vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Outubro, 2008

Campo Pequeno.

[Private joke: Espero que Rui Bebiano não fique com vontade de nos (ao Luis e a mim) mandar para o Campo Pequeno.]

De facto seria uma lástima, Eduardo, até porque agora se come lá pessimamente.

Nada parva, a rapariga.

A modelo é Pauline Borghese, irmã de Napoleão Bonaparte.

E aqui também:

A obra evoca o julgamento de Paris, com Pauline a fazer o papel de Afrodite (segura uma maçã na mão esquerda). Nesta sala da Villa Borghese, por cima da escultura, existe um fresco com o mesmo episódio.

A tabela.

Os nossos liberais podem emudecer perante as implicações ideológicas da crise internacional, mas os socialistas fazem pior quanto às implicações políticas da crise portuguesa: eles tentam intimidar os seus adversários. Os insultos de alguns apoiantes desta maioria a quem critica o primeiro-ministro ou revela dados desfavoráveis ao seu desempenho roçam o descontrolo patológico. Desde dedicatórias em prosa poética a filhos da puta, até peixeiradas em torno de dados estatísticos aparentemente insuspeitos, já vi de tudo nas últimas semanas. 

Por explicar ficam as obras em Alcântara sem concurso público, as tentativas de alteração mal enjarcadas ao regime do financiamento partidário, ou a descida de Portugal num ranking de liberdade de imprensa até hoje tido como respeitável — aparentemente, os cidadãos não precisam de respostas. 

Há dias o Atlântico publicou uma tabela em que se revela a evolução de indicadores económicos que, se forem verdadeiros, são desastrosos para o país. Vasco Campilho mostra-nos as reacções.

Terraço.

Jantei no restaurante Terraço do Hotel Tivoli. Já ouvira falar muito de Luis Baena, responsável pelo menú, e tinha uma elevada expectativa a respeito da sua criatividade e sentido de humor.  Trata-se de uma cozinha muito irónica, que faz a recriação de pratos tradicionais até ao limite do reconhecimento e lança uma piscadela de olho ocasional à fast food — como ocorre com o McSilva, um pequeno hamburguer de bacalhau que vem à mesa em embalagem da McDonalds. O menu de degustação abunda em pirotecnias nem sempre felizes, mas é impossível esquecer o sorvete de manjericão preparado à mesa com azoto líquido, a salsicha de sapateira, o pequeno bitoque com ovo de codorniz e batata insuflada, o esparguete de chouriço, o gelado de maçã assada e muitas outras surpresas de uma refeição com nove pratos geralmente delirantes. 

Fiquei a respeitar o chef, embora a experiência tenha tido um lado Liberace, com piano branco e castiçal dourado — que lá por ser irónico não é menos esgotante.

Ricas casinhas.

Existem revistas comprometidas, como a Interni ou a Elle Decor italiana, feitas para gente que quer ser moderna, ter estilo, e impressionar os novos amigos com a mesma panache que os transportou de uma caverna das berças para o Chiado — e não há mal algum em ser ambicioso, viver com a performance ou votar convictamente no engenheiro Sócrates (outro exemplo de rapidez estonteante, embora aplicavel à formação académica).

Mas também existem revistas de decoração para quem acha que o estilo é o pior substituto da integridade. A World of Interiors não tem estilo: aqui podemos encontrar palácios barrocos do Surrey, vivendas Marroquinas, cabanas de pescadores da Nazaré (a sério), lofts no Mónaco, suites em Tribeca e palhotas do Mali. A revista é uma homenagem perpétua ao engenho humano, à sua infinita sofisticação, com belas fotos e textos cuidados. E é, além disso, uma inesquecível lição de humildade para quem julga que o bom gosto é o que nos faz encher de móveis Cappellini um apartamento cintilante em Lisboa. 

Acaba de sair um novo número, quase perfeito.

A política do amor.

 

Dedicado ao André Pessoa, ao seu amigo Nuno Lobo — e também, já que falamos de relações fortes à direita, ao exemplo ternurento do austríaco Jorg Haider.

“Ó filha, é claro que a Raquelinha é apenas minha secretária.”

Para além do pequeno quiproquó mencionado no post anterior, o Partido Socialista prepara-se para fazer mais uma alteração à lei do financiamento dos partidos através do Orçamento de Estado (sim, você leu bem): a partir de agora, diz-se ali como quem não quer a coisa, os amigalhaços do PS já podem comprar imóveis ao partido por um “valor muito superior ao valor de mercado” sem que isso seja considerado um donativo. Isto é, podem financiar sem qualquer controlo a força política da sua eleição. Um especialista nesta área (Luis de Sousa, citado pelo Público) afirma que “as alterações são tão graves que é preciso ir até ao fim e investigar quem as introduziu no OE”.

É que é mesmo já a seguir.

Saldanha Sanches questiona, André Freire tem dúvidas, os comentadores da SIC Noticias ficaram lívidos. Mas Alberto Martins vai apresentar com certeza uma óptima explicação.

“Não é nada do que pensas, querido. O Ricardão só estava à procura da minha lente de contacto.”

Alberto Martins já garantiu que foi apenas um equívoco. Podemos ficar tranquilos.

A queda.

A crise financeira não é o fim do capitalismo, mas pode encostar às cordas uma das suas materializações mais corrosivas — o darwinismo económico. Há bem pouco tempo, enquanto os doutores do Porto dissertavam sobre a privatização dos rios e as fragilidades da segurança social pública, este texto do João Pinto e Castro levantaria urros encolerizados entre Nevogilde e a Campanhã: 

 

Não devemos ser injustos. As tretas do Friedman deram agora barraca, mas, durante trinta anos, trouxeram prosperidade a todo o mundo numa escala sem precedentes.

Será verdade?

Não. Quando, a partir do final dos anos 70, o monetarismo foi adoptado em Inglaterra e, depois, nos EUA, o resultado imediato foi uma crise (ou melhor, duas: uma em cada país) de enormes proporções, da qual só foi possível sair com um aumento sem precedentes dos défices públicos.

As prescrições friedmanianas de controlo do crescimento da massa monetária foram prontamente abandonadas. Passado pouco tempo, nada restava da parte “científica” da doutrina.

Ficou apenas a fé ilimitada nos poderes dos mercados desregulados e a desconfiança doentia em relação aos poderes públicos, “argumentos” suficientes para justificar iniciativas como a diminuição dos impostos sobre os ricos, a desregulamentação financeira, a redução do salário mínimo e, em geral, a desvalorização das políticas sociais.

 

E hoje? Bom, ainda agora fui ver o que lhe respondiam no Blasfémias e só encontrei por lá umas graçolas requentadas sobre os tempos do Vasco Gonçalves. Aparentemente, os nossos Milton Friedmans quando se sentem ameaçados ficam imóveis à espera que passe, tal como fazem certos anfíbios para escaparem aos predadores (o darwinismo inspira-me imenso). E os liberais da outra senhora? Esses também estão a assobiar para o lado, como quem não quer a coisa. Deve ser a hora do terço. 

Francamente, já não sei o que se passa com a blogosfera de direita portuguesa — uma pessoa procura o debate e encontra um muro. Talvez valha a pena recordar aos meus amigos que acabou assim o comunismo: num dia havia uma parede, no outro não havia nada.

Let’s get lost.

Não sei se conseguirei regressar ao Doc Lisboa, mas vi ontem um documentário magnífico de Bruce Weber sobre Chet Baker e hoje conheci a selecção de filmes chineses, que parece bem interessante. Alguém que tenha uma vida vá por mim.