Cu-cu-ru-cu-cu, te quiero.

Julgo há muito tempo que a absorção do Bloco de Esquerda pelo Partido Socialista é mais ou menos inevitável. O PS precisa de alguém que substitua o decrépito Manuel Alegre na missão de emprestar algum contorno ideológico ao seu puro projecto de poder. E os quatro ou cinco bloquistas que interessam à opinião pública não desdenhariam aplicar a autoridade que lhes é concedida pela sua projecção em alguma coisa que considerem útil para eles ou para o país. 

Essa absorção nunca seria formal: trazer a terreiro o abespinhado doutor Louçã é algo que, compreensivelmente, não interessa a ninguém. O máximo que os dirigentes socialistas podem fazer é acenar-lhe com a vaga hipótese de uma aliança para o irem entretendo, enquanto não se consuma o desfalque que possivelmente os motiva. Não quero dar-me ares de oráculo, apenas transmitir aos leitores a minha perspectiva da coisa. 

Tudo isto é facilitado pela circunstância de o projecto do Bloco na esfera dos costumes estar praticamente concluido: só o casamento dos homossexuais ainda faz as vezes de causa fracturante, com todo o seu tom de artimanha folclórica para que os dois partidos encontrem alguma coisa que os distinga e não fiquem na fotografia com aquele aspecto das pessoas que não sabem onde hão-de pôr as mãos. 

Sei que tudo isto parece um pouco cínico, mas não o é mais que as conversetas sobre a Sarah Palin com que nos têm brindado ambos os lados na blogosfera. Aliás, se a lógica política desta aproximação me parece impecável, alguns os seus protagonistas não se fazem rogados: quem distingue hoje em dia o Rui Tavares de um socialista com cartão e quotas em dia? Outros talvez se demorem mais em mesuras e salamaleques, mas a proximidade de uma eleição depressa liberta os homens dos punhos de renda e lhes dá a coragem das suas convicções. 

Nem tudo será fácil — mas confesso que a manobra não me desagrada inteiramente. O país precisa de uma esquerda que seja de esquerda, e de uma direita que seja mesmo de direita. Com sorte, a absorção dos bloquistas permitirá que o projecto do PS se reencontre com a ideologia, em vez de seguir os interesses dos apparatchic — e obrigará os sociais-democratas a fazerem o mesmo. Teremos mais alternativas políticas, e não apenas estilos alternativos de exercício do governo. Agora só falta que aconteça.

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