Quase ao lado.

Mário Soares tem mais inteligência política no dedo mindinho do pé esquerdo do que José Manuel Fernandes em toda a importante extensão da sua ociosa massa cinzenta. Ainda hoje, octogenário, trôpego e patareco, bastam a Soares duas ou três larachas para fazer mais pela Galp e por Portugal do que o director do Público fez em décadas de sonhos delirantes de esplendor neorepublicano.

Isto, e também as pequenas diferenças de análise quanto à guerra no Iraque, seriam suficientes para que uma pessoa normal agradecesse a agudeza que ainda resta ao nosso ex-presidente da república, lhe pedisse desculpas pelo incómodo e o deixasse em paz. Mas José Manuel Fernandes não é uma pessoa normal.

A inveja, o ressentimento e a má-fé fazem parte do caldo de cultura maoista em que se movem alguns dos nossos líderes de opinião. Para esta gente não interessa que um antigo chefe de Estado, cortando a eito por entre as neuroses dos ideólogos, negoceie com outro, democraticamente eleito, uma situação claramente vantajosa para o nosso país. Não: estas luminárias, que se estão a borrifar para os direitos humanos no Médio Oriente ou em Guantanamo, nunca deixam de encher a boca quando apontam tremulamente o dedinho a Cuba, ou a quem, defendendo o interesse nacional, aperta a mão a um primo da secretária de um amigo de Fidel Castro.

Que crime, segundo José Manuel Fernandes, cometeu Mário Soares? Parece que manifestou “encanto” por Hugo Chávez, e que se sentou ontem “quase ao lado do primeiro-ministro quando este o recebeu em São Bento”.

Quase ao lado. Nas fantochadas em forma de julgamento que acompanhavam as purgas estalinistas, não deviam faltar nunca, estes quase ao lado — nem os olhinhos esbugalhados, nem as vozes colocadas, nem os rostos lívidos desfigurados pelo ódio. Um quase ao lado que nos conduz muito longe: aos autos-da-fé, às masmorras da santa inquisição, às expulsões de árabes e de judeus.

Num mundo cheio de crápulas, muitos deles mortíferos e apoiados pelo Ocidente, José Manuel Fernandes escreve hoje no Público um editorial onde acusa Soares de se sentar quase ao lado de um presidente eleito sul-americano.

Já não há vergonha.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s