O ano americano (4): “American Pastoral” e “Portnoy’s Complaint”.

Resuma Hamlet: Ah, e tal, um príncipe da Dinamarca descobre que o pai foi assassinado, hesita um pouco e mata toda a gente. Resuma American Pastoral: Ah, e tal, um homem esfalfa-se, obedece ao pai, respeita o irmão, cria uma família, ama a mulher, protege a filha e todos o odeiam.

Resumir um clássico — eis a questão.

Sem saber desenvencilhar-me, avancei para Portnoy’s Complaint. Foi uma boa ideia, porque agora posso compará-los enquanto lhe explico a minha teoria revolucionária sobre a dupla identidade de Philip Roth. É simples: o livro de Portnoy, publicado 1967, não pode ter sido concebido pelo mesmo homem que escreveu a Pastoral vinte anos depois.

Que o equívoco, agora desfeito, se tenha prolongado durante várias décadas não deve surpreender-nos. Ainda hoje Hamlet é atribuído pela plebe ignara a um burguês prudente de Stratford-upon-Avon e não a Francisco Bacon, apesar das provas irrefutáveis que apontam para o filósofo. A verdade, em literatura, nem sempre coincide com os factos.

Roth, o autor de Portnoy, a promessa ávida de glória, foi rendido por “Roth”, o usurpador. Roth era um romancista, “Roth” é um demiurgo. Roth explicava, “Roth” revela. Roth contava, “Roth” constrói. Roth exibia-se, “Roth” aterroriza-nos.

Se Portnoy era o Adrian Mole da América judia,  Swede Levov é Cândido guiado por Virgílio a uma parte do inferno que Dante não frequentou. Mas nós frequentamos. O pai que vê na rua uma criança atropelada e tem palpitações, frequenta-o. Depois reconhece o seu filho, e frequenta-o. Embora o estilo de “Roth” seja contaminado por certa nostalgia, o irrecuperável é menos importante que o inútil. A história de Swede é a descoberta da inutilidade de um homem bom — o leitor descobre-a ao ritmo de Swede, e daí resulta uma extraordinária eficácia narrativa.

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2 pensamentos sobre “O ano americano (4): “American Pastoral” e “Portnoy’s Complaint”.

  1. Luis,

    Bons momentos vivi eu com o Swede Levov, alguns de muita angústia, mas bons momentos. A pastoral é daqueles livros que não consigo de deixar de ter alguma pena de já o ter lido, porque é um prazer que me subtraí no futuro. É esúpido, mas é assim mesmo. Quanto ao complexo de Portnoy, epá, ganda maluco, o Roth. Os dois livros são o espelho da possibilidade de existirem dois autores completamente antagónicos dentro de um só homem. Roth, o homem para lá do Nobel.

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