Menino ou menina?

Sempre julguei, com o atrevimento do costume, que não teria dificuldade em reconhecer o sexo de qualquer escritor a partir de um trecho retirado ao acaso da sua obra. Suponho que fui mal orientado na meninice pela leitura dos velhos manuais de análise literária, muito estruturalistas, do Kaiser (ou Kayser, não recordo) que a minha mãe empinara esforçadamente em românicas. O certo é que V. S. Naipaul provocou a ira das inglesas com uma afirmação semelhante a que acrescentou alguns insultos: I read a piece of writing and within a paragraph or two I know whether it is by a woman or not.

Será possível? O Guardian fez o teste e eu falhei miseravelmente (cinco respostas certas em dez, se quer mesmo saber). Assim terminam, uma a uma, as ilusões da nossa juventude. Talvez você tenha sorte.

45 pensamentos sobre “Menino ou menina?

  1. You scored 1 out of a possible 10
    Awful. What are you, a girl or something?

    Ó Luis M. Jorge, eu não venho aqui para ser insultado. Veja lá.

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  2. Muito gostaria de contribuir para equilibrar a disputa mas sou eu, até agora, o mais burrinho: «You scored 4 out of a possible 10 / Sloppy thinking. You clearly need to read more books by men.» E com o factor agravante de ter reconhecido de imediato um dos parágrafos citado (o extraído do livro da Zadie Smith); pelo que, no fundo, acertei apenas em 2 em 8.

    Já agora: http://www.guardian.co.uk/books/2011/jun/03/v-s-naipaul-diana-athill. O V. S. Naipaul é um tonto — li “Somewhere Towards The End” e achei o livro simplesmente maravilhoso.

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  3. 7 em 10, mas um dos que errei foi no Nicholas Sparks, ou seja, escrita de gaja, por isso acertei em 8.
    Contudo errei num livro que até já li, “Filhos da meia noite”, Rushdie. Dá direito a penalização?

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    1. Tive o mesmo horrível pensamento…”Nicholas Sparks, ou seja, escrita de “gaja” ou melhor que os homens estúpidos julgam que todas as “gajas” gostam”. Então acertei 7.

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  4. A primeira vez que li uma página da revista Time Out Lisboa avancei imediatamente que a redação seria composta quase exclusivamente por gajedo. E, sem ler a ficha técnica e consultando um amigo jornalista, confirmei a certeza do vaticínio. Se na verdadeira literatura a distinção de géneros através do estilo não é possível, o mesmo não se pode dizer da escrita popular (música e imprensa sobretudo). Talvez fosse isso que Naipaul queria dizer.

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  5. 7 em 10, e também errei na menina Nicholas Sparks.

    De resto… Naipaul não foi muito feliz. Não se parte de uma constatação formal (“homens e mulheres expressam-se de formas diferentes”) para um juízo sobre a qualidade das escritoras…

    Mais valia ter-se ficado por aquilo que as feministas (ou agora é “gender studies”?) já dizem há muito: que a linguagem serve e perpetua um modelo de sociedade patriarcal, e as escritoras sentem que não há formas adequadas vigentes que exprimam o seu pensamento. Por isso sim, é possível perceber – até certo ponto – se quem está a escrever é homem ou mulher. Butler, Kristeva, Cixous, todas contribuem para uma ideia e necessidade de uma “écriture féminine” (a qual, no entanto, confiamos que não tenha nada a ver com a entediante prosa académica das suas proponentes).

    A Virginia Woolf também disse o mesmo que Naipaul, há quase um século. Olhando para um trecho de uma das irmãs Brönte, ela pode muito bem dizer: “that’s a woman’s sentence”. Não explica porquê, mas nem precisa, porque nos deixou livros tão “iguais” ou superiores a qualquer livro escrito por um homem.

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    1. “De resto… Naipaul não foi muito feliz. Não se parte de uma constatação formal (“homens e mulheres expressam-se de formas diferentes”) para um juízo sobre a qualidade das escritoras…”

      Exacto. Um tipo para escrever bem não tem de ser filósofo, portanto.

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    2. “tão “iguais” ou superiores a qualquer livro escrito por um homem”.
      Oh! António.
      Nem tenho palavras para comentar este lapso.

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  6. Não são só os homens que são uma desgraça: 6 em 10 foi o meu score. Li 5 dos livros que lá estão e pensei “reconhecer” dois deles. Suspeitei que o primeiro fosse de Naipul (suspeita confirmada) porque sim (ou não fosse um jornal inglês) e porque li alguns livros dele de que muito gostei e o parágrafo faz o seu género. Tudo combinado faz do meu score uma pequena catástrofe e da minha memória uma quase calamidade. Mas foi bom enquanto durou.

    Eu tenho sérias dificuldades com esta história dos géneros em literatura. Para mim Yourcenar ou George Elliot escrevem como um homens e Rushdie ou Proust escrevem como uma mulher; Roth escreve como um homem e Emily Brontë como uma mulher. Enfim, poderia continuar os exemplos…
    Joana

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    1. Proust escreve como uma mulher??? Não leu Proust, atentamente. Proust é puramente cerebral e no sentido de que a escrita feminina o seria menos, mais intuitiva ou emotiva, é dos mais masculino dos escritores.
      Mas a questão é, em literatura razoável, uma mera boutade.

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      1. “Proust é puramente cerebral”, logo não ele escreve como uma mulher. Logo eu não li Proust, “atentamente” (há outra maneira de ler?). São três os seus pontos de interrogação, caro José Lopes. E é um pouco apressado o seu espírito dedutivo. Com estes argumentos até Naipul era capaz de concordar consigo. 🙂 A minha intuição, a sensibilidade e experiência (são muitos anos a ler muitos livros de muitas e variadas épocas e culturas e de autores(as) bem diferentes), não funcionam assim do género taxativo a cair no lugar comum: cerebralidade = homem; sensibilidade = mulher. Podia tentar explicar cada uma das minhas afirmações, (que tive o cuidado de preceder com um “para mim”) que são também uma provocação e nunca um dogma, mas seria irrelevante neste contexto.

        Se esta questão tivesse uma resposta fácil, todos teríamos 10 em 10 no questionário do Guardian, e não nos divertíamos.
        Joana

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        1. Pois. Eu li o Proust quase de ponta a ponta (excepto o Jean Santeuil e a “Matiné” póstuma que a Gallimard publicou com certo oportunismo) e não saberia desenvencilhar-me desta questão: Proust é “puramente cerebral”? Hmmm. Mas Ser “puramente cerebral” quando alguém se foca em apontamentos minuciosos, cheios de revelações psicológicas, ainda é ser “cerebral”? E os arrebatamentos estéticos (a descrição de Veneza, para dar um exemplo, a sonata de Venteuil, etc) são”cerebrais”? Coisas complicadas.

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          1. “Proust é puramente cerebral”, logo não ele escreve como uma mulher. Nem CS sentencearia melhor.
            Eu engano-me…

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        2. Desculpe não ter respondido antes, mas pensei que o meu comentário não seria publicado. Se adiantar algumas características da escrita feminina poderei continuar a tentar perceber a razão pela qual acha que Proust escreve feminino. No meu comentário adiantei os pressupostos de onde parti para o que disse.
          Anotei os seus argumentos de autoridade impressionística.

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  7. Tenho uma certa inveja de uma caixa de comentários como esta num assunto como este. Sem sindicalistas, imbecis ou simples palermas.

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    1. Filipe: o botão do spam ajuda. Hoje em dia só cá vem gente de quem gosto.

      Por falar nisso, nunca percebi a ideia muito difundida de que um blog era uma espécie de democracia em que qualquer troll diz o que lhe apetece. Para mim sempre foi a minha casa, e os comentadores são meus convidados. Esse estatuto inclui o dever de me proteger, mas também o de os proteger (ou a vós).

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