
Tendo notado o grande silêncio que desceu nestes dias sobre o Jugular (um vácuo pontuado, é certo, pelas mensagens que a Palmira nos envia do espaço sideral), decidi auxiliar a nobre causa da hagiografia socrática com o breve argumentário que se segue:
1. Nós somos maus, mas os outros ainda eram piores. Este raciocínio fez furor entre os blogues da situação e os assessores do Governo. Basta juntarem um ramalhete com Cavaco Silva, Ramalho Eanes, Santana Lopes, Vasco Gonçalves, Paulo Portas e Durão Barroso para persuadirem a plebe a comer a sopinha toda. A única objecção: isoladamente, nenhum deles cometeu tantas patifarias como o actual primeiro-ministro.
2. Mais que a liberdade de expressão, o importante é o pãozinho para a boca. Eis um argumento à Valupi, capaz de deliciar os taxistas que conduzem o nosso cérebro reptiliano. Até há pouco, bastaria às minhas amigas vituperarem cada ranhoso e imbecil que se debatia com formalismos doidos (a democracia, a honestidade, e tal) enquanto o senhor primeiro-ministro debelava a fome do povo. Hoje em dia esse argumento esbarra levemente no desemprego, no défice e na miséria generalizada. Mas a retoma, nunca o esqueçamos, está ao virar da esquina.
3. Socrates é bom, o que o trama são as más companhias. Há uma certa doçura maternal neste leitmovit, ao gosto da terceira idade: o problema, coitadinho, é que ele é muito amigo dos seus amigos. A bela figura do primeiro-ministro e a sua popularidade entre as adeptas dos chakras ainda pode converter alguns blogs de prosa poética. Não convém citar nomes (Vara, Coelho, tutti quanti), nem perder tempo com detalhes supérfluos.
4. A realidade não interessa, o importante são os direitos constitucionais. A tirada exige alguma ginástica, se quisermos defender a publicação de e-mails privados no Diário de Notícias enquanto condenamos a divulgação de escutas no Sol. De resto é uma maravilha, porque os portugueses não lêem a constituição.
5. O tempo cura os marmelos. Alô, o número de telemóvel para o qual ligou pertence agora a um cliente da Optimus. Por favor, deixe a sua mensagem a seguir ao sinal… Blip. Por vezes, sair de circulação é uma excelente estratégia. Fevereiro é mês de época baixa em inúmeros Spa. Em Cancún e Varadero já acabaram os tufões. Boa altura para recuperar forças e regressar mesmo a tempo da próxima campanha eleitoral. As memórias são curtas, os homens volúveis, atrás do tempo tempo vem. De resto, we’ll always have Paris.
Boa viagem, amigas.