Não explicam.

O horror, a tragédia, a malandragem. No Jornal de Negócios dá-se hoje voz à angústia sem fim que devasta o sector do calçado. Os empresários do ramo precisam de mais 1500 pessoas, mas não há em Portugal 1500 pessoas que queiram trabalhar. Entre gritos lancinantes de impotência e desânimo, os nossos criadores de empregos confessam que já tentaram tudo, excepto aumentar salários — porque os salários baixos, evidentemente, não explicam a situação.

Claro.

O que explica a situação é o sol e a praia, a ausência de valores, o colapso das famílias, o tabagismo e o consumo de psicotrópicos, o declínio da fé verdadeira, o aborto livre e a natural propensão para a indolência do barrasco lusitano.

Tudo excepto os salários baixos.

Aliás, quatrocentos e oitenta euros por mês em Santo Tirso dão lindamente para alugar um T4 e pôr os filhos no colégio. Ao fim de semana joga-se golfe em Arcozelo ou dá-se um saltinho ao Bull & Bear.

Os salários não explicam, portanto. As leis da oferta e da procura funcionam em todo o lado mas são miraculosamente suspensas acima de Valongo, nas fábricas de calçado português. As empresas do mundo inteiro atraem funcionários com dinheiro e regalias, excepto na Cancela & Teresinha, na Natália Lda ou na Tavares & Irmãos. Aí podem lançar à rua libras de ouro ou maços de notas que não aparece ninguém.

Esta situação chocante  justifica que o Governo tome uma atitude firme para persuadir os nossos compatriotas a trabalharem um pouco mais. Talvez, enfim, com a subida do IVA, um aumento do preço dos transportes ou o fim das comparticipações nos medicamentos.

Já foi feito? Então mandem a polícia.

21 pensamentos sobre “Não explicam.

  1. Um conselho aos seus leitores (e, como estamos em crise, é de borla): quem tem putos, é inscrevê-los já nas jotas e obrigá-los a lamber cus desde bem pequeninos (e isto sem qualquer conotação pedófila, bem entendido). Assim, talvez não precisem de se transformar em ‘malandros’ que recusam situações que roçam a escravatura — e que tanta gente (no Governo, quase toda) acha muito bem.

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        1. Marguerite Yourcenar 60 anos em homem. Pulha 40-45. Cobre (Cu) menos de 35 ou mais de 60, and so one and so one…O c definitivamente 61 🙂
          Prefiro quando fala de música.

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          1. Que grande confusão para aí vai, henedina! Mas, em todo o caso, não é relevante.
            Falo muito de música, é verdade, mas escrevo pouco — escrever um texto com princípio, meio e fim, quero dizer. Por acaso, escrevi um para um blogue onde o autor deste também escreve: o Delito de Opinião. Na altura não achei nada de especial (embora tenha tido o cuidado de escrever um texto decente), mas hoje, relendo-o, não desgosto (no sentido em que já li textos muito piores saídos da pena de supostos críticos musicais); se tiver interesse, aqui fica o link: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/2139284.html; se não tiver , ignore.

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  2. Costumo ter pensamentos semelhantes quando se queixam de que os Portugueses poupam pouco. Eu diria que se os bancos ou outras instituições financeiras não reservassem para si uma margem tão grande de intermediação financeira talvez fosse possível remunerar melhor os depósitos sem aumentar os valores a que o dinheiro é emprestado. Mas cortar gorduras nos bancos é certamente muito difícil e por isso, em vez de usarem a lei da oferta e da procura, preferem fazer admoestações para que poupemos mais sem alterar a taxa de remuneração da poupança.

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  3. Caro Sr Jorge
    Esta semana, na região de Champanhe, encontrei um grupo de portugueses do Fundão a trabalhar nas vinhas. Uns pulhas! Em vez de o fazerem por cá preferiram ir para França. Só porque lhes pagam mais do dobro. Que falta de patriotismo!
    E por aqui me fico. Tenho que fazer. Como ir ver se o sacana do marroquino limpou como deve ser as jantes do meu novo 458 Spider

    Cumprimentos
    Miguchas Champamorim
    Pé na Bilha, Calçado Cool – Felgueiras
    Sócio gerente

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  4. É mais fácil dizer que os portugueses gostam de preguiçar, preferem o subsidiozinho e abominam levantar cedo da caminha para coser a sola ao couro. Haverá gente dessa, disso não tenho dúvidas, mas haverá sobretudo empresariado que confunde mão de obra pouco qualificada com candidatos perfeitos a quase escravos. Faz lembrar o senhor do Pingo Doce que aspira a ensinar os seus funcionários a gastarem bem o dinheiro enquanto se esquece da miséria que lhes paga. O mundo está perigoso e o país uma lástima, é o que é.

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  5. Em Portugal, quanto mais ricos, mais esclavagistas. Gostaria de dizer diverso, mas tenho em casa a esposa que trabalha para um e não me deixa mentir. A manipulação e a impiedade são servidas com falinhas mansas e extrema cordialidade, enquanto se baixa o vencimento, alegando dificuldades de última hora mesmo se os guarda-fatos estão repletos, mês após mês, de tralha nova sempre caríssima. Ora fodam-se! Mesmo o meu pai viveu e vive, graças a Deus, como escravo mantido como escravo na mesma empresa há mais cinquenta anos!

    É bom ter trabalho. Não é bom ficar refém seja do que ou de quem for.

    Logo um homem por natureza austero e moderado como ele. Não enriqueceu. Não viveu. Não saboreou. Só trabalhou o suficiente para se manter e nos manter a nós, agarrado ao trabalho mal pago for ever and ever. Então só os dinamarqueses é que têm direito a serem felizes no trabalho, na vida familiar e social? Para nós não há nada, nada, nada?

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