Numa década e meia Portugal elevou dois homens a heróis — Saramago e Mourinho, o escritor e o treinador — mas só um dominou a sua autoridade simbólica, e fascina-me que não tenha sido o escritor. Saramago manteve com a pátria uma ligação azeda, quezilenta, despeitosa, repleta de amuos e sublevações de porteira. Mourinho reconciliou-a, com três patacoadas em língua portuguesa.
Anúncios
Luis Jorge, o nobel está cheio desses casos. O Becket levou a afronta ao ponto de só escrever em francês. Ainda hoje na Irlanda devem compará-lo negativamente, ao nível desse tal simbólico, ao George Best, que mesmo jogando do outro lado, sempre insistiu em falar, não o inglês da rainha, nem o francês do Voltaire, mas com a orgulhosa pronúncia das ruas de Belfast.
GostarGostar
Sim, e há o Thomas Bernhard, ou lá como se escreve, que proibiu a publicação da obra na Áustria em testamento. Eu compreendo-o: se fosse austríaco, ou suíço ou norueguês não fazia outra coisa.
GostarGostar
Mourinho, ao contrário de Saramago, nunca foi proibido de ganhar prémios internacionais, como fez OFICIALMENTE o Estado português, pela mão boçal de um tal fidalgo Lara do PSD QUE AINDA HOJE NÃO SE ARREPENDE DE O TER FEITO (com o apoio de muitos santanas lopes e cavacos). Não são zangas de porteiras, não continuem a achincalhar o homem.
GostarGostar
GAF, antes de o atrasado mental do Lara lhe ter “feito a desfeita” (desfeita é bem uma palavra de porteira) já o Saramago se contorcia com ânimo contra a intelectualidade lisboeta, os “fascistas” da esquerda ou da direita e o mundo em geral. Não digo que não tivesse as suas razões — há sempre razões, e o que diria Mourinho a respeito de outras tantas.
Mas não é uma questão de justiça, é um problema de carácter. Quanto a isto: “não continuem a achincalhar o homem” — tenho de confessar-lhe que o Vida Breve é um blogue individual, embora por vezes me sinta um tanto dividido.
GostarGostar
E depois há o Jorge de Sena, por um lado, e a Rosa Ramalho, por outro. E o José Maria Eça de Queiroz, antes de provar o arroz de favas, e o José Maria Pedroto.
GostarGostar
Mais que o prémio, um de vários e talvez o primeiro de muitos outros dentro do género, fiquei feliz com o uso da LÍNGUA. Mourinho colocou-a no centro, com o artificioso pedido de desculpa pelo seu uso por ser um orgulhoso português.
É um passo para longe do nojento portunhol dos boçais socialistas ainda no poder, nestes últimos dias de Pompeia, chá, bolos e juros de morrer. Sobre a perspectiva que os outros povos têm de Portugal, entre os que nos mitificam, como os japoneses e outros asiáticos, e os que nos desprezam ostensivamente, como os europeus do Norte, convinha ler Luís Aranha.
Sobre Saramago, o morto está de boa saúde literária e recomenda-se. Mais um para a maior glória da Língua Portuguesa.
GostarGostar
Sei que é um blog individual, usei o “vós” sem pensar. Só quis dizer que as razões de Saramago foram muito fortes, não são coisinhas de comadres. Além disso, ficarmos desavindos com a pátria acontece a muitos e não significa corte de relação. Um portugês em Espanha ou na Indonésia não deixa de o ser: o divórcio está contemplado na lei.
GostarGostar
Não, ele não cortou a relação. Confesso-lhe que até fiquei um pouco exausto com a intensidade da coisa.
GostarGostar
Porra, mas ninguém reparou que o José de Setúbal antes de abrir o gargalo pediu desculpa por falar em português?
Está bem, o outro pedia desculpa à mulher por ser português.
GostarGostar
Esse pedido é artificioso, tipo, «Desculpa lá, mas ‘vou-te’ foder!», como se diz aqui no Porto. Não conta como desculpa…
GostarGostar