A turba.

Palmira Silva faz um bom resumo do desvario que atravessa os comícios de McCain e da pobre imbecil que este escolheu para candidata a vice-presidente da nação mais poderosa do mundo. Aparentemente todos os nhurros do Midwest se uniram nos últimos dias para despejarem rios de baba à menção do terrorista que pretende sequestrar a terra prometida, desbaratando o grandioso legado do presidente Bush. 

Mas quem julgou que Portugal era a Europa, e que na Europa éramos diferentes, pode perder as ilusões. Das profundezas de uma caverna no Rebordelo veio o André Pessoa estacionar a burra e poisar o seu cajado no Cachimbo de Magritte, para extasiar os crédulos com promessas miríficas de um paraíso ornamentado por música country e cadeiras eléctricas — um mundo em que qualquer sopeira de mamas grandes chega a governadora, se conseguir soletrar meia-dúzia de insultos com fulgor evangélico num auto-da-fé. 

Durante semanas, o André aborreceu-nos com as suas acusações graves contra Obama: que era preto, que era amigo de terroristas, que praticava (vejam lá) a política do ódio, que trazia com ele, valha-nos Deus, o socialismo. Mas agora — agora que Sarah Palin é acusada pelos orgãos fiscalizadores do seu Estado do Alaska de abuso de poder, o que é que faz o André? Faz o que pode: brinda-nos com o mais auspicioso dos presentes — o silêncio. Esperemos que seja longo, fecundo, e que termine em derrota.

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Entendo pouco de física, por isso penso no universo poeticamente. Sempre me agradou a ideia de que uma poeira cósmica percorria o meu ânimo enquanto este escapava ao repouso eterno. Saber que os átomos cumprem a sua função apazigua-me.

Há uma economia nas partículas que nos consola do tempo perdido: ele amou em vão, mas serviu de pasto aos electrões. Ela caiu em si, fulminada por um quark. Fulano ou sicrano mantiveram uma carga negativa, que repeliu os isótopos. Júlia albergava moléculas de carbono em homeostase, organizadas como um pequeno sistema solar. Dinis cultivou um je ne sais quoi autopoiético de base aquosa e regulação proteica. 

A literatura não alcança a vasta intencionalidade dos corpúsculos — a sua infinita melancolia, banhada por uma réstea de luz.

Promessas.

Sim, sim, precisamos de regulação, e tal. Mas as invectivas de Saramago contra o capitalismo lembram-me o juramento de Anibal contra o domínio de Roma: este seria extinto, é um facto, mil e setecentos anos mais tarde.

Querias.

É um sinal do nosso atraso: nós votamos com disciplina o casamento gay e nos EUA os deputados votam livremente o Plano Paulson, decisivo para salvar a economia… Se é para votarmos todos como nos mandam, então basta um deputado por partido.

Ricardo Gonçalves, deputado socialista, no Público de hoje.