Pronto, Daniel, explica-lhes como se tivessem cinco anos.

Aqui vai:

Num país com poucos anos de democracia o valor da autoridade está sempre antes da procura de consensos. A popularidade que sobra a Sócrates, e que as sondagens ainda não desmentem, resulta disso mesmo. Ele “põe o pessoal na ordem”. Não tem a ver com qualquer sentido de justiça. Ninguém sente a autoridade do Estado quando falta ética ou mesmo lei aos poderes fácticos deste país. Ela está direccionada para outros actores.

E Sócrates mostra a sua autoridade alimentando o ressentimento que está sempre presente em sociedades desiguais e injustas. É uma autoridade destrutiva. Primeiro foi com os funcionários públicos, agora é com os professores, depois será, provavelmente, com os profissionais de saúde. Desde que chegou a São Bento a sua estratégia é sempre a mesma: atacar os trabalhadores do Estado, fazendo passar a ideia de que são eles, e não os governos, os responsáveis pelas debilidades dos serviços públicos. Grande parte da população, maltratada pelos poderes públicos, compra facilmente este discurso. Ele corresponde à estratégia de qualquer populista.

A cultura autoritária deste país, resultado de 48 anos de ditadura, é avessa à negociação. É assim na relação do poder central com a sociedade, é assim no poder local com as comunidades, é assim nos serviços públicos com os cidadãos, é assim dentro das empresas. A postura geral é a da desconfiança em relação aos cidadãos. O poder é centralizado, autista e a procura do consenso através de processos negociais, com cedências e boa-fé, é vista como sinal de fraqueza e, mais extraordinário, como sinal de conservadorismo e imobilismo. Num país onde os verdadeiros poderes nunca são postos em causa, o jeitinho ao amigo é mais tolerado do que a negociação entre partes. E, no entanto, a negociação permanente deveria ser um elemento constitutivo do poder democrático.

(…)

O primeiro-ministro está filiado na velha escola latina, de que Cavaco foi outro excelente representante, que usa a autoridade não como um exemplo mas como uma forma de impor à força o que não consegue conquistar pela razão. Que esmaga a criatividade e alimenta a veneração do chefe.

Olhando para os últimos três anos, e depois de tantas promessas de reforma, de tantos conflitos com sindicatos e classes profissionais, podemos dizer que estamos melhor? Não. Porque as demonstrações de força não passaram de encenações inúteis que apostaram no ressentimento para segurar o poder. Alguém acredita que depois de tudo o que aconteceu entre a ministra Lurdes Rodrigues e os professores a Escola Pública ficará melhor? E não era esse o objectivo? Não, não era. O objectivo era ter uma parte significativa da população contra os professores e, por isso, do lado de Sócrates. Só há um pequeno problema: à medida das que se somam os bodes expiatórios do regime sobra menos gente do outro lado.

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9 pensamentos sobre “Pronto, Daniel, explica-lhes como se tivessem cinco anos.

  1. E não se pode chamar negociação quando existe assimetria de poder. Estamos em democracia, só de nome. A verdade é que o actual regime é totalitário. E regimes totalitários, em que se nacionaliza e se impoem medidas pelo poder tem outro nome.

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  2. Já tinha lido o post do Daniel no Arrastao. Está muito bem exposto.

    A minha mae é professora do ensino básico. A sociedade que agora se levanta para que seja avaliada é a mesma que há anos a forçou à humilhaçao de ter de mudar de escola, após ter sido agredida e insultada pela progenitora de uma aluna que nao estava de acordo que a sua filha reprovasse e com o facto de se ter escrito no relatório de avaliaçao que tinha problemas de concentraçao. Quem teve que mudar de ares, foi a professora agredida e insultada num corredor.

    Estamos a falar de opinadores do coirato, que afirmam à boca cheia que os professores têm 3 meses de férias por ano, que têm a vidinha feita até à reforma e ignoram o drama das colocaçoes, do desemprego, da violência na escola, dos programas desadequados, das reunioes estéreis, etc.

    Eis como o ressabiamento grassa na linda comunidade lusa. Nao há esperanças para gente tao tacanha, vota tanto desprezo e fel àquilo que é o bem mais precioso de uma sociedade.

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  3. Sem papas na língua! Cumprimentos Caceteiro!
    Ao longo dos últimos 10 anos acompanhei um número grande de reuniões na escola das minhas duas filhas. Ultimamente, confesso que tenho evitado ir. Envergonhei-me muitas vezes com a ignorância, prepotência, falta de educação e outros atributos pouco abonatórios de Encarregados de Educação (talvez deseducação!). Ainda hoje me sinto envergonhada perante alguns comportamentos de miúdos que são apoiados e incentivados pelos pais, perante professores desrespeitados e desautorizados pelo nosso sistema de ensino!
    Tenho pena que a Escola em Portugal se tenha tornado naquilo que temos!

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  4. Eu discordo em grande parte do raciocínio conclusivo do Daniel Oliveira.
    Embora ache que Sócrates é um populista, não posso concordar com a ideia peregrina que criou o confronto para angariar votos noutros sectores da sociedade. Seria perverso e doentio e eu só acho que o senhor é incompetente, ignorante e trepador.
    A meu ver o populismo de Sócrates está na forma marketeira como vende a sua governação e na política de resultados e não no calculismo erudito de um ditador. Não tem capacidade para ser um ditador populista.

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  5. Oh jorge, agora sou eu que nao acredito que possa ser tao ingénuo…

    Ainda que pensasse isso da singela pessoa do Sócrates, está a omitir toda a máquina partidária a seu redor, departamentos de comunicaçao, imagem, marketing e o camandro incluídos.

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  6. Nenhuma máquina partidária, nem a tenebrosa máquina socialista, tem intenção de prejudicar o país. A questão é que o timing eleitoralista acaba por desgastar determinados sectores. Isso é apenas a mediocridade do sistema político e daquilo que o alimenta, não é uma coisa perversa feita propositadamente para ofender determinado grupo de pessoas.

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