O tom da oposição. (1)

A crítica deve ser construtiva ou assassina? Deve apelar à razão ou ao instinto? Deve ser um longo argumento que se espraia em infinitos a fortiori, ou um panfleto incendiário e mobilizador?

Já sabemos o que defendem, com divertida candura, aqueles que são criticados — mas isso não nos ajuda muito. Espero regressar ao tema nos próximos dias.

23 pensamentos sobre “O tom da oposição. (1)

  1. Calma, eu estava ocupado.
    Respondendo à sua pergunta, a crítica deve ser inteligente, sobretudo. No que toca à situação em que vivemos, creio que deve ser construtiva, apelar à razão e menos panfletária. Não há situações de ruptura em Portugal nem uma divisão muito clara das opiniões que justifique o discurso incendiário, nem digo do Bloco de Esquerda, já digo do PSD. O problema da oposição, neste momento, é que ficou sem discurso. O governo tem ido a todas: temas fracturantes, social, reformista, liberal, nacionalizador. Está literalmente cada vez mais difícil ser oposição em Portugal. E o discurso mobilizador tanto do Presidente quanto do PM custam a passar, pq há uma elite que rema contra, que se recusa a estar em sintonia com a maioria. E a maioria está com o governo.

    Mas é sempre assim, a mudança incomoda. O país está nos últimos 10 anos a tentar dar um salto triplo, formidável. Isso incomoda. Parte da elite não aceita que seja a outra parte a fazer esse aggiornamento. Ocorre que a fila anda. O que o governo está a fazer, tinha de ser feito, custe o que custar. O jogo é outro, a moeda é o euro. O PSD não teve legitimidade para o fazer, perdeu o comboio. A legitimidade foi dada ao PS. O pior que pode acontecer para o futuro de Portugal nos próximos meses é voltarmos a uma situação de limbo, sem maioria.

    Não sou exactamente o Professor Karamba, mas arrisco dizer que se Sócrates ganhar sem maioria:
    – O próximo governo não vai durar 1 ano.
    – Haverá nova eleição. Aí sim, o PS terá nova maioria.
    – Se tal acontecer, se erá a implosão do PSD e o PS estará no poder por muito mais tempo.

    O melhor para todos (País, governo, oposição) seria uma nova maioria em 2009.

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  2. Nada contra críticas assassinas. Só para o serem, têm que acertar. E a analogia com as eleições dos EUA não serviu. Sócrates não é Bush, e um Obama não está à vista. Qua a analogia não serviu, não digo por discordância política, mas apreciando a sua qualidade retórica.

    Isso não significa que não se deve bater no Sócrates, mesmo não tendo alternativa melhor a propor. Força, dá-lhe!
    Mas mais do que sobre Sócrates, fizestre no post anterior um veredicto sobre os portugueses. O meu apontamento foi que o teu post representa exactamente aquela postura que NÃO venceu o Bush: “No we can’t”

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  3. “Nada contra críticas assassinas. Só para o serem, têm que acertar. E a analogia com as eleições dos EUA não serviu. Sócrates não é Bush, e um Obama não está à vista. ”

    Lutz, eu sei que te esforçaste muito para acreditar nisso, mas ainda te faltam argumentos. O que eu disse foi que o governo Bush incentivou o amiguismo, os interesses obscuros, os fumos de corrupção, enquanto delapidava as garantias do estado de direito e as bases da democracia. Sócrates, afirmei, faz exactamente a mesma coisa sem que os que apoiaram Obama o critiquem.

    Eu não comparei guantánamo com a prisão de pinheiro da cruz. mantive a minha analogia dentro de limites bem definidos. se não te servem paciência. Eu calculei logo que não servissem a toda a gente.

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  4. Luis, muito bem a tua resposta ao Lutz, mas incompleta.

    Dizes: (i) interesses obscuros; (ii) corrupcao; (iii) dilapidacao das garantias do estado de direito; (iv) enfraquecimento das bases da democracia. Estas
    serao criticas importantes, caso te des ao trabalho de as concretizar em exemplos concretos. Sou todo ouvidos.

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  5. MP-S, resumiste a coisa tornando mais acutilante do que eu a escrevi. Já falei muitas vezes destes assuntos e vou regressar a eles. No entanto, já todos percebemos que há quem tenha o ouvido duro — a esses nada satisfaz.

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  6. Mas se insistires este pode ser um plano para os próximos meses:
    – falar da nova legislação anti-corrupção do PS e como ela na verdade incentiva, em vez de desencorajar esses crime.
    – falar da nova moda de associar iniciativas legislativas sobre temas delicados (como o financimento partidário) a outros documentos em que podiam passar despercebidas, como o orçamento de estado.
    – falar da tendência para decidir obras sem argumentários fortes e para as atribuir sem concurso público
    – falar do regresso à política de pessoas que foram desencorajadas de a exercer por motivos éticos e do afastamento para lugares longínquos de pessoas que manifestam preocupações éticas.
    – falar do modo como se passaram a fazer as votações de diplomas em sede parlamentar, sem tempo para os discutir.

    E ainda estou a começar.

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  7. Mas estas críticas me parece que são a todo o sistema político e não especificamente a Sócrates. Não estás a dar o nome errado aos bois?
    São males do regime. A luta pelo aperfeiçoamento do sistema político é interminável, é verdade. Mas não acha que por a culpa no governo Sócrates é um bocado demasiado?

    Não posso querer derrubar um governo pq este não acabou com a corrupção. No fundo o que estás a querer dizer é que este governo é corrupto (se calhar estou a perceber mal, atenção). Resta saber se este governo é corrupto. Será que podemos dizer que estamos diante de um governo corrupto? Sócrates levará bola? Teixeira dos Santos?

    Será fundamental saber se Sócrates leva bola ou não?

    Por amor de Deus.

    “falar do modo como se passaram a fazer as votações de diplomas em sede parlamentar, sem tempo para os discutir.”

    …? Estás a criticar a rapidez? Atenção, não estou a ser irónico nem demagógico. É uma questão prática. Estão-se a votar diplomas mais rapidamente. Na sua óptica, a rapidez não permite um maior debate. Criticas isso?

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  8. GL, na mouche. Sem maioria absoluta, o Sócrates nao pára lá muito tempo. Sobretudo a governar com este perfil déspota.

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  9. GL, simplificando:

    Julgo mesmo que há uma regressão no nosso Estado de Direito, ou se preferir na qualidade do nosso “rule of law”. Parece-me evidente, mas não vou martelar na cabeça de quem não se quer convencer. Não julgo que o problema seja apenas deste governo: mas julgo que é um problema deste governo COM a sua maioria absoluta. É uma combinação de tendência e de poder efectivo.

    Temos que ensinar os nossos políticos a explicar, a justificar, a negociar e a responder por aquilo que fazem.

    Lamento muito que o PS se tenha deixado empurrar para este caminho, pois é um partido cujas origens e cujo percurso são profundamente democráticos.

    Mas como você prova à exaustão, há muita gente que gosta.

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  10. “GL, na mouche. Sem maioria absoluta, o Sócrates nao pára lá muito tempo.”

    Hm. Qual a sua alternativa? Pode por favor revelar quem são as personalidades que vê naquele lugar?

    “Sobretudo a governar com este perfil déspota.”

    Sócrates, déspota? Realmente devemos viver em dois países diferentes.
    Talves arrogante, vc quer dizer? Se for, homessa. Mas se é o melhor que ele tem. Nunca vi um político dar tanto trabalho á oposição quanto ele. Não é que ele seja arrogante. A oposição é que não tem discurso para o governo. Vou lhe dar um exemplo: diga por favor uma (1) proposta da oposição que faça sentido.

    O que eu acho que deve incomodar é que ele dá trabalho. É trabalhoso fazer oposição a Sócrates. É muito competente, mesmo. Só devia ser mais rápido, mais reformista. Bom, desisto, não saímos disto. Temos visões mesmo diferentes.

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  11. “Julgo mesmo que há uma regressão no nosso Estado de Direito, ou se preferir na qualidade do nosso “rule of law”….Não julgo que o problema seja apenas deste governo: mas julgo que é um problema deste governo COM a sua maioria absoluta. É uma combinação de tendência e de poder efectivo.”

    Ok… percebido. No que toca à primeira ideia, concordo, só acho que é transversal ao sitema. Quanto à segunda ideia, não vejo o que vê e acho que muito do que possa passar como unilateralismo, arrogância, etc. é decorrente deste governo, na minha opinião, se encontrar sitiado, barricado mesmo por uma imprensa violentamente hostil e por sindicatos e organizações de classe que simplesmente se recusam a aceitar que os país tem de mudar (Portugal não pode e não vai ficar eternamente como um ex-país do Leste Europeu, em termos de mentalidade e funcionamento de algumas instituições) e que a teta acabou.

    Não vejo o que vê mas procurarei estar mais atento e perceber o seu ponto de vista.

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  12. A nao ser que seja através de uma revoluçao de contornos mais ou menos abruptos (e violentos), nada disso muda. O desinteresse e afastamento dos portugueses em relaçao à política sao um tique social de resignaçao. As raízes dessa atitude colectiva sao seculares. Depois de tantos anos, ainda nao entendemos o que é a responsabilidade civil, considerando o planeta político um universo paralelo de misteriosos desígnios, que só toca a nossa realidade no âmbito da queixa. Em Portugal diz-se, e com razao, que “é tudo a mesma corja, eles querem é poleiro”. Mas a nossa relaçao com a política fica-se por aí. Desta desconexao nasce a possibilidade para que a mediocridade singre nas hostes partidárias e que se instale a estagnaçao das instituiçoes. Depois, há as situaçoes “completamente normais”, que, ao nao o serem, nao encontram a devida resposta por parte da sociedade civil.

    Tudo isto para dizer que Sócrates é apenas uma versao exacerbada dos defeitos e tiques do nosso sistema político.

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  13. (Já cá canta o Paintings in Proust. É um livro preciososo, para quem é leitor atento da recherche… grato pela recomendaçao)

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  14. “Hm. Qual a sua alternativa? Pode por favor revelar quem são as personalidades que vê naquele lugar?”

    Isso é irrelevante para o comportamento colectivo do votante. No caso de Guterres também o foi. Os resultados do PS nas autárquicas de entao foram reflexo de uma penalizaçao, nao de uma mudança de intençao de voto.

    Tem que entender que às vezes as pessoas nao votam para escolher. Também votam para enviar mensagens. No caso de Sócrates, se a brecha de uma maioria relativa se abrir, nao tenho dúvidas que as eleiçoes seguintes lhe cobrarao factura.

    Acha que a paciência das pessoas é eterna, ainda que a alternativa da oposiçao também seja medíocre? Tudo isto é imagem e as pessoas estao a maçar-se rapidamente com Sócrates. Para que esteja condenado à desgraça é necessário conjugar duas coisas:

    1) Obtençao de maioria relativa nas próximas eleiçoes;
    2) Presença de um líder da oposiçao que seja moderado e que tenha um discurso “certinho”, sem necessidade de ter grande personalidade (Sócrates nao a tem).

    Vai ver como elas cantam.

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  15. “A Condolezza Rice fazia parte de uma era que acabou na América- a do esclavagismo racista e machista da Casa Branca.”

    Pois. E se fosse há uns anos, eu seria seu escravo com todo o prazer.

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  16. Como ela era farrusca e neocom, talvez ficasse mal falar em causas de minorias.

    Até porque se queriam alguma verdadeira minoria que foi exterminada- com o um dos maiores genocídios da História (sem a menor comparação com mais nada) tinham os índios.

    Mas esses não contam- não servem para causa. Até se esquece que eles é que eram os habitantes de um continente que não é africano.

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