Depois do camping.

Em Lisboa houve jovens deitados no Rossio depois de haver jovens sentados no Rossio. Escrevo a palavra em itálico porque o Público nos revela testemunhos de gente com 31, 33 e 37 anos. Quando eu era trintão (tenho 42) mandava para o caralho quem me tratasse por jovem, mas suponho que o termo não perturba a jovem Alexandra, o jovem Renato ou a jovem Madalena, desempregados e ex-estudantes, sem ambições visíveis para além da instauração de uma democracia de verdade derramada na Baixa de Lisboa em doze dias de comité e um dia de sesta.

Tenho amigos com 37 anos e 15 de empregos precários que estão a pagar casa e a criar filhos sem que a imprensa os imortalize em conversas de merda. Mas, lá está, esses não são jovens. Não querem despertar consciências, nem revelar ao mundo novas formas de activismo. Não se manifestam contra a injustiça, nem organizam assembleias populares para fazer a mudança. Os meus amigos pertencem à vala comum dos portugueses que ganham mil e tal euros mas gastam 400 num colégio privado para que as crianças não se afoguem nem levem bordoada. Gente desinteressante e conformista, que não dá voz à utopia, gente cercada de silêncios.

Entretanto, parece que em Atenas e em Barcelona os jovens se fartaram de estar deitados. Vem aí a democracia verdadeira, a revolução e a puta que os pariu.

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34 pensamentos sobre “Depois do camping.

  1. Um dia uma sra amiga da minha mãe perguntou-me o que fazia. Cansado de responder que trabalhava em publicidade mas que não era criativo e muito menos tinha feito o anúncio dos bebés da Expo respondi-lhe que roubava aos pobres para dar aos ricos (o que não sendo verdade, também não era totalmente mentira). A Sra com um ar muito indignado perguntou-me: “não verdade, pois não?”

    E eu pergunto-te. Este post é também um bocadinho para ser do contra, não é ? Ou parafraseando a sra amiga da minha mãe with a little twist: Tu não és (completamente) assim, pois não, foda-se?

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  2. Interessante ver este cerco à contra-revolução. Se me permitirem os indignados, é só para dizer que estou farto da merda dos Deolinda e dos artigozecos justificativos da acomodação, de jovens ou menos jovens licenciados que querem iniciar a vida a ganhar o que acham justo não obstante a sua gritante impreparação. Ok, já me posso ir deitar descansado.

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  3. Não ia comentar pq não concordo com a p.q.p. mas vou.
    Acho esta frase engraçada. “Tenho amigos com 37 anos e 15 de empregos precários que estão a pagar casa e a criar filhos sem que a imprensa os imortalize em conversas de merda. ” Eu tb. Não com 15 mas com alguns e a precariedade e sobretudo o discurso que já é bom ter emprego, a perda de conquistas de Abril.
    Os Portugueses tem de trabalhar mais 1 hora…Merckel.
    O PM disse que ia privatizar 40% das aguas de Portugal e as telecomunicaçoes. Porque não vende a Alemanha os submarinos que ela nos vendou e não nos fazem falta em vez de vender aos alemães a agua que é a nossa soberania e verdadeira sobrevivencia. Se a Alemanha quer ajudar Portugal proponham-lhe isso sejam criativos.
    Esta crise é uma especulação e só os que a provocaram vão lucrar com ela, é injusto.
    Um colega holandez disse no mes passado em Italia, vou pagar as tuas dividas. Dá-se o caso que eu não tenho dividas, tenho liquidez e não me casei pq não admito que nenhum homem mande em mim e me atire a cara que me esta a sustentar e agora ouço isto. Não não vou acampar na rua tenho coisas mais criativas para fazer – Por ex escrever nos blogues explicando que hã outras saidas para a crise.

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          1. Se mandasse para a orientar para o que deve fazer, no sentido de lhe trazer felicidade seria bom.
            Se mandasse só por mandar seria mau.
            OU
            Se fosse eu o homem seria mau. Se não fosse acho muito bem que não se deixe mandar.
            OU
            another explanation

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            1. Luís Jorge “Every word is like a knife / But the silence cuts you twice”.

              Espero, contudo, que não seja knife senão fica como o jovem de 40 anos que falou do acampamento na Grécia.

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    1. «[…] não me casei pq não admito que nenhum homem mande em mim e me atire a cara que me esta a sustentar […]»

      Henedina, permita-me que lhe diga que nem todos nós pretendemos mandar nas mulheres. Alguns de nós concebem a ideia de uma relação sem qualquer espécie de hieráquia — e, certamente, alguns de nós até preferirão obedecer.

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      1. Claro que sim Carlos.
        Preferir, preferir, preferem mandar mas há os que preferem partilhar (sobretudo, se não os deixarmos mandar 😉
        Vou até confessar-lhe uma coisa, o meu maior pesadelo é apaixonar-me tanto por um homem que fique a babar e que ele aproveite a “doença”. Acho que podia ser tão palerma como qualquer outra.

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    2. Se afirma que a “água” é a nossa soberania e a nossa sobrevivência por que razão considera que os submarinos são inúteis?

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  4. Eu compreendo o que queres dizer. Mas não te esqueças do que escreveste a propósito dos ciganos, da Europa, VanGogh, Vitor Hugo, o Lizst, e o Bartok. Não porque os jovenzinhos se me afigurem representantes do pitoresco intemporal. Mas antes porque, a espreitar por entre esses colégios privados de 400 euros, vislumbro por aí um sentimento de exclusividade e uma aspiração aristocrática mal resolvidos e que são mais conformes a um liberal à moda antiga.

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    1. Mais do que aristocrática, parece-me mais uma aspiração legítima. Talvez se as escolas públicas não tivessem um programa extremamente politizado (de esquerda), os particulares não estariam a rebentar pelas costuras.

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      1. programa extremamente politizado (de esquerda)??
        Colégios privados e defesa de submarinos.
        Está no governo, é Portas…

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  5. Puta que os pariu. Mas o que está ali no Rossio é um refugo romântico. Tenho 30 anos e todos os meus ex-colegas de faculdade estão empregados, quase todos na área em que se formaram. Estou a falar de gente especializada, uma amostra de 50 pessoas, pelo menos. É verdade que todos estamos com contratos a prazo, mas encaramos essa eventualidade como uma mudança de paradigma da progressão na carreira e não como o sinal do apocalipse final. Fora isso, todos apostaram na mobilidade laboral, na diversificação das competências e na melhoria da formação. Muitos circularam, ou permanecem, no estrangeiro. Muitos têm filhos, são casados e são pessoas que se adaptam facilmente às circunstâncias exigentes de um mercado de trabalho que é global. Tive colegas que trabalharam na Mongólia e no Chile, fazendo prospecção mineira, para poderem investir num projecto de agro-turismo cá na terrinha, por exemplo. É gente com elevado poder de encaixe face à adversidade e que, tenho a certeza, sempre estará bem, aqui ou lá fora, porque os seus projectos se fundamentam mais no seu talento e capacidade, do que na passividade própria de quem tudo espera do estado, das empresas e nem sequer equaciona sair do bairro onde sempre viveu.

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    1. Gostei de o ler. Afinal de contas qual do COMUM dos mortais não começou de modo precário? É cada vez mais raro ler destes exemplos em pessoas da sua idade. Ou andam escondidos e sem tempo ou a palavra tem sido demasiado dada aos nem-nem.

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  6. Gostei do primeiro parágrafo, mas o segundo quase que apaga o primeiro. Porque “a vala comum dos portugueses” não ganha mil e tal euros, e muito menos tem os miudos num colégio particular. Mil e tal euros já é classe média (média-alta?). Podem ser migalhas, mas mil e tal euros é o dobro das migalhas que a maioria do pessoal ganha. E isso faz toda a diferença.

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  7. Gostei do post, mas sejamos honestos – não há reabilitação sem alguma demolição. E será de esperar que nos próximos tempos, muitos jovens e não só, partam um pouco mais que uns vidros. Mas faz parte e é necessário. Não há revoluções – de ideias ou de práticas, sem violência. Essa ideia de que somos um país de brandos costumes foi uma mentira do estado novo, repetida até à exaustão – até se tornar uma verdade.
    E como nem eu nem o Luís, nem esta geração viveu a experiência desse tempo, retomar-se-á de novo o velho ciclo de revoluções… com sangue, suor e lágrimas.

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  8. Amigos “que estão a pagar casa e a criar filhos” . Amigos que “gastam 400 num colégio privado para que as crianças não se afoguem nem levem bordoada”. Espere lá, Luis M. Jorge, deixe-me fazer umas continhas.
    Aprecio essa admiração incontida pelo ethos protestante e capitalista do trabalho, mas há pouco tempo li um textito que se non e vero, e bene trovato.

    “Uma das perversidades do desemprego é talvez ter emprestado ao trabalho, mesmo ao mais estupidificante, uma aura que já tinha perdido durante os anos de prosperidade. Obcecadas pelo pleno emprego, as nossas sociedades pretendem ocupar as pessoas a todo o custo e celebram a escravatura salarial sem se interrogarem sobre a qualidade dessa ocupação. Ao ponto de a sobrecarga de trabalho se ter tornado um sinal ostentatório de potência; e ainda que as classes laboriosas aspirem à ociosidade, as classes ditas ociosas tornam-se laboriosas, fixando-se para si próprias semanas de 60 a 80 horas e exibindo o excesso de trabalho como índice da sua superioridade.”

    Pascal Bruckner

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  9. Dando espaço de respiração à minha costela-direito-à-preguiça (tenho outra costela-perigosamente-reaça mas, agora, vou deixá-la em repouso): o circo da freakalhada do Rossio não deve ser usado como moeda -desvalorizada – de troca em relação aos valorosos heróis do trabalho que, contra crises e bancarrotas, fazem bravamente pela vida. Os meus mais saudáveis instintos conduzem-me, instantaneamente, a bater palmas à citação do Pascal Bruckner, acima. Claro que o mundo real é fodido e tentar pôr em prática com uma fé de dominicano o horror ao “tripalium”

    http://lishbuna.blogspot.com/2009/05/trabalhotrabalhador-arbeit-macht-frei-o.html

    nos tempos que correm, pode, facilmente, provocar traumatismos irreversíveis. É por isso que a minha versão privativa em curso da “Arte De Viver Para A Geração Nova” argumenta assim: 1) nunca perder de vista a perspectiva-a-minha vida-não-é-isto: andamos por cá demasiado pouco tempo para que a “ética do trabalho” nos deva entusiasmar; 2) You gotta do what you gotta do: deixem-se de merdas, se for indispensável dar meia dúzia de coices, que se dêem, mas – (re)citando sempre os clássicos – “I beg your pardon, I never promised you a rose garden”.

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  10. Está visto, João Lisboa, sem etimologia não há revolução. Também sinto a língua morta, o latim não vai morrer. E aqui vai mais um “coice” para o ethos ergomaníaco.

    DICIONÁRIO DO MOFINO

    Trabalho, s.m. Actividade humana que, à medida que nos extenuando, vai atenuando o temor humano do Eterno Descanso; Nietzsche considerava que a sua época, a mais laboriosa até então, nada mais sabia fazer do seu trabalho e do seu dinheiro senão mais trabalho e mais dinheiro, coisas nem sempre equanimemente quinhoadas e causa de grande desacerto entre os homens; segundo a opinião avisada de Adam Smith, o Pater Familias do liberalismo económico, o trabalho implica a renúncia à tranquilidade, liberdade e felicidade, o que explica a divisão clássica entre Trabalho e Capital e a preferência universal pelo segundo.

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