O ano americano (6): Sabbath’s Theater.

As recensões que encontrei na internet variam entre o panegírico e o resumo alargado dos golos da jornada em programas sobre futebol. A melhor talvez seja esta. Não vou copiar o modelo porque só escrevo o que me interessa.

Sabbath’s Theater é uma história vulgar com um protagonista invulgar. Imagine o leitor que durante a meia-idade perdia a amante, extinguia o casamento, deixava a província para começar nova vida, ia ao funeral de um amigo, pensava vagamente em matar-se, se lançava com ânimo e sucesso variável a fêmeas indisponíveis, meditava um bocadinho na crueldade da velhice, visitava um familiar senil, comprava um jazigo, planeava o enterro, regressava a casa com o rabo entre as pernas para encontrar a mulher nos braços de outra e era caçado pelo filho da ex-amante, um sargento da guarda cumpridor e timorato que o abandonava na berma da estrada sem ter a decência de lhe dar um tiro. A literatura do século XX está cheia destas lérias, frequentemente melancólicas.

O que a literatura do século XX não tinha era uma história em que John Falstaff encontra Moll Flanders, ela lhe morre nos braços e ele se entrega a uma aventura pícara digna da Restauração. Roth deixa no livro pistas suficientes para que o leitor mais ou menos cultivado o interprete como deve ser, apesar dos silêncios sempre espessos da escrita jornalística.

Se eu fosse editor de Roth (um sonho bonito com apartamento em Tribeca, Sábados nos Hamptons, mesa de canto marcada no Le Bernardin)  dizia-lhe para tirar sessenta ou setenta páginas ao calhamaço. Mas tal como está é um belíssimo trabalho de construção de personagem, com utilização virtuosa do monólogo interior (nunca chato, sempre inesperado), e um plot solto, não desconexo, como é próprio do cânone.

O sexo? Ah, sim, o sexo: está muito bem.

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8 pensamentos sobre “O ano americano (6): Sabbath’s Theater.

  1. Sabe o que é o maior prazer da leitura, Luis? É recordar que no momento em que li a última frase desse livro pensei que não ia encontrar facilmente um livro que me desse tanto prazer. Hoje, a meio da leitura do “Solar” de Ian McEwan, sei que encontrei esse livro. Mas sim, tenho saudades do Sabbath.

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  2. “Toda a gente anda a ler o Sabbath.” Que frase mais “lisboeta”. O país é Lisboa e o resto é paisagem (Eça). Não anda “toda a gente”, eu sou gente e não estou a ler o Sabbath.

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