Vida urbana (9).

Donas de casa torrenciais. Pedem um cafézinho muito quentinho curtinho numa chávena escaldadinha porque são umas lambonas e não podem sair à rua por causa do frio e dos pés inchados e dos quebrantos e dos bicos de papagaio e do goto inflamado e das dores na junta e da bicha solitária e da astrite e da astrose e do lumbago e do monco caído e da espinhela partida. Compram doze não trinta carcaças bem cozidinhas porque veio ontem de Paris a-filha-que-está-casada-com-o-engenheiro e só gosta do pãozinho português que é branquinho e cozidinho e não é o pão que os franceses carregam nos sovacos todos suados que aquela gente nunca toma banho como nós os mais limpinhos e branquinhos e cozidinhos da Europa e as porcas das francesas molham a cara com panos húmidos e nunca se lavam por baixo. Ai que nojo. Querem um euromilhões premiado senhor Teixeira para ir ao Brásiu laurear a pevide no Léblon e ver a Bruna e dar um beijão ao Marcelo e fofocar com a Taís e cutucar o Dirceu e transar com o Maurício e ficar no bem-bom com a Dulcineide a Débora a Renata e a Solange e cuspir nas fuças da jararáca que fazia de Rafaela no Viver a Vida.

São as nossas Sherazades. Mil e uma noites e café da manhã para dois — sem saber o que virá depois, bem bom.

17 pensamentos sobre “Vida urbana (9).

      1. QUADRILHA

        João amava Teresa que amava Raimundo
        que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
        que não amava ninguém.
        João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
        Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
        Joaquim suicidou-se e Lili casou-se com J. Pinto Fernandes
        que não tinha entrado na história.

        Carlos Drummond de Andrade, uma, duas argolinhas, antologia poética, 185

        [Ao ler a parte final do seu texto foi do que me lembrei. : ))]

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  1. Mesmo sem vírgulas eu percebi quasi tudo especialmente aquela parte das francesas que não se lavam por baixo o que me deixou verdadeiramente perplexa é não saber mesmo o que é cutucar por isso explique-se doze não trinta vezes.

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  2. Farto-me de gostar e partilhar no Google Reader, e acho que só aqui comentei uma vez, por pudor (que gosto de manter os poucos ídolos que tenho`a certa distância). Mas ainda hoje o disse quando partilhei este post: o Luís é o melhor blogger nacional, assim tipo, de caras.

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    1. Caro Nuno

      Como utilizo o Google Reader tenho seguido o seu interesse, e eis agora uma boa oportunidade para lho agradecer. Se quiser idealizar-me menos e aproximar-se mais ficarei com isso muito honrado — embora eu respeite a distância dos meus leitores.

      Quanto ao assunto dos rankings, a conversa é outra: julgo que o melhor blogger nacional não existe. Há semanas em que estamos disponíveis e inspirados, outras em que o trabalho aperta e o talento falha. Na escrita diária existem muitos alçapões e só alguns (o Miguel Esteves Cardoso, por exemplo) a praticam com segurança. Eu gosto de pensar que caminho para aí, mas tenho dias.

      Um abraço e um bom ano para si.

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  3. Bom dia, Luís.

    Pode ser que passe a estar um pouco mais presente, que esta história da Web 2.0 e das interacções virtuais vai-me fazendo menos confusão do que dantes. (É verdade, com 30 anos, pareço as minhas avós a falarem.)

    Na minha deixa, nem me referia a rankings. Os outros podem combater entre si pelo pódio. No meu campeonato pessoal, o Luís anda há muito tempo a jogar sozinho.

    Um abraço deste (também) fã do James, com votos de bom ano para si.

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