu de Israel estão disponíveis na Internet. A Google assegura que cada foto tem uma definição 200 vezes superior à imagem de uma câmara digital comum (como sabemos, as câmaras digitais comuns são todas iguais. E a objectiva suporta uma definição tão alta? Não faça perguntas difíceis, leitor).

De certeza de que esta boa nova, como todas as que nos chegam hoje em dia de Jerusalém, é um convite irrecusável à mortificação. Penitenciai-vos, pecadores. Fechai os vossos sites eróticos e ide ler o Isaías, filhos de uma lebre.

 

Ficha de leitura: “On Chesil Beach”, Ian McEwan.

Esta pequena tragédia relata a noite de núpcias de Florence e Edward num hotel de Dorset, em 1962.  Ambos eram jovens, educados e virgens numa época em que falar da angústia sexual parecia impossivel, diz-nos a primeira frase.

McEwan integra numa curta narrativa vários tipos de conflito. O conflito secreto do casal, dividido entre o desejo de Edward e o pânico de Florence. O conflito histórico entre o colapso da moral vitoriana e a aspiração de um desembaraço sexual que tardava. O conflito interior das mulheres, vacilando entre a submissão e a autonomia. O conflito latente de gerações, criador de silêncios funestos. Estes elementos são organizados com extrema competência e comunicados ao leitor num registo melancólico que o afasta dos aspectos glaciais da construção.

É o contraste entre a sua densidade e rendição singela que torna On Chesil Beach um livro tão raro e assinalável.

Querias.

A invocação da independência da Madeira com que Jardim ornamentou um jantar-comício em que a dívida ascendeu de súbito a cinco mil e tal milhões de euros (coisa pouca) parece um retrato da loucura do soba, mas não é.

O presidente do Governo Regional sabe que os continentais incham de gáudio sempre que nos confronta com a imagem grata e remota de uma casca-de-noz à deriva no Atlântico. Sim, imaginamos com prazer a pandilha fraldiqueira a rumar em direcção às Canárias. Gostaríamos até que levasse com ela o Cavaco e a sua maria, a Manuela e a sua virtude, o Gama e a sua barriga, toda a tropa fandanga que algum dia elogiou no Funchal a obra feita do homem enquanto nos pregava sobriedade e contenção. Jardim sabe o que nós sabemos, por isso apela à independência.

Era só o que faltava.

A Madeira faz parte do território nacional nem que seja de grilhetas. Querem votar no Jardim? Votem. Querem roubar à descarada? Roubem. Mas daqui não saem até pagarem ao tostão. Os impostos que lá estão enterrados remuneram-se com o suor e as lágrimas dos madeirenses. Não há outra estratégia, nem há outra maneira. E é bom que isto fique claro a tempo das próximas eleições.