Ficha de leitura: “Rites of Passage”, William Golding.

Nota: estas fichas de leitura são escritas para consumo próprio, servem-me para compreender um pouco melhor as obras e não para as apresentar ao leitor. Muitas vezes irão versar sobre pormenores de composição um tanto ou quanto rebuscados, mas coloco-as aqui porque talvez interessem a meia dúzia de pessoas.

Rites of Passage, primeiro volume da trilogia To the Ends of the Earth, ganhou o Booker de 1980. Há uma excelente recensão ao livro no blog do Guardian.

O plot é muito simples, o que só acentua a extraordinária perícia técnica de Golding. A caminho da Austrália, no início do Séc XIX, um jovem dandy redige, para diversão do padrinho, o relato da travessia. Os passageiros são caracterizados em tom de comédia ligeira até ao momento em que o reverendo Colley é praxado em público pela tripulação. Colley fecha-se no quarto e morre de fome e ensimesmamento. Mais tarde saberemos que esta tragédia foi provocada pelo embaraço de ter proporcionado um fellatio ao garboso marinheiro que o conduziu aos aposentos durante a embriaguez.

O que me interessa aqui é a precisão de relojoeiro com que Golding nos transmite a informação a pouco e pouco até a tornar devastadora. Isto é feito com recurso a várias técnicas:

  1. Uma longa exposição, que introduz a obra em tempo lento, muito enganador.
  2. A opção por um narrador homodiegético, que participa na acção mas:
  3. está ausente em momentos essenciais, ou tem acesso à acção de modo imperfeito, como ocorre durante a praxe.
  4. Para justificar a ausência do narrador, Golding cria um subplot amoroso e faz coincidir o seu clímax com a humilhação pública do reverendo.
  5. Este subplot é imediatamente extinto depois de cumprir a função.
  6. Ergo: pormenor raro e interessante, o clímax do plot principal (a praxe e não o fellatio, que no livro é quase uma coda) é ocultado pelo clímax do subplot. É a primeira vez que encontro isto.
  7.  Depois chega o momento da grande revelação, quando Talbot, o narrador, encontra o diário do reverendo. O leitor respira de alívio porque agora já sabe que vai ter acesso aos pormenores do caso e à explicação do suicídio de Colley.
  8. O diário de Colley serve ainda para nos revelar uma personagem angelical que contrasta muito com a caricatura desenhada anteriormente por Talbot — o que tem uma função importante na retórica da narrativa, porque cria uma nova verosimilhança, mas não só:
  9. esse angelismo também prepara a surpresa que o leitor terá ao deparar com a revelação do fellatio ao marinheiro.
  10. Segue-se aquilo que parece à primeira vista a resolução do livro: um falso inquérito que serve apenas para proteger os responsáveis.
  11. O inquérito conclui e sedimenta, neste livro, um dos grandes temas de Golding: a ideia de que num espaço fechado o verniz da civilização dá em pouco tempo lugar à barbárie, e que esta sempre triunfa.
  12. Nas últimas páginas, quando já nos despedimos da novela, é então testemunhado por duas personagens secundárias o acto sexual que de facto originou a grande vergonha e a morte do clérigo.

Em outras mãos este enredo daria lugar a uma pepineira. Golding transforma-o numa pequena obra-prima.

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9 pensamentos sobre “Ficha de leitura: “Rites of Passage”, William Golding.

  1. William Golding pode ser algo raro. por vezes abstruso, por vezes cruel e , como diríamos ? demasiado cínico ou descrente que ainda haja boa gente no meio da merdafulha. Pore, contudo, todavia, é um escritor genial. Golding é um pouco como pop-art: tranforma coisas meerdoozzas e comuns numa novela genial. Mas por favor, burguesia local, ler (ou aprender a ler) em inglês. Trad port. é vulgata para tipos/as com menos que a 4ª classe. Just my (not so humble two cents.

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  2. Vim espreitar, curiosa com o comentário do jaa sobre o novo cabeçalho. E dou com esta preciosidade que promete continuação, o que fará, provavelmente, com que eu volte a um hábito que perdi ultimamente: uma ronda pelos meus blogs preferidos. O teu é um deles.
    Sobre o cabeçalho? Perfeito. Se é para apostar, a vida mais breve deve ser a do pater familias do meio. Ou talvez a da menina feiota de biquini, que tem ar de quem vai suicidar-se por um amor incompreendido pelo professor de trabalhos manuais.
    Beijo!

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  3. Magnífica escolha.
    Vale a pena ler a trilogia completa, de uma ponta à outra.
    Uma pérola da literatura inglesa do último quartel do século XX, tantas vezes, e tão injustamente, relegada para segundo plano.

    Melhores cumprimentos do Outro Lado do Mundo,
    Luís F. Afonso, Japão

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  4. O Japão é fantástico, tudo desde as paisagens até aos ‘bairros tecnológicos’ de cidades como Tokyo, até à maneira como os meninos e as meninas se «produzem». Small problem: a gente não entende nada dakilo, perde-se nas calmas, e depois a chatice maior é que o meu japonês se resume a 5 ou 6 palavras, e eles têm a mania que só falam «akilo»…. 😉

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