Creio que o paradoxo foi formulado por Rousseau e repetido por Kant: o povo nem sempre está preparado para decidir o seu destino, é verdade. Mas se nunca decidir o seu destino, então nunca ficará preparado. É o exercício do poder que lhe dá a inteligência do poder.
As soluções paternalistas, autoritárias, têm esta enorme desvantagem: ao coarctarem a responsabilidade dos cidadãos, impedem-nos de se aperfeiçoarem, e de aperfeiçoarem a sociedade em que vivem — são regimes fixos, que não se regeneram.
Em Portugal, os privilegiados acreditam que habitam um país de nhurros sem vontade própria, ou com uma vontade torturada pela estreiteza do sistema educativo e da brutalidade rural. Infelizmente, a clique que dirige o país é incapaz de perceber que é sua a responsabilidade de vivermos num país de nhurros. A empáfia dos senhoritos, transversal num meio em que qualquer meteco se considera um elitista, a escassez dos recursos, a má distribuição da riqueza e sim, o analfabrutismo da plebe, fortalecem a hierarquia e desaconselham a miscigenação.
Nunca houve uma gente como a nossa, que tanto gostasse de ter criadas ou que fosse tão longe para tratar os mais pobres, os mais frágeis e os mais desprotegidos como criadagem. (Os exemplos são inúmeros, mas citemos apenas esse fenómeno esclavagista que é o desequilíbrio dos salários entre homens e mulheres).
Num caldo de cultura assim, qualquer manifestação de desprezo pela democracia é perigosa, não porque cause escândalo, mas porque encontra logo uma multidão de signatários. É perigosa, embora comum. Esse vício, esta quase inconsciência dos políticos, essa condescendência blasé dos opinion makers tem que ser combatida com toda a radicalidade. Não pode haver tolerância para quem trata os cidadãos como débeis mentais.
Quem deve ser posto na ordem são os eleitos, não os eleitores.
Muito bom post. So um acrescento:
“É o exercício do poder que lhe dá a inteligência do poder.”
Isto e a educacao. Especialmente a educacao cientifica.
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“Em Portugal, os privilegiados acreditam que habitam um país de nhurros sem vontade própria, ou com uma vontade torturada pela estreiteza do sistema educativo e da brutalidade rural. Infelizmente, a clique que dirige o país é incapaz de perceber que é sua a responsabilidade de vivermos num país de nhurros.”
Na mouche, Luís. Estas coisas deixam-me mal disposto.
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vou investir as minhas poupanças na compra de acções deste post.
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Nem mais nem menos
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Na Índia, terra das castas, também encontrei essa frase que aqui era tão comum: já ninguém quer ir para criada, está muito difícil arranjar uma! Infelizmente partilhamos este conceito de casta (numa forma mitigada) com a Índia e parece-me ser essa a razão principal do nosso atraso. Este post está muito bom.
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Muito obrigado. Concordo consigo.
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Bom post!
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