Meu reino por umas favas.

O país está repleto de artolas para quem aquilo que temos de bom é invariavelmente o melhor do mundo. As nossas praias são as melhores do mundo. Os nossos vinhos são os melhores do mundo. Lisboa é a mais bela cidade do mundo (e o que diriam se a Câmara limpasse de vez em quando a bosta acumulada nos jardins e multasse os automóveis que assoberbam os passeios).

Como é evidente, também os florilégios das nossas cozinheiras formam aos olhos dessa gente a melhor gastronomia do mundo. Que os chineses, os franceses, os italianos, os japoneses, os peruanos, os mexicanos, os marroquinos, os tailandeses e os indonésios lhes perdoem, a esses patêgos que arrotam postas de pescada de pulseirinha na água choca em Cancun e Varadero, porque eu não consigo.

Se temos a melhor cozinha do mundo, porque é que ainda não comi umas favas decentes   desde que regressei a Lisboa? Umas favas, senhores: não são lombos de cavalo-marinho com redução de beluga em cama de línguas de colibri das montanhas rochosas e aipo-bola flambeado. São favas, caralho.

É assim tão difícil, para os génios que pontificam nos nossos tascos, servir umas favas que se traguem: feitas com enchidos das berças, com molho apurado, com um pouco de amor? Será que tenho de ir comer favas ao Pap’Açorda?

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28 pensamentos sobre “Meu reino por umas favas.

  1. Tasca, tasca boa, é a Adega dos Lombinhos. Rua dos Douradores. Vai gostar. É tudo bom, até os peixinhos da horta.

    Faltou-lhe dizer uma coisa: as nossas são as melhores coisas do mundo, quando confrontados com um estrangeiro. Entre nós é insultuoso dizer semelhantes coisas. É preciso sofrer-se esta merda…. se eu digo a um amigo que não acho que Portugal seja organicamente mau, dizem-me logo que isso é porque sou um poltrão que beneficia das maravilhas do estrangeiro.

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  2. Sou um leitor assíduo e divertido deste blogue.
    Por isso permito-me exprimir-lhe a minha perplexidade pela ingenuidade, vinda de alguém com tanto “mundo”.
    Pressinto no entanto, que esse seja o eterno problema dos “gourmets” citadinos: desconhecem alguns elementares fenómenos da natureza, como por exemplo os ciclos das plantas.
    Estamos de acordo que vivemos num pardieiro apinhado de chauvinistas, mas a resposta à sua inquietação é bem mais prosaica e talvez possa encontrá-la em almanaques como o “Borda d’água” ou o “Seringador”.
    Em caso de incursão ao “Pap’Açorda” antes de Janeiro ou Fevereiro, atrevo-me a avisá-lo que se arrisca fortemente a que lhas sirvam congeladas.

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    1. Eu, congeladas, também não consigo comer. Favas crocantes não são o meu género 😉 Fernando, o ciclo de vida das plantas está muito sobrevalorizado para este efeito. O Borda d’Água manda semear e colher, não manda comer. Faça-se a congelação bem feita, e esteja o molho bem puxadinho, nem o Fernando conseguiria distinguir a coisa. O amor pode tudo.

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      1. Já chego tarde à polémica, mas ao que sei, o penúltimo comentador tem razão, Luís, toda a fava portuguesa é primaveril, Luís. Conforme o clima de cada ano, semeiam-se do final do Outono ao final do Inverno. As primeiras costumam aparecer lá por Fevereiro (ou mesmo já em Março). O Borda d’Água (sim, comprei…) deste ano vinha escandalosamente aldrabado – mandava fazer a primeira sementeira em Fevereiro.

        [Em pequena detestava favas. Nunca detestei um alimento com tanto vigor. Hoje, não sei bem porquê, gosto daquelas muito pequenas, salteadas em vinagre, com morcela de jeito.]

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  3. Aqui, no Algarve, favas semeiam-se a partir de agora e estão prontas em Fevereiro. Depois apanham-se e comem-se, gulosamente no meu caso, durante uns tempos feitas à maneira algarvia/baixo alentejo: cozidas na panela de pressão e depois regadas com molho de cchouriços vários e fatias fininhas de touchinho. Se quer deliciar-se pode vir até ao Barrocal algarvio que qulquer tasca decente o deixará altamente satisfeito e a pedir “bis”.
    Já vi, que tal como eu, não é pitagórico no que diz respeito a favas, pelo contrário. Bem vindo à claque de adeptos.

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      1. Ah, tem graça. Tinha-me esquecido que isso podia ser uma espécie de compensação…
        Vão-se as favas, fiquem os berliner.

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  4. Pois meu caro eu durante anos fui como o Jacintinho em Tormes, abominei favas. E agora choro por elas.Mas também e como bom provinciano de origem,frescas eram as do início da Primavera. Estando de serviço e não tendo a receita de cabeça, depois lhe mandarei uma receita da minha Avó paterna, as ditas com molho amarelo. E se gosta de caça de pena, uns pombos-bravos como os fazia a minha Avó Inêz ou umas codornizes à Faustino Antolin. Ai o Outono …

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  5. Veja que, ainda, ninguem se lembra de as comer, às favas, digo, em vagem. Tem que que ser das primeiras, em Fevereiro/Março, ainda tenrinhas.

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