Romance. Aos 68 anos, pouco depois de enviuvar, Augusta recebeu o telefonema de um homem.
– Augustinha, és tu? Fala o Titó. Fizemos juntos a segunda classe…
Ela recordava Titó — António Mendes Travassos — um menino loiro que tentara beijar-lhe o rosto na primavera de 51. Mas hesitou em marcar encontro porque ainda estava triste e temia que a julgassem leviana. Foi Maria José, a sua única amiga, quem lhe passou a ferro o vestido de popeline, a acompanhou ao salão de beleza e sugeriu por decoro que lanchassem domingo nos pastéis de Belém.
Titó pareceu-lhe um homem muito digno, de uma cortesia que não era deste tempo. Reconheceu-a logo e chamou-a para a mesa; ergueu-se com uma mesura respeitosa, afastou a cadeirinha e ajeitou-a depois de Augusta se sentar. Conversaram toda a tarde, como dois velhos amigos. Ele nunca se casara. Augusta perguntou-lhe se já estivera apaixonado, mas mudou de assunto quando Titó emudeceu. Foi essa a única sombra daquele domingo quase perfeito.
Nas semanas seguintes estiveram sempre juntos. Foram dançar ao restaurante Mónaco e comer conquilhas ao Eduardinho da Parede. Num Datsun Bluebird, que não passava dos oitenta, Titó levou Augusta à Caparica, ao Cartaxo e a Peniche.
Eram os dias mais felizes da vida dela — uma vida difícil, com um marido exigente. Certa tarde, enquanto visitavam o panteão, Augusta sentiu uma grande ternura. Encheu-se de coragem, aproximou-se de Titó timidamente e quis beijá-lo no rosto — mas ele, de olhos marejados, resistiu-lhe.
Ei, o que vem a ser isto? Vem aqui um turista desprevenido, e atiçam-no para depois lhe porem a imaginação a trabalhar? Não queremos cá contos pós-modernos, queremos histórias naturalistas, com princípio, meio e fim. Não precisam ter moral.
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Você está desatento. Leia outra vez.
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ok, but i was prepared to read more…….
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Só espero que esse não seja o tipo com o mesmo nome (primeiro e último) que foi meu colega na Deutsche Schule… (seja como fôr nunca mais o vi, mas nós na secção portuguesa éramos só cinco, óbvio que nos lembramos todos uns dos outros…)
😉
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Pergunte-lhe. Nunca se sabe.
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Tchekov vai ao Eduardo das Conquilhas.
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LOL.
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As saudades que eu já tinha de um vida urbana.
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E gostaste deste, io? Parece-me que houve muita gente que não chegou lá.
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Muito, Luís. Muito. (acho que os outros meninos perceberam e gostaram; mas gostam de resistir)
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Um estória bela e “desencantadora”. Uma mulher que arruma as memórias, um homem que é um resistente a todas as “perestroikas” emocionais – sobretudo as “póstumas”, um autor com presente e futuro na narrativa. Adorei (mesmo que não tenha percebido nada do que o autor quis contar).
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Quem me elogia compreende-me sempre, Leonor. É uma questão de princípio.
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Esta história tem um botão fastforward? É que gostava de ir directamente para a
cena do sexo , já não tenho idade nem paciencia para estas lamechices .Pensando melhor ,será que Titó é gay ? Hum ,nunca casou,lágrima facil…
Watch this space
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Para textos mais directos e ao seu gosto recomendo a Gina, caro leitor.
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Aos 68 anos descobre pelo telefonema de Titó que nunca antes vivera anos tão felizes. E ele, que desde a segunda classe a recordava, impulsionado pelo falecimento do cônjuge, vai ao seu encontro para depois lhe recusar o beijo novamente adiado. Os contornos implícitos inacessíveis da estória talvez expliquem o seu reduzido poder apelativo.
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Pois; eu farto-me de aprender com os meus leitores — embora nem sempre o que eles querem que eu aprenda.
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Esse não é movimento de sentido único. Tem retorno quando os leitores aprendem consigo, com ou sem a colaboração da sua manifesta vontade.
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Isto é, queria dizer que me farto de aprender consigo, também. (pode ser visto como um elogio)
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Lol. Sim, julgo que sim.
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Luís Jorge, vai ter de continuar a história do Tito e da Augustinha, tenha lá paciência. Ninguém aqui o larga enquanto um deles, pelo menos, não morrer engasgado com um caracol do eduardinho. Mas não separe os velhos fofinhos, pela sua saúde. Um homem que guarda durante tantos anos um número de telemóvel que uma menina lhe deu em 1951, há-de um dia deixar-se de modas e ir por força dançar com ela uma rumba caliente coxa com coxa. Com sua licença, os seus leitores podíam aqui continuar a história, à vez.
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Um cadáver esquisito? Hmmm, até tremo de pensar. Mas a caixa de comentários está aberta. Se alguém se chegar à frente…
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i think so too….
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Dize-me, Titó, marejado significa que tens os olhos em lágrimas? Perguntou Augustinha, enternecida, mas hesitante. Sim, Augustinha, suponho que sim. Verifica, se não te importas. Augustinha confirmou, puxou de um lencinho de cambraia, bordado, e enxugou-lhe as lágrimas. Desculpa, Titó, foi algo que eu disse? Choras tu pelo Sidónio, nosso principe formoso, nosso pai? Não, deixa, Agustinha. Dize-me, conheces mais algum homem a quem chamem Titó? Que se tenha casado, digo. Querido, pois então não te esqueces?… Eu tinha sete anos e sabes como as crianças nessas idades, enfim… Já não importa, Augustinha… Ouve, Titó, cada um carrega a sua cruz. Eu sempre detestei estes vestidinhos de popeline. Há quarenta anos que a Maria José vem a minha casa passar-me a ferro vestidos de popeline e as camisas do meu marido. E fala ela em decoro, não sei se te deste conta. Mas deixemos isso, há coisas de que não gosto de falar. Vem, Titó. E foram pela rua abaixo, suponho que em Alcântara, em direcção ao cais, de braço dado, em silêncio. Chegados à Estrela, sentaram-se num banquinho de pedra, e aí estiveram três dias e três noites, em silêncio, a observar os barcos. É agora que nos levantamos Titó? Vamos já ver, Augustinha, aguardemos pacientemente. E levantaram-se, lentamente.
Titó nunca teve emprego certo. Entrou para a segunda classe naquela escola, a única, e, certo dia triste, por alturas da Páscoa, partiu. Durante uns tempos viveu em Espanha, onde fez figuração nos filmes do Joselito. Um dia morreu-lhe uma tia, que lhe deixou em herança algumas acções, umas libras de ouro, umas coisas em prata, e com esses rendimentos foi suavemente vivendo. O Titó. Viveu sempre remediado, o Titó, mas sem cuidados de maior, que não fosse a dor da solidão. O seu dia a dia era andar de autocarro e de metro, para poder dar o lugar às senhoras. Tinha a cortesia como vício. Olha, Titó, porque me levaste ao Cartaxo? Nunca cheguei a perceber. Titó calou-se.
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Oh meu deus. Criei um monstro.
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A vingança serve-se fria. Espero que o galã Titó consiga ultrapassar o trauma de ter vivido sempre apaixonado pela Migu e se resolva a tentar conquistá-la uma vez mais. É no tentar que reside a felicidade. Agora a epopeia marmelada com ‘passeio’ de Alcântara até à Estrela e três dias ao sereno mata qualquer romance.
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marmelada, para o casal em questão, é um substituto do doce de tomate.
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