American way.

Há uns dez anos, no final da minha primeira viagem aos Estados Unidos, cheguei a Greenwich Village suado, nauseabundo, de calças esfarrapadas e chanata de couro com dedo poeirento a despontar. Enquanto me preparavam o quarto, tive a rica ideia de visitar o quarteirão. Entrei por desfastio numa galeria de arte e pus-me a olhar para um quadro, que considerei logo uma homenagem muitíssimo escancarada. Afinal era uma reprodução que tinha levado uns toques do autor: um acabamento a tinta de ouro, ou coisa que o valha, sobre o rosto da Marilyn Monroe. 

Nessa altura fui interrompido por um sujeito de falinhas mansas, arzinho chique e insinuante, que desatou a pôr a obra nos píncaros — pois tinham sido feitas apenas meia-dúzia de reproduções com o tal acabamento do mestre, o que a tornava muito recomendável e um óptimo investimento. Demorei alguns minutos até perceber que o homem me queria vender um Andy Warhol. A mim, praticamente um homeless, de roupa encardida e cheiro a bedum. O capricho, descobri a tempo, custar-me-ia doze mil contos. 

Saí estonteado e entrei na Armani Exchange. Depois dos doze mil contos tudo me parecia barato, e lá acabei por comprar três ou quatro peças. A menina do balcão perguntou quem me ajudara a prová-las e eu, que tinha agido num ápice, apontei-lhe um colega que nunca vira mais gordo, pois sei que ali se ganha à percentagem. O colega veio ter comigo de olho meloso, por pura gratidão. No minuto seguinte já me convidara para um pequeno-almoço exclusivo, com clientes habituais, em que me seria revelada uma nova futilidade qualquer. 

Aquilo sim, era vida! Chegara mal enjorcado a Nova Iorque, e ao fim de meia-hora já tudo me pertencia. Em vez de ser escorraçado da Zara, recebia convites da Armani. Em vez de me darem esmolas, tentavam vender-me obras de arte quase originais. Comecei a entender a conversa sobre a terra das oportunidades. 

Obama e Sarah Palin animam a opinião esclarecida na Europa. Diz-se que nunca por cá teriamos uma senhora Palin, o que é absolutamente verdade. O problema é que também não temos um Obama. Na câmara de Lisboa há um homem honesto e trabalhador, que podia ser primeiro-ministro se não fosse escuro demais. O Lutz pode tecer encómios ao candidato negro na América, mas esqueceu-se de nos apontar os políticos de origem turca que fazem carreira política a sério na Alemanha. 

Se o presidente americano fosse eleito pelos europeus, explica ele, Obama ganharia com esmagadora maioria.

Não, não ganharia, porque nunca chegaria a candidatar-se. Obama na Europa não ultrapassava o estatuto de mascote: seria o pretinho da esquerda moderna que estudou em boas universidades e se exibe nos colóquios de sociologia para gáudio das doutorandas. 

O que nos leva à segunda questão. Ao rejeitar Palin por ser uma hockey mom provinciana e beata, a opinião pública europeia revela-nos um preconceito simétrico do que atinge as minorias raciais. O problema, reparem, não está nas suas opiniões. Palin não é mais conservadora que Romney, ou que Reagan. O problema é que a América deu protagonismo político a uma dona de casa cristã com uma catrefada de filhos e a levou tão a sério que está quase a elegê-la. Este levar a sério é o problema.  

Na Europa, pessoas como Palin ficam sempre a meio da corrida. Nunca chegam a perturbar as boas consciências, a nossa tolerância. O combate político, aqui, é anterior às campanhas. Tudo é apreciado antes do tempo, à luz dos nossos preconceitos. Mas na América, os juizos de eficácia predominam sobre o preconceito. Palin foi escolhida porque pode ganhar. Tão simples como isso. Do mesmo modo, alguém me impingiu um Warhol porque eu estava ali e podia ter dinheiro. A avaliação de um galerista português seria muitíssimo diferente. 

Na América, em grande medida, os homens são páginas em branco, enquanto aqui são resmas de texto em corpo oito sobre as quais recai o nosso escrutínio infindável. Tentem entrar andrajosos na Armani de Lisboa e verão o que vos acontece. 

A esquerda europeia gostaria de ter um Obama, sem levar com uma Palin. Mas o sistema que criou Palin é o mesmo que pode conduzir Obama à presidência. Obama não existiria, se Palin não existisse. Ambos são frutos do risco, de juizos apurados de eficácia, e de uma máquina que ignora as subtilezas culturais para levar o mais longe possível o princípio da representação. É exactamente por não compreendermos isto que não existem Obamas na Europa.

63 pensamentos sobre “American way.

  1. Muito do teu argumento convence. Há uma diferença profunda entre América e Europa, na forma como é entendida a representação política. Nas EUA é mais directa, mais centrada na pessoa do candidato. Se a pessoa convence, pode chegar muito longe, não conta o percurso no aparelho, nem o pedigree?

    Não conta? Duvido. A Sarah Palin não é da Ivy League, bastou uma carreira política num estado menor para chegar aonde chegou. Não é uma outsider. É governadora de um Estado federal. É verdade que a sua família não tem ligações à velha aristocracia da costa leste. E se é verdade que também Lincoln, Truman, e Clinton chegaram a Presidente sem terem nascido no establishment, por outro lado, Teedy e F.D.Roosevelt, Kennedy e Bush pai e filho e outros nasceram.

    Mas concedo que é possível na América, que um Zé ou uma Sara Ninguém chegue a Presidente, só pelo mérito próprio, e que isso é uma grande, talvez a maior qualidade dos EUA.

    Admito que eu generalizei primeiro ao falar da Europa em contraste a América. Mas quando falas de Europa, não estarás a falar apenas de Portugl? Será ser que em Portugal ainda não se chegue a PM se se é preto? – Honestamente, não sei. Pelo menos no caso de António Costa nunca me ocorreu que a sua tez possa ser obstáculo inultrapassável. Quanto ao pedigree, é verdade que a classe política, e os outros lugares chave da sociedade portuguesa ainda estão desproporcionalmente cheios de Soares, Rebelo de Sousas, Portas, Mellos, etc., mas também já tivemos um PM Cavaco Silva e temos um Sócrates, homens da província e sem patrocínio da grande burguesia.
    Na Alemanha tivemos Willy Brandt (filho ilegítimo de uma caixa num armazem da cidade portuária de Lübeck), Gerhard Schröder, que trabalhou até aos 22 anos numa loja de ferragens, quando acabou, estudando a noite, por conseguir passar no exame final do liceu e iniciar o curso de direito.
    À Angela Merkel também não profetizaram a sua carreira no berço: filha de um pastor evangélico e de uma professora na RDA comunista.
    Fora da Alemanha: Vá lá ver a bio de Tony Blair, ou mesmo de Sarkozy.
    Mas dirás que não é o pedigree que referiste: o processo de selecção dentro do aparelho dos partidos europeus assegura que dele só saiem pessoas formatadas e desinteressantes. Não sei. Goste-se ou não da sua política, Blair, no meu entender é uma prova do contrário, Joschka Fischer outra, e Sarkozy outra também, até Berlusconi.

    P.S.:
    Obrigado pelo discreto aviso pelo erro de gramática.

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  2. Está muito bem visto. E sim, é verdade: falamos muito de Obama, mas aqui ainda seria impensável eleger um negro. Basta ver como muita gente ainda se refere à única mulher que ocupou o cargo de Primeiro-Ministro em Portugal (que jamais o teria ocupado se tívesse dependido do voto popular).

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  3. Concordo com a maior parte do texto. Concordo também com o Lutz, quando ele diz que a Europa tem sociedades menos estratificadas do que a portuguesa. Mas lentamente a estratificação na sociedade portuguesa vai diminuindo. O Guterres é outro exemplo de selecção por mérito.
    Não creio que o bronzeado permanente do António Costa o afecte na progressão política porque o racismo português tem predominantemente uma base classista: as pessoas de cor têm maiores dificuldades em progredir nos estudos (origem das discriminações posteriores) não directamente por serem de cor mas indirectamente pelo menor apoio que a família está em condições de lhes proporcionar.

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  4. “Obama não existiria, se Palin não existisse.”

    Sorrry, esta observação cronológica minúcula:

    Palin não existiria, se Obama não existisse. É, agora, a nossa ordem de sucessão dos acontecimentos.

    Mas os EU é exactamente isso: a possibilidade anacrónica, sem ordem de factores.

    PS.: O Obama vai perder; a mulher não faz sentido no retrato.

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  5. “Não creio que o bronzeado permanente do António Costa o afecte na progressão política porque o racismo português tem predominantemente uma base classista”

    Não concordo consigo, jj Amarante. Talvez, pelo contrário, as nossa classes é que tenham uma base racista.

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  6. No geral, concordo com o texto, Luis. A Europa gosta muito de Obama lá, aqui é outra história.

    Mas, por outro lado, lembro que a Europa pôs no cargo de Presidente da Comissão Europeia um Durão Barroso.
    Ser periférico na Europa, quando em vez é um valor.
    E Sarkozy é praticamente um imigrante.
    Quanto a Costa não chegar a PM por causa da cor… não sei se é assim. Não me parece que António Costa seja catalogado na mente do homem comum como “étnico”. Se fosse negro ou se falasse português com sotaque, sem sombra de dúvida que não haveria a menor chance de ser eleito.
    Agora, nunca percebi porque é que na BBC tem um locutor de telejornal negro e Portugal não.
    Finalizo a ressaltar outra situação que a mim, muito intriga: é curioso como o único deputado negro do parlamento português integra o CDS PP e não um partido de esquerda.
    Abraço

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  7. ” A Europa gosta muito de Obama lá, aqui é outra história.”

    Exacto.

    “Quanto a Costa não chegar a PM por causa da cor… não sei se é assim. Não me parece que António Costa seja catalogado na mente do homem comum como “étnico”. ”

    Não é do homem comum, é do homem do partido, Pergunte a alguém que esteja no PS.

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  8. É mais do que acertado o raciocínio de que Obama na Europa nao passaria da mascote de uma certa esquerda.

    Relativamente ao António Costa, tenho a dizer-lhe que está mais seguro acerca das suas competências que eu… No entanto, concordo com o seu raciocínio acerca das suas possibilidades políticas. É preciso nao esquecer que o universo votante dos States é altamente polarizado, entre progressistas e conservadores, urbanos e rurais, fanáticos e moderados, enfim, democratas e republicanos. As duas facçoes podem equilibrar-se na urnas, coisa que nos casos europeus é difícil que aconteça. Na Europa a facçao mais preponderante é a populaçao envelhecida, de tendências conservadoras e tradicionalmente xenófobas. António Costa, quando muito, poderia aspirar a números semelhantes àqueles que o Bloco alcança, já que constituíria um candidato “exótico” para a base eleitoral tuga, imediatamente colocado ao nível de propostas como sejam as salas de chuto, casamento entre homossexuais, legalizaçao das drogas leves, etc.

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  9. “É certamente uma fraqueza minha, porque também gostava do tipo que lá está a destruir o país.”

    Se calhar você anda enganado. Deixe-se antes levar pelas suas fraquezas, como quem diz, pelo seu coração, que estará bem.

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  10. Ó Luis M. Jorge, nunca, até agora, tinha havido um candidato negro para a presidência dos Estados Unidos, nem sequer para vice (pelo menos, com algum relevo). E é um país com uma maior percentagem de negros do que qualquer país europeu. A sua elegia épica aos Estados Unidos, nesse aspecto, é um bocado exagerada.

    Quanto a qualquer pessoa chegar ao poder no Estados Unidos só por mérito próprio, é outro mito. O poder nos Estados Unidos, com algumas excepções, sempre esteve nas mãos de uma “aristocracia”, bem nascida e priveligiada. As excepções apontadas pelo lutz, são isso mesmo, excepções. É estudar as biografias de todos os presidentes até agora, e ver qual a percentagem dos que nasceram em cabanas na floresta ou no Bronx.

    Quanto à Palin, diz o Luis M. Jorge que ela é uma “dona de casa cristã com uma catrefada de filhos”. A descrição é ternurenta, mas ela não é nada disso. “dona de casa cristã com cinco filhos” é a Senhora Smith de New Jersey. A Palin é uma politica, que por acaso tem filhos e é cristá e serve-se disso para a campanha.

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  11. Está completamente enganado: já houve um candidato negro que até atingiu altos níveis de notoriedade. Ora consulte lá os arquivos.

    A percentagem de negros nos EUA não ultrapassa os 20%.

    Tenho a certeza que muitos países europeus encontram minorias étnicas com dimensão semelhante. Se quiserem. Se não preferirem “votar” nas eleições americanas.

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  12. Um candidato negro com “altos indices de notoriedade”? Calculo que sim… e notoriedade, onde? Na redacção do New York Times? 😉 Agora a sério: qual foi a votação do candidato negro? E quantos hispânicos houve? A verdade é que a politica nos Estados Unidos sempre foi WASP, em muito maior percentagem do que a percentagem de WASP existente no país. Veja a percentagem de negros ou hispânicos no Congresso, ou na Administração, por exemplo.

    E não se prenda com o “elegia épica”. Foi só uma forma de dizer que criou uma imagem dos Estados Unidos, no que respeita às “oportunidades”, que lhe é incutida pela propaganda. Eu sei que o Lincoln, o Honest Abe que nasceu numa cabana, será sempre o padrão.

    No resto, na simpatia dos americanos, o Luis M. Jorge tem razão. Nunca fui aos Estados Unidos, mas já conheci muitos por essa Europa fora.

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  13. Ó Luis M. Jorge, você tem algo contra indicar-me o tal candidato negro, sem que eu tenha de ir ao google? Eu não tenho nenhum problema em pedir desculpa, homem. Vá lá, seja simpático como os americanos e diga lá quem é o gajo, que eu depois vou ver à wikipedia.

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  14. (o meu último comentário foi colocado mesmo antes de ver o link do Luis)

    É mesmo o Jesse Jackson! Mas esse não passou das primárias, onde o melhor lugar que obteve foi um segundo lugar com cerca de um quarto dos votos dos delegados… Chamar-lhe “candidato negro” é um eufemismo caridoso, não é? A história americana está cheia de desconhecidos irrelevantes com esse curriculum, ó Luis. É mesmo esse o tal exemplo que tem a apresentar à europa racista e elitista?

    Bem, de qualquer forma, peço imensa desculpa, já que faz questão.

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  15. ” Mas esse não passou das primárias, onde o melhor lugar que obteve foi um segundo lugar com cerca de um quarto dos votos dos delegados… Chamar-lhe “candidato negro” é um eufemismo caridoso, não é? ”

    Bom, eu só disse que ele era negro, candidato à presidência, e que atingiu altos níveis de notoriedade. Todas estas afirmações me parecem indisputáveis. Aceito o seu pedido de desculpas com a minha clemência habitual.

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  16. Pois… bom, ó Luis M. Jorge, você é um good sport, de qualquer maneira 😉 E aceito a sua aceitação do meu pedido de desculpas com a minha também habitual boa vontade.

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  17. Atenção que a história do negro na América é completamente diferente do negro na Europa. Por cá é um fenómeno recente (guardadas as devidas ressalvas). A integração social do negro na Europa ou antes do imigrante do 3º mundo ainda está por se dar. Começou ontem.

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  18. Esqueci-me do “dona de casa”. É dona de casa, a Palin. Uma personagem do Norman Rockwell é candidata a VP nos States. Praise the Lord.

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  19. Já agora, Sarkozy não é filho de um imigrante húngaro e de uma mulher de ascendência judia? Ouvi dizer…

    É que a comparação entre negros na Europa e negros nos EUA, como já aqui foi explicado, faz pouco sentido.

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  20. Daniel, Sarkosy é filho de um aristocrata húngaro, pelo que ouvi dizer. Se fosse filho de um emigrante magrebino duvido que chegasse longe.

    A minha comparação não foi tanto entre negros na América e negros na Europa, como entre negros na América e turcos na Alemanha.

    Tens razão: também existem dinastias nos Estados Unidos, que são cada vez menos uma página em branco. Gore Vidal explica bem o fenómeno. Mas a esse respeito ainda têm muito a aprender connosco. Quantas monarquias subsistem na Europa?

    Até é possível que Obama seja um caso excepcional, e que não tenha um significado assim tão profundo no que diz respeito à transparência dos processos de representação. Ainda não sabemos.

    No entanto, faz-me sempre impressão ver as boas consciências europeias apontarem o dedo à América sem se olharem ao espelho.

    Aqueles “nhurros” (ou “provincianos”, uma palavra agora reabilitada por quilos de filosofia) e aqueles “racistas” estão quase a eleger um negro para presidente da república, mesmo que os seus apoiantes façam tudo para perder as eleições. Entretanto, a Itália persegue os ciganos, a França torce o nariz à Turquia na UE, a Dinamarca coloca os emigrantes ilegais em campos de detenção, e os nossos bloggers bem comportados indignam-se com a senhora Palin, como se não tivessem mais nada em que pensar do lado de cá do Alaska.

    Entre os EUA e a Itália (ou Portugal), julgo que sei qual é a melhor das democracias.

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  21. Luís, não fiz nem faço aqui o elogio da Europa e a única coisa em que acho que a Europa é superior aos EUA é no chamado Modelo Social Europeu. Não e encontrarás a fazer comparações culturais. Aliás, vim de lá bastante satisfeito.

    Quanto às democracias, não consigo fazer essa comparação, já que a Europa não existe como Estado para poder ser comparado. A democracia dinamarquesa é seguramente bastante distante da democracia grega. Bem sei que nos EUA também não faltam diferenças, mas talvez não sejam tão profundas como as de estados com histórias e formas de governo tão diferentes.

    Ainda assim, compara Itália com a Luisiana e a Suécia com Massachusetts ou Portugal com um Estado do Interior e talvez consigas resultados para todos os gostos.

    Apenas me pareceu que o teu optimismo faz pouco sentido. Se há coisa que está longe, muito longe, de estar resolvida nos EUA é a questão racial. Basta passear pelas cidades americanas para o perceber. E basta olhar para os números. A diferença social entre negros e brancos, em todos os indicadores, é inacreditavel. E insito: nem com os magrebinos podes comparar. Os negros não são imigrantes. Nem de primeira, nem de segunda, nem de terceira geração. Quer dizer, são, mas tanto como todos os americanos. Não há termo de comparação na Europa.

    A Europa é composta por estados imperiais. Os EUA são um país onde até aos anos 60, em muitos estados, os negros, descendentes dos escravos, não tinham direitos iguais aos brancos. As duas realidades criam tipos de racismos muito diferentes.

    Irrita-me tanto a afirmação snobe da superiordade europeia como este deslumbramento por uma democracia carregada de problemas, onde o racial, e em especial em relação aos negros, por acaso, até é dos mais graves. Pegaste em vários exemplos de racismno na Europa e outros tantos encontrarias nos EUA.

    Por fim, recordo-te que Buto era das políticas mais populares do Paquistão e nem por isso os paquistaneses deixam de ser profundamente machistas. E que é o filho de imigrantes Sarkozy que lidera, com Berlusconi, a política anti-imigração na Europa. As coisas são um pouco mais complicadas.

    Por mim, o meu problema com a América é o seu modelo económico. E, já agora, se olhares para os presidentes e a sua origem social, aí não encontrarás grandes diferenças entre a Europa e os EUA. Papel em branco nenhum.

    E sim, estou seguro que Obama seria eleito na esmagadora maioria dos países europeus.

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  22. É óbvio que não se comparam os negros da América com os Turcos na Alemanha, como o Daniel já apontou. O correspondente aos turcos na Alemanha, são os mexicanos e brasileiros que atravessam todos os dias a fronteira para o Texas. Desconfio que os turcos na Alemanha têm muito mais protecção social e direitos politicos do que esses.

    Quanto ao racismo, sintomático é o Luis aqui ter apresentado como caso de grande sucesso de integração racial nos Estados Unidos, um negro que não chegou sequer a ir eleições. Passados tantos anos de cidadania dos negros na América, só agora um negro chega à corrida eleitoral. E há quantos anos ouvimos falar do cinéfilo american dream no que às oportunidades diz respeito?

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  23. Daniel, suponho que podemos desde já reconhecer um ao outro opiniões mais nuancées que as atribuidas caricaturalmenta a um pregador do Texas ou a um tocador de djambé do Chapitô.

    Por partes, aquilo em que estamos de acordo:

    – o modelo social europeu é mais equilibrado e justo que o modelo social americano.
    – a Europa é variada nos modos como vive em democracia.
    – a questão racial nos Estados Unidos está longe de ser resolvida.

    Por outro lado:

    – Segundo os últimos estudos que li a esse respeito, havia na Europa quatro “modelos sociais” completamente diferentes. O nosso (que é muito semelhante ao Italiano) não era particularmente mais justo ou equilibrado que o Americano, e era bastante menos produtivo. Se falarmos da Suécia a conversa é outra.
    – Os Estados americanos também não são uniformes, mesmo na vida pública. A Califórnia e o Nevada, que estão lado a lado, parecem-me dois bons exemplos pela sua subtileza inesperada: o Nevada é mais permissivo (ou “liberal”) em muitos aspectos que a Califórnia. Nem deixam de ser Estados com direito próprio, embora este não seja o espaço para analisar os detalhes do federalismo.
    – Embora lá a questão racial não esteja resolvida, eu preocupo-me mais com o nosso caso, em que a questão racial nem sequer é reconhecida. Basta alguém levantar uma lebre para vermos metade da esquerda a assobiar para o lado. Alguém recordava aqui com graça que o único deputado retintamente negro do nosso parlamento é do CDS (e uma bela peça, por sinal).

    “Irrita-me tanto a afirmação snobe da superiordade europeia como este deslumbramento por uma democracia carregada de problemas, onde o racial, e em especial em relação aos negros, por acaso, até é dos mais graves.”

    Pois, mas “deslumbramento” é um termo que no meu caso só se posso aplicar à relação com uma certa cidade italiana ou com alguns vinhos marcadamente europeus.

    Uma conclusão: cada pessoa tem direito aos seus vícios, e o meu vício, em política, é lutar pelo aspecto formal da vida democrática. Chamemos-lhe a “qualidade da democracia”. Isso acontece porque acredito que se cumprirmos bem as regras e as reforçarmos, o povo poderá escolher com mais liberdade, mesmo cometendo muitos erros, e que teremos melhores lideranças no futuro. Muitas vezes não quero saber da guerra entre esquerda e direita, mas apenas me preocupo em verificar se essa guerra é leal. Não gosto de eleições indirectas, de colégios eleitorais, de cargos cooptados, de entregas de obras sem concursos públicos, de amigalhaços da política nas empresas da construção civil, de tribunais que não prendem corruptos. E ainda gosto menos do silêncio do centro-esquerda a respeito destes fenómenos. Nos EUA, ao menos, os patrões da Enron apodrecem na cadeia (mas é verdade que Scotter Libby está cá fora). Apesar de haver fenómenos bizarros na América (a eleição do presidente por “eleitores” representando os estados é uma delas), julgo que aí podiamos aprender muita coisa com a vida política, principalmente a nivel local e estadual. Tenho pena que os europeus se recusem a reparar nesses fenómenos de democracia directa e estejam tão ocupados a vociferar contra o Bush. Não é que ele não mereça, só que evoluimos pouco com isso.

    Não julgo que a América seja perfeita, apenas que não conseguimos tirar dela o que tem de melhor.

    Finalmente:

    “E sim, estou seguro que Obama seria eleito na esmagadora maioria dos países europeus.”

    De Helsínquia para baixo, nem penses.

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  24. Luis, acho que a forma como abordas a questao nao e’ a mais relevante. Saber quem e’ a pessoa (ou a sua origem) que ocupa um lugar politico e’ um problema de segunda ordem. Mais relevante e’ saber que interesses e’ que o politico representa e que ideias/propostas coloca na mesa. E se analisares a questao deste ponto de vista poderas verificar (julgo) que a representatividade dos politicos europeus e’ muito mais larga do que a dos politicos norte-americanos que, seja qual for a sua origem pesssoal, representam essencialmente os interesses das grandes corporacoes e do ‘big business’ em geral, por construcao, pelo modo como a politica e’ organizada e *financiada* nos EUA. A discussao ‘a volta das qualidades/propriedades pessoais dos candidatos e’ espuria e serve apenas como um artificio de marketing para desviar a atencao destes factos essenciais e filtrar os temas que sao discutidos no espaco publica.

    As virtudes dos EUA estao noutro lado: nas estruturas de contra-poder, no jornalismo investigativo, na liberdade de expressao (mais bem defendida do que na Europa), etc …

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  25. Luis, eu li outra vez o que escreveu, e parece-me que de facto apresentou o Jesse Jackson em favor da sua tese (que depois veio a moderar) apresentada no último parágrafo do seu post, aquele onde se diz que nos states se leva o mais longe possivel o princípio da representação, ignorando-se as subtilezas culturais, em beneficio da eficácia. Em resumo, os americanos, quando se trata de escolher quem manda neles e os representa, seriam colour blind, entre outras coisas blind. Os homens na América, afinal, são páginas em branco…

    Mas admito que posso ter interpretado mal.

    Surgiu-me entretanto uma dúvida: e se o tal “homeless, de roupa encardida e cheiro a bedum” fosse negro, teria sido convidado assim tão delicadamente a entrar na tal loja? O que acha?

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  26. A troca de impressões está muito interessante, Luís. E não era minha intenção tramá-lo.

    Quero apenas dizer que a questão racial não está resolvida em parte alguma (nem lá, nem cá, nem em África, nem na Ásia, nem na Oceânia e, provavelmente, nem na Antártida). Infelizmente, talvez seja até um problema da natureza humana (eu sou de esquerda e tudo isso, mas começo a descrer no Homem, e não estou a brincar). E acho caricato (no mínimo) que alguém afirme que “Obama seria eleito na esmagadora maioria dos países europeus.” Obama não só não seria eleito, como sequer teria a possibilidade de se apresentar como candidato.

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  27. Carlos, o “tramar” era brincadeira.

    MP-S, não sei se os interesses económicos na América têm mais força política que na Europa.

    Quanto à segunda parte do seu raciocínio concordo consigo.

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  28. “Obama não só não seria eleito, como sequer teria a possibilidade de se apresentar como candidato.”

    Carlos, nenhum país da Europa tem 20% de cidadãos negros (nem sequer esse número como imigrantes), como os Estados Unidos (números do Luis). E mesmo assim, só agora os Estados Unidos conseguiu levar um negro a votos numas presidenciais, portanto… A Europa nada tem a aprender com os Estados Unidos neste campo. Aliás, não estou assim tão seguro como o Carlos de que na Europa um negro não conseguisse apresentar-se como candidato. O Obama, particularmente, seria pelo menos facilmente apresentado como candidato na maior parte dos paises europeus, incluindo Portugal, estou convencido. Já não diria o mesmo em relação aos paises de leste e balcãs…

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  29. Pois não, Pedro, nenhum país da Europa tem 20% de cidadãos negros. Mas, a maioria tem mais mulheres do que homens e olhe a dificuldade que uma mulher tem em se candidatar a seja o que for (em grande parte da Europa, pelo menos). Não me parece que a questão numérica seja um bom argumento. A não ser que parta do princípio que uma boa parte dos europeus brancos não votaria num negro, porque são… pois, racistas. Se assim for, então já partimos ambos de um pressuposto comum.

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  30. Carlos, eu falava de racismo, do problema da cor, que é o que aqui se tem falado desde o princípio, basicamente, e que era o tema do seu comentário a que eu respondi. Não falava das questões de género. Referia-me eu à sua comparação entre a Europa e os Estados Unidos e dizia eu que as duas realidades não se podem comparar, designadamente por questões de representatividade. E é claro que “uma boa parte dos europeus brancos não votaria num negro, porque são… pois, racistas.” É óbvio e nem eu nunca disse o contrário. Já coloco em dúvida a sua afirmação peremptória de que o Obama não teria qualquer hipótese sequer de se candidatar. Eu não teria tanta certeza, é tudo.

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  31. Mas se quiser falar em questões de género, é óbvio que é um escândalo que a maior parte da população, a feminina, esteja tão pouco representada no poder.

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  32. Pedro, o meu exemplo não visava entrar na análise das questões de género (embora ache a questão mais pertinente do que a da cor da pele, por exemplo, num país como Portugal). O único objectivo era demonstar que a representatividade não explica tudo. E, evidentemente, as minhas certezas valem o que valem e, salvo raras e importantes excepções, não são absolutas. Aliás, nos dias que correm, ainda existem certezas absolutas?

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  33. Para mim, a representatividade explica quase tudo, neste caso.

    “(embora ache a questão mais pertinente do que a da cor da pele, por exemplo, num país como Portugal)”

    A questão é exactamente essa, Carlos

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  34. Acho que não me exprimi/expliquei correctamente, Pedro.

    O que eu quis dizer foi que, para mim, em Portugal e na maioria dos países da Europa, as questões de género são mais pertinentes do que as questões relacionadas com a cor da pele. Mas eu não considero que haja uma obrigação de representatividade. Há estudos que indicam que para a maioria das mulheres o poder não é uma prioridade. Mas, ainda que fosse, será que tinham a possibilidade de o exercer? Eu não sou a favor de engenharias sociais (abomino as quotas); sou a favor, isso sim, de que querendo alguém chegar a uma determinada posição de poder nada mais seja tido em conta do que o mérito. Poe exemplo, interessa-me pouco que o país tenha poucas mulheres em cargos governativos, excepto se (e os requisitos são cumulativos):
    1. existirem mulheres com mais capacidade do que os homens que ocupam esses cargo;
    2. e (e isto é o fundamental) essas mulheres quiserem ocupar esse cargo.
    Assim, para mim não se coloca a questão da representatividade, porque preocupa-me mais a possibilidade de alguém poder ou não exercer um cargo do que a concretização dessa possibilidade, momento em que estamos perante a representação propriamente dita. “Mutatis mutandis”, aplico este argumento às questões raciais.

    E pronto, prometo ao Luís que não volto a ocupar o espaço dele para vender o meu peixe. Um abraço a todos.

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  35. Carlos, e as questões de género são mais pertinentes do que as de raça, exactamente porque?… Veja um exemplo limite: o que é que o choca mais: não haver pretos no governo do japão, ou não haver pretos no governo da Africa do Sul? Ou mesmo neste último caso, vai-me dizer que não é relevante o problema da representatividade?

    Tenho pena se já não vier aqui responder-me.

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  36. Lá estou eu a quebrar mais uma promessa (até já pareço o nosso coveiro-mor com nome de filósofo).

    Ora bem, Pedro, a ver se nos entendemos. As questões de género são mais pertinentes precisamente porque as mulheres são mais de metade da população europeia, enquanto os negros (e asiáticos) são uma pequena parcela (isto é um conceito relativo, mas acho que me entende). Evidentemente, não haver negros no Governo da África do Sul, quanto mais não fosse por razões históricas, chocar-me-ia mais do que não haver negros no Governo do Japão (o que não me choca, como não me chocaria que houvesse). Mas isso é algo superficial. O que eu pretendi foi explicar que, mais do que essa constatação, o importante seria saber as razões.

    Mas voltemos à problemática do género. Há algum tempo levantou-se o problema de não serem admitidas mulheres no Corpo de Fuzileiros da Marinha. Houve quem argumentasse que não fazia sentido admiti-las por uma questão de resistência física: as mulheres são fisicamente mais fracas do que os homens. Ora, isto é óbvio como regra: a maioria das mulheres tem menos massa muscular e mais massa adiposa do que os homens. Mas, isso não invalida que existam excepções. Há certamente mulheres que, por questões genéticas e por se dedicarem à prática de determinados desportos, são mais fortes do que a maioria dos homens. Então, porquê vedar-lhes o acesso? Mas isso não significa que eu queira (ou deixe de querer) ver mulheres nos Fuzileiros (a tal representação do género). Queroi apenas que elas tenham essa possibilidade. E isso não é uma questão de representação, é uma questão de igualdade de condições.

    Da mesma forma, e passando agora para a questão da representação racial, é-me indiferente que os EUA tenham um Presidente negro. Quero é que um negro tenha condições de se candidatar, caso assim o entenda. E, como se viu, isso não lhe foi vedado. Mas, neste país, eu continuo a achar que não seria possível. Até porque aqui o mérito é o que menos conta. Aliás, conta nada.

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  37. Carlos, começando pelo fim, no caso do Obama, o mérito é só uma pequena parte da equação da sua candidatura e eventual eleição. Não somos diferentes dos americanos nesse aspecto, não se martirize.

    Sobre o resto, não entendi bem o seu segundo parágrafo. Mas quase que aposto que de facto dá muito importância à representatividade, à “coisa “numérica”: o que o chocaria verdadeiramente no facto de a Africa do sul não ter um presidente negro é a tal coisinha dos numeros, não a razão histórica”, seja isso o que for.

    Sobre as mulheres, concordo consigo.

    Pedro

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  38. «O mérito é só uma pequena parte da equação da sua candidatura e eventual eleição.»
    Evidentemente, muitas variáveis entram na equação; o que define o problema será a proporção que cada uma assume. E eu não me martirizo, não se preocupe.

    «…não entendi bem o seu segundo parágrafo.»
    Porventura, fui eu que não me expliquei muito bem. Lamento.

    «… quase que aposto que de facto dá muito importância à representatividade…»
    Porventura, dou alguma. Mas, parece-me, os nossos conceitos de representatividade não coincidem.

    «Sobre as mulheres, concordo consigo.»
    Sempre concordamos em alguma coisa.

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