vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Setembro, 2011

Ah, outra coisa.

Para os defensores das políticas de estímulo ao consumo interno, eis um gráfico que nos revela as exportações em percentagem do PIB em cinco países da União Europeia com população equivalente.

Dá que pensar, não?

Tomar as dores da Maria pela Maria das Dores.

Vasco Pulido Valente, unindo a sua voz à voz sempre serena de Medina Carreira, ergueu hoje bem alto a corneta do apocalipse e anunciou-nos o Declínio do Ocidente. Alarmado, fui logo ver como estavam os relatórios da competitividade global em 2011. Estão assim:

1. Switzerland
2. Singapore
3. Sweden
4. Finland
5. United States
6. Germany
7. Netherlands
8. Denmark
9. Japan
10. United Kingdom

Apesar das dívidas, e apesar das dificuldades institucionais que só um doido pode ignorar, talvez seja um pouco cedo para sugerirmos que os males da pátria se confundem com os males da Europa e da civilização.

Portanto é assim.

De um dia para o outro toda a gente que andou por aí a defender a despesa pública é inimputável, excepto Alberto João Jardim. Neste assunto tenho a consciência tranquila porque sou de esquerda mas sempre temperei o meu escasso keynesianismo com sensatez. Os arquivos do blog estão cá para o provar. Faz parte das peculiaridades do país que quem se calou perante as PPP, o novo aeroporto de Lisboa ou de Beja, a corrupção desbragada, a terceira auto-estrada do norte e o TGV agora berre e vocifere contra as dívidas da Madeira. Mas só há um homem em cargos públicos com autoridade para dizer isto:

Tive uma grande tarefa que foi tapar o buraco financeiro que tenho. Sobre buracos financeiros não tenho mais a acrescentar do que tenho vindo a dizer ao longo de dez anos, aliás com muitas críticas. Chamaram-me muitas vezes contabilista, disseram que tinha pouca ambição e pouco rasgo… agora a Câmara do Porto tem as finanças equilibradas e o rasgo dos outros foi tanto que rasgaram o futuro do país.

E acabou a conversa (via).

Social media simples (2).

Já tenho um blog e agora? Agora divide os teus leitores em grupos, jovem. Por exemplo, o grupo dos que te seguem no Google Reader e o grupo dos que dialogam contigo. Geralmente apreciam coisas diferentes, como se verifica aqui (6 like no Reader) e aqui (23 comentários). Quando me apetece brincar com estas coisas escrevo posts dirigidos: didácticos para o RSS, provocadores para os comentários.

Podemos distinguir outros grupos entre os leitores no Vida Breve: gente que só pensa em política, gente que prefere textos pessoais, os que vêm para rir e os que apreciam a minha escrita (estes têm tido azar). Há meses comecei a escrever para três ou quatro leitores muito especiais, que não resistem a textos sobre livros. É gente discreta e sofisticada.

Não sou constante na elaboração destes jogos, embora me dê prazer avaliar como alcançamos as pessoas de maneiras variadas. Mas padeço de uma grande preguiça e interrompo o blog com frequência, o que tem consequências: antes das férias recebia cerca de 900 leitores diários, agora sobram 600.

Ainda bem que não me pagam.

Ai, a demagogia.

No Público de hoje a coisa atingiu níveis nunca antes alcançados (o que não é dizer pouco, porque lá escreve a Helena Matos) graças a uma crónica do Rui Tavares em que ele sugere que a ausência de Governo na Bélgica impediu as políticas de austeridade, o que terá feito crescer a economia.

Está bem, abelha.

Se o Rui Tavares quisesse abordar estes assuntos com algum rigor repararia que a ausência de Governo na Bélgica também impediu as políticas expansionistas, assentes no investimento público e no incremento da dívida, o que se calhar fez crescer a economia.

Portanto, ficamos assim.

Troy Davis.

Um editorial do New York Times para os nossos rapazes que veneram a justiça americana.

José Pedro Cortes, que está nos Encontros da Imagem em Braga (via).

Social media simples.

Você tem um negócio e disseram-lhe que devia promover os seus produtos na net, certo? Blog em wordpress, página no facebook, umas larachas no twitter, filmezinho de demonstração no YouTube, dedo a mexer no StumbleUpon, bookmarks no Delicious, fotografias do congresso da alfafa no Flickr ou no Instagram, connections no Linkedin (o resto é conversa), poder e glória no Foursquare, newsletter para os prospects e mais, mais, muito mais.

Mas agora, só uma pergunta: como é que você tem tempo para trabalhar?

Fácil:

  1. Criar conta no Google Reader.
  2. Criar Google Alerts (ou pesquisas no Twingly) com as palavras-chave da indústria (ex:”alfafa”) e enviar os resultados em RSS Feed para o Google Reader.
  3. Criar blog no Tumblr e partilhar aí as novidades que chegam pelo Reader.
  4. Ligar o Tumblr ao Twitter e ao Facebook, para fazer actualizações automáticas.
  5. Colocar estas aplicações no seu iPhone (é o século XXI, amigo).

Para instalar tudo isto não precisa de mais que uma hora. Para se actualizar, fazer amigos, partilhar informação e responder a comentários — vinte minutos por dia. Com mais cinco minutos por dia de Linkedin (o resto é conversa) pode ir plantar alfafa até ao anoitecer.

O mundo já é muito complicado.

Professor Karamba.

Estava a falar com os meus botões sobre o futuro da literatura portuguesa,  um assunto que domino tão bem como a mecânica quântica ou a propulsão a jacto. De qualquer modo, eis o que me parece que faz falta para animar a malta:

1. Uma literatura da nostalgia. Não a nostalgia dos afonsos, por amor de deus, mas uma nostalgia dos anos noventa, idade do ouro e da fartura. Evitem copiar o Hanif Kureishi (já sei o que a casa gasta).

2. Um novo realismo. Sem os filmes do Pedro Costa, os bairros degradados ou a heroína para a veia. O assunto da década é o declínio da classe média.

3. Uma literatura da evasão.  Mas elegante, faz favor. Referências: Love’s Labour’s Lost, Marivaux, o Século XVIII em geral.

4. O fim do sexo. Porque, sejamos práticos, ninguém no seu juízo quer competir com o consultório de dildos da Nova Gente ou mais um casamento gay na Ilha da Caras.

5. O regresso dos escritores malditos. Céline, Pound, Orwell, whatever. Um aviso: não vale escrever em blogues (mesmo que sejam blogs piquenos e sem concessões), ter página no Facebook ou dar entrevistas ao Canal Q. Ou querem destruir esta merda ou querem lucrar com ela — recordemos que o cinismo já deu cabo da literatura francesa.

6. O regresso das histórias e uma alergia saudável ao pós-modernismo. Mas neste caso devemos evitar uma certa tacanhez da alma conservadora. Evelyn Waugh está enterrado há décadas e o João Pereira Coutinho, haja bom senso, não é definitivamente o seu profeta.

Coisinhas boas.

As autoras do Jugular estão estarrecidas com a dívida madeirense. Parece que os benefícios do investimento público não se verificam nas regiões autónomas.