Pois é.

Nada mostra melhor os limites da concepção representativa de democracia de Daniel Oliveira do que o seu post sobre os “caloiros” do novo governo. Não há uma linha deste post em que, de uma maneira ou de outra, não se afirme que o governo deve ser confiado a políticos profissionais experientes e/ou que os governantes devem ter qualificações técnicas especializadas que os distinguem do comum dos cidadãos e os qualificam para o seu papel de condutores. O que é o mesmo que adoptar na íntegra o princípio da  distinção entre governantes e governados, que a razão de Estado formula, e todas as suas consequências classistas e hierárquicas.

Miguel Serras Pereira, aqui.

O Daniel passou estes dias a esclarecer-nos que se alguém não esteve no Governo não é agora que deve estar. Simplifico, eu sei. Mas no limite do seu raciocínio, para além dos políticos cheios de samba, familiarizados com as manhas dos funcionários públicos e das corporações (onde é que já ouvimos isto?), sobrariam dois ou três técnicos de reconhecido mérito com experiência nos estábulos de Áugias da burocracia lusitana, a que seriam entregues uns ministérios piquenos, muito especializados.

Só que este argumento, tardiamente conservador, não dá muito espaço à ruptura. E precisaremos de rupturas? Não estamos no PREC, afirma como um bom cristão o Daniel Oliveira. De facto. Mas estamos na terceira intervenção do FMI desde 1974, numa economia que não cresce há uma década, e temos 128 mil processos de cobranças de dívidas no valor total de 20.8 mil milhões de euros a pastar nos tribunais. Por vontade do Bloco teríamos também um novo aeroporto de Lisboa e um TGV em construção. Por vontade do PS tínhamos ainda uma terceira auto-estrada Lisboa-Porto, um colosso de Rodes na Caparica e os jardins suspensos da Babilónia a brotar na Golegã. Estas foram as provas dadas pelo traquejo dos nossos melhores políticos.

Algum espírito revolucionário, apesar das fraquezas evidentes do novo Governo, é capaz de não ser mau.

Anúncios

9 pensamentos sobre “Pois é.

  1. Um Colosso de Rodes na Caparica talvez não seja uma grande ideia mas parece-me uma ideia no mínimo bastante grande. Podia ficar com um pé junto àqueles silos da Trafaria e com outro junto ao farol do Bugio, poupando-se assim na sinalização para os navios. Quando se chegasse de avião devia ser giro dar um giro em torno do Colosso de Lisboa!

    Gostar

  2. Ah, e já agora sobre o governo, algumas pessoas gostariam de ter caras novas mas com grande experiência política! Na engenharia também há quem queira equipamentos revolucionariamente novos mas com muitas referências de utilização sem problemas!

    Gostar

  3. Comecei a ler “O que resta da esquerda – Mitos e realidades das esquerdas no governo”, de Franco Cazzola. Da introdução (o autor chama-lhe premissa) retiro este parágrafo, que dedico ao Daniel Oliveira (e que triste é dedicar isto a alguém que se diz de esquerda-mesmo-esquerda): «A alternativa é permanecer indolentemente na zona cinzenta: aceitar que pensar a política é apanágio dos palácios, que não nos toca, que só diz respeito «a eles», àqueles que vivem da política, não acreditando que a política é, na realidade, a vida.»

    Gostar

  4. Deste argumento a única coisa positiva que se tiraria é que os meninos do bloco nunca poderão estar no governo.

    Não têm experiência governativa…..

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s