vida breve

Olhe que não.

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Escreve o Tiago Moreira Ramalho:

Ao criticar Cavaco Silva por ter «dado o nome à PIDE a dizer que tinha bom comportamento», Manuel Alegre está, provavelmente sem se aperceber, porque dificilmente dá para mais, a criticar uma vasta camada da população, que, há quarenta ou cinquenta anos atrás, para poder ter uma vida pacata, tinha de compactuar com o regime. Não eram salazaristas, nem socialistas, muitos deles nem sabiam o que tais coisas eram. Eram simples portugueses que queriam viver habitualmente com as suas famílias, piamente com o seu Deus e pacificamente com a sua Pátria. Alegre lutou contra a Ditadura. Agradecemos-lhe. Mas dificilmente se tolera que nos impinja isso numa base diária, como se lhe devêssemos a ele, quem sabe se só a ele, a liberdade de, por exemplo, dizermos que seria uma tragédia tê-lo como Presidente da República. (…) Nesta semana foram atirados os primeiros punhados de lama. Não sei se esta é a campanha presidencial mais importante desde o 25 de Abril, mas uma coisa é certa: será certamente uma das mais sujas, por culpa única e exclusiva deste agitadorzeco bafiento.

Este texto tem problemas. Primeiro: o Tiago ignora que fazer política é escolher. Sim, uma vasta camada da população não só compactuava como apoiava o regime de Salazar — mas que agora se sinta hostilizada por recordarmos os seus pactos é algo que não deve intimidar um candidato à Presidência da República. Segundo: os políticos também se distinguem pela biografia. Alegre foi um resistente, Cavaco um colaborador — atribuam ao termo as nuances que quiserem. Isto aborrece quem quer votar em Cavaco? Azarinho. Terceiro: o Tiago dificilmente tolera que Manuel Alegre lhe impinja o seu passado remoto numa base diária. Que direi eu, a quem impingem o passado servil, a actualidade inconsequente e o futuro radioso de Cavaco Silva todos os dias. Quarto: recordar um facto com significado político não é atirar lama a alguém. Atirar lama, numa campanha, é mentir ou recordar factos desagradáveis mas politicamente irrelevantes.

Não apoio Manuel Alegre, nunca votei e nunca votarei nele. Mas a atmosfera de plebiscito e a pulsão  hagiográfica da candidatura de Cavaco Silva repugnam-me.

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