“Mas você ainda é de esquerda?”

Pessoas amigas têm-me feito esta pergunta desde que os meus posts começaram a ser citados pelo Henrique Raposo e circulam na blogosfera, digamos assim, conservadora. O tom angustiado dessas inquietações persuadiu-me a reflectir num assunto que habitualmente desdenho, e a inclusão do Vida Breve nesta lista do Arrastão honrou-me, mas também deu uma nova urgência à questão: serei mesmo de esquerda? E é razoável, para um espírito prático, ser de esquerda hoje em dia em Portugal?

Nasci na freguesia da Lapa, mas recebi desde criança ensaboadelas marxistas-leninistas mais adequadas a um jornaleiro de Grândola. A minha meninice, atormentada por longos solilóquios sobre o látego opressor das multinacionais, escoou-se entre salões de fumo repletos de estudantes universitários barbudos e uns vagos majores do Conselho da Revolução. Aos seis anos já tinha os pulmõezinhos calcinados. Aos sete decorei a dialéctica. Aos oito fui ao enterro das vítimas do Tarrafal. Aos nove dei por mim à porta do general Vasco Gonçalves, nas costas do meu pai, berrando loucamente que seria a sua muralha de aço. Ainda hoje tenho suores frios quando oiço a Ópera do Malandro. Se há pessoa neste mundo que conhece a esquerda, e a conhece por dentro, essa pessoa sou eu — e é uma chusma ingovernável, leitores. 

Dito isto, nunca renegarei os ideais que desbarataram tão eficazmente a minha infância: acredito que o Estado deve reduzir as desigualdades através das transferências sociais e dos impostos. Defendo o rendimento social de inserção, o aumento do ordenado mínimo, e não creio que a legislação laboral seja responsável pela desastrosa improdutividade do país. Sou a favor da despenalização do aborto, das quotas para mulheres em cargos políticos, e dos casamentos entre homossexuais, se eles fizerem questão.

Algumas coisas, é certo, afastam-me da esquerda por causa das idiossincrasias lusitanas: por exemplo, o papel das empresas públicas. Enquanto na Suécia estas constroem grandes marcas, como a Absolut Vodka, aqui só servem para reabilitar o engenheiro Armando Vara.No que diz respeito à política fiscal, também defendo a solução nórdica: impostos elevados sobre os rendimentos e baixos sobre as empresas — algo impensável no nosso estádio de desenvolvimento, tanto à esquerda como à direita. 

Outras petites différences têm origem numa visão peculiar da natureza humana: assim, apoio as transferências sociais para crianças, velhos, desempregados, inválidos e indigentes, mas oponho-me por princípio à concessão de subsídios a jovens adultos. Um rapaz de 23 anos, com uma vida pela frente, deve aprender a lutar pela fortuna, a glória, o amor — não por um apartamento com renda subsidiada em Mem Martins. Ao sustentar gente no início da idade activa, o Estado arrisca-se a formar gerações inteiras de inúteis.  

Mais uma divisão: o frentismo. Em Portugal parece vingar a tese de que um eleitor do PS é ideologicamente parecido com um do Bloco ou do PCP. Não creio. O PS de Sócrates nem sequer é um partido de esquerda — a demagogia mais impudente e uma arrogância de parvenu afastam-no dos velhos sonhos de democracia e lberdade de Mário Soares ou Jorge Sampaio, e acabarão por aproximá-lo de um populismo musculado, à Silvio Berlusconi. 

Podia continuar, mas suponho que respondi às duas ou três pessoas que me fizeram a pergunta: sim, sou de esquerda. Se a esquerda concorda comigo, já é outra conversa.

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22 pensamentos sobre ““Mas você ainda é de esquerda?”

  1. “este é o tipo de esquerda que cabe no meu partido…”

    Já é um partido com duas pessoas, então.

    “A esquerda nunca concorda com a esquerda. É da sua natureza.”

    Ai, se eu contasse as coisas que vi.

    “Do outro lado da barricada digo que a Absolut foi vendida a um grupo Francês.”

    Foi vendida COM LUCRO a um grupo francês.

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  2. Muito bom. Jorge vintage. Mas não se estrague no PSD, por favor.

    PS: Para não lhe criar embaraços, o melhor é pagar o meu comentário

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  3. Não é pagar, mas apagar – evidentemente. Fugiu-me a boca para a verdade, quer dizer, para o capitalismo selvagem.

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  4. Respondendo à sua “pergunta”, não vejo como pode não ser de esquerda. Não está é preso às amarras de um padrão ou de um paradigma e isso, à esquerda ou à direita, é uma qualidade que se encontra pouco.
    Haja esquerda assim.

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  5. “Ai, se eu contasse as coisas que vi.”

    Luis M. Jorge, há pessoas más e estranhas e coisas esquisitas no mundo, eu, se calhar, já vi pior, a realidade ultrapassa a ficção, etc, etc. Mas o que tem isso a ver com ser de esquerda ou não, já não sei. O Luis tem ideias de esquerda, que são partilhados com outras pessoas de esquerda, logo, o Luis é de esquerda. Complicado?

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  6. “Luis M. Jorge, há pessoas más e estranhas e coisas esquisitas no mundo”

    Era aqui que vocÊ me devia ter levado menos a sério, Rita. As coisas não foram assim tão “más” ou “estranhas” — apenas invulgares.

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  7. Está bem, Luis Jorge. invulgares, estranhas, whatever. O que eu lhe queria dizer, por meu lado, é que não vejo que as suas experiências da infância ou adolescência com pessoas de esquerda (é isso, não é?), justifiquem essa sua espécie de .. hhmmm… esquizofrenia (não leve esta também muito a sério)

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  8. Gostei, caro Luís. Em Portugal, pensar pela nossa cabeça e fugir ao estereotipo, professando as suas ideias sem embarcar cegamente em dogmas e em ideias feitas, acaba por ser uma cruz que se carrega… Falo por mim, eu que (também) me considero de esquerda. Para os meus amigos de direita, sou um perigoso comuna; para os meus amigos de esquerda, sou um perigoso liberal. Enfim…

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  9. Luis, havia duas versões ligeiramente diferentes do comentário, escolhi a última pois pareceu-me que era essa a sua ideia.

    Quanto às quotas: é um belo tema para uma noite de outono, a que porventura gostaria de voltar.

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  10. Interessa que o PS de Sõcrates não “seja de esquerda”?
    Talvez

    Mas… quando me lembro que a alternativa é o PSD, mesmo que este “seja de esquerda” prefiro o PS “extrema-direita” de Sócrates…..

    ( poderia continuar, mas para parvoíces bolgosféricas, basta!)

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