Wolf Hall. O veredicto.

Wolf Hall, de Hilary Mantel, venceu o Booker. Se eu fosse um blogger recomendável já teria despachado o calhamaço, que anda por aqui há um mês a apascentar ácaros. Assim posso asseverar que se trata de uma obra muitíssimo competente, para pousar cinzeiros e xícaras de café: tem sobrecapa lavável e ilustração anacrónica de inspiração floral, o que lhe confere certa dignidade de tabuleiro. Também seria um bom calço, se não viesse com 650 páginas — falha considerável do editor. Já li o Coetzee e a Byatt, na senda de uma tendência muito íntima para apostar em cavalos errados (com o devido respeito).
Vou ver o que posso fazer pelos leitores. Mas daqui a pouco estarei em França, onde só se admitem capas beije com alusões kinky. E a senhora Hilary Mantel, a crer na fotografia, nunca ganharia galardões literários abaixo de Calais. Falta-lhe, possivelmente, um je ne sais quoi.

Composição.

Há um momento em que o amante da fotografia tenta compreeder os princípios básicos da composição. Esse apetite louvável desagua num cataclismo de Temor e Tremor, à medida que as obras recomendadas por fotógrafos reputados nos manifestam a sua total indigência. Não conheço um livro de composição fotográfica que ultrapasse com mérito a regra dos terços, ou outras tolices do género.
Por outro lado noto que existem belos volumes sobre composição pictórica, os quais oferecem ensinamentos preciosos ao fotógrafo. Este Mastering Composition, de Ian Roberts, é um exemplo que me educou muitíssimo nos últimos dias.
Avis.

Avis mete nojo. As torres que se erguem na vila permanecem anónimas e inacessíveis. Em lado algum se faz menção à ordem militar que reconquistou parte do Sul e nos deu o primeiro monarca da segunda dinastia. O velho jardim público, sereno, repleto de sombras, foi substituido por uma armadura modernaça e reluzente a que só faltava fazer jogging e vestir Armani para aparecer nas revistas sociais com a noiva desamparada.
É aí que a juventude da terra, uma canalha pingona e cheia de ramela, coça os tomates, rouba beatas aos turistas e despeja vinho mau nos canteiros de cimento armado.
Os dois restaurantes decentes faliram. O clube náutico, provando o sentido comercial que inspira esta gente, recebeu o fim-de-semana prolongado com correntes e taipais. Apesar disso, a campanha eleitoral somou êxitos da Kátia Máriza, os panfletos atafulharam as ruas e junto à barragem houve uma concentração de putas com motards.
O que me magoa: Avis é um pardieiro que podia ser sublime, se não tivesse desprezado a sua história, destruído os seus jardins e transformado em papa a geração que a devia renovar. Tal como está, não sei se é uma coisa moderna ou medíocre. Sei que não tem memória, e que não vai a lado nenhum.
O que pensar.
Uma parte de mim concorda com o protesto do Henrique Raposo: o regime está podre, é preciso renová-lo, e tal. Mas depois de pensar melhor cheguei a esta conclusão: o que está podre não é o regime, é o PSD.
Todos os problemas de regime identificados nos últimos tempos (e são quase sempre identificados pela direita) resolviam-se com uma oposição decente do Partido Social-Democrata.
Não tenho muito tempo para formular este raciocínio, mas gostava de propor grosseiramente o seguinte: só podemos dizer que um regime está moribundo quando as instituições são incapazes de se renovar. E em democracia é vulgar que as instituições não se renovem porque os partidos políticos as bloqueiam. O ancilosamento institucional resulta do rigor mortis partidário.
O problema, para os defensores da tese do Henrique Raposo, é que os nossos partidos estão bem e recomendam-se. O CDS renasceu das cinzas. O Bloco cresce há 10 anos sem interrupção. O PCP gere com sabedoria a sua inevitável decadência. O PS não só sobreviveu como se reconstruiu após a devastação do caso Casa Pia, e tem agora uma liderança fortíssima com um projecto de poder impiedoso.
Autofagia, cacofonia, incompetência estratégica, bizantinismo — só mesmo o que nos chega do PSD. O regime não se renova porque o PSD não deixa. Não temos oposição a sério porque o maior partido da oposição não funciona. Não temos alternativas de Governo, porque o PSD não consegue ter uma ponta de credibilidade.
É só este o problema: não é o género humano, é o Manuel Germano.
O que o Presidente devia ter dito.
Portugueses,
A Presidência da República é frequentemente invocada, citada e criticada pelos actores políticos, muitas vezes sem razão, durante os períodos de campanha eleitoral. Essas ocorrências, que não nos orgulham, fazem parte da vida democrática.
Não cabe ao Presidente comentar comentadores ou responder a notícias de jornais.
Recentemente, no entanto, a Presidência da República foi associada a um facto de especial gravidade que, se não fosse por mim desmentido, poderia pôr em risco o regular funcionamento das instituições democráticas. Esse facto, esse rumor propalado por notícias falsas, pretende sugerir que o Presidente receia ou receou ser alvo de escutas comandadas por um outro órgão de soberania.
Quero desmentir veementemente esse rumor e essas notícias.
Durante a campanha eleitoral considerei que o assunto, por ser delicado, merecia uma intervenção discreta — e nesse sentido procedi a uma reorganização da minha Casa Civil. O efeito desejado, infelizmente, não ocorreu: as notícias falsas não acabaram, e o nome do Presidente continuou a ser associado, de forma injusta, a uma pretensa intervenção na disputa partidária que então decorria.
Quero por isso deixar bem claro o seguinte:
O Presidente nunca afirmou que era alvo de escutas, nem alguma vez manifestou preocupação semelhante.
Quem quer que tenha dado essa notícia aos meios de comunicação social, se é que a notícia foi dada, não falava em nome do Presidente.
Só o Presidente, ou os chefes da Casa Civil e da Casa Militar do Presidente, falam em nome da Presidência da República. Mais ninguém está autorizado a fazê-lo. Repito: ninguém.
Rejeito por isso qualquer insinuação de que a Presidência tenha inspirado, patrocinado ou tolerado as notícias e os rumores que referi.
O país atravessa tempos difíceis. São pesadas e inúmeras as responsabilidades que recaem sobre o Presidente da República. Não fugirei delas.
Cabe-me assegurar que existe, entre os órgãos de soberania, uma relação de respeito, lealdade institucional e dedicação à causa pública. E pretendo ser o primeiro a dar o exemplo nesse sentido.
Os Portugueses sabem que podem contar comigo: não para insuflar crises artificiais, mas para ajudar a resolver os graves problemas que enfrentam todos os dias.
Não para alimentar guerrilhas institucionais, mas para valorizar e engrandecer as nossas instituições.
Essa é a missão do Presidente. E esse é o meu desejo profundo, que achei necessário sublinhar perante todos.
Boa noite.
(Publicado também aqui)
Queres alianças, Paulinho?

Dois dias depois das legislativas, o Departamento Central de Investigação e Acção Central fez buscas em quatro escritórios dos advogados presumivelmente envolvidos na compra de submarinos quando Paulo Portas era ministro da Defesa.
Eis uma infeliz coincidência que, com alguma sorte, talvez se transforme num auspicioso incentivo ao diálogo com o partido da maioria.
“Os nossos erros.”
Esta é a parte do texto do Pedro Picoito que me agrada mais:
(…) Como explicou Luís M. Jorge num post premonitório (…)
Mas o resto da análise também vale muito a pena.
Em conclusão.
Os leitores já perceberam que avaliámos com brilho e sabedoria, ao arrepio de vozes poderosas, as tendências comprovadas por estes resultados eleitorais. Para os que não beberam as nossas excelentes conjecturas com a veneração devida, aqui fica o lembrete. Mas não nos detenhamos a celebrar o mérito da vasta equipa que trouxe até si o melhor da análise política nas páginas do blog que tenho a honra de dirigir. Houve outros vencedores nesta noite memorável.
Nos partidos: ganham Paulo Portas, Sócrates e Louçã. Por esta ordem.
Nos órgãos se soberania: ganha o Governo e a Assembleia da República, perdem o Presidente e os tribunais.
Nos media: ganha o Correio da Manhã, perdem a TVI, o Público e o Diário de Notícias.
Nas empresas: ganha a Mota-Engil.
Na blogosfera convém-nos distinguir entre a influência política e a credibilidade:
Como projectos de poder ganham o Câmara Corporativa e o Jugular, que elegeu dois deputados. Perdem o Cachimbo de Magritte e o Abrupto.
Em credibilidade distinguiram-se Medeiros Ferreira, Francisco José Viegas, Pedro Picoito e Eduardo Pitta, exemplos de inteligência, estilo e boa educação. Perdeu Fernanda Câncio, a prova de que o poder, se nem sempre corrompe, torna os seres humanos malcriados.
Totoloto.
Abri a janela, pus um dedinho lá fora, avaliei a temperatura, a humidade e a pressão atmosférica e obtive cientificamente esta previsão de resultados para as eleições que hoje decorrem:
PS – 41%
PSD- 29%
BE – 9%
CDS/PP – 8%
CDU – 7.5%
OBN – 5.5%
São cinco da tarde. Vamos lá ver se ganho a batedeira ou a viagem a Cancun e Varadero.
A padeira de Penafiel.
A dona Lúzia Rocha encontrou uma mala com nove mil euros na rua, à porta da sua casa. Com uma lógica inatacável mandou chamar a brigada de minas e armadilhas, que esteve quase a fazer explodir o atafulhado invólucro por deformação profissional. Finalmente lá encontraram o proprietário, organizador de bodas e saraus dançantes na região. A dona Lúzia é agora uma heroína nos pasquins nortenhos e nem sequer lamenta a ingratidão do homem que abarbatou as notas sem a recompensar.
Não faça caso, minha senhora: o país aguarda-a com antecipação. Venha para a política. Forme um novo partido. Honesta como é, não ganhará dinheiro — mas vai conhecer Lisboa, comer pãozinho de forma com oito cereais, e se calhar, quem sabe, ainda conquista uma maioria estável para governar o mistifório durante quatro anos e outros tantos meses. Deus queira.
Deus queira.
(Publicado também aqui.)
Entretanto, em Leiria.

- Senhora Dona Manuela, onde ides a desoras?
- Hã…hum… Ora, Senhor Dom José, ia apenas passear no horto dos simples. Aqui asfixia-se, nos aposentos reais.
- Ah, lá estais vós com a asfixia monárquica. Não me agrada que passeis tanto tempo entre os simples. O que levais no regaço?
- Reg… qual reg…
- Aí, nessa dobra dos vossos paramentos. (Desconfiado) Ides outra vez distribuir benefícios aos piquenos e médios mesteres?
- Benef… Cóf, cóf… Ora… Ah Ah Ah! Claro que não, meu bom dom José. Que ideia!
- Não transportais por acaso tenças, liberalidades, perdões?
- (Lívida) Não, não, de modo algum. Sou poupadinha.
- Mostrai-me o que me escondeis…
- Mas, Dom…
- Não resistais. Ainda sou o vosso senhor.
- O meu senhor é o da Galileia…
- Mas esse está lá longe, acoitado em Belém. Vamos, revelai-vos ou ides passear para o pinhal.
- (Implorando aos céus) Ajuda-me, Presidente do Conselho! (Lentamente, deixa cair a aba do saio)
- Ãã… O que é isso?
- Ãã… Não sei.
- Como não sabeis?
- Ãã… Ah, afinal já sei! Isto, meu senhor Dom José, são ex-votos!
- Ex-votos?
- Sim: ex-votos de Lisboa!
- Oh, Santinha. Como pude duvidar da vossa lendária virtude? Vinde a meus braços.
Ela revira os olhos para o altíssimo e profere, num sussurro exangue:
- Obrigado, Salazar…
(Publicado também aqui)

Mais interessante do que a fonte do Público será a descoberta da fonte do DN. Suponho que não vamos esperar para sempre.
Ao centro, o deserto.
Quer queiramos, quer não, os partidários do Bloco e do PCP são os únicos a quem resta autoridade moral para escalpelizar o caso das escutas (não, o Paulinho das fotocópias não a tem). Ontem, jerónimo de Sousa pediu, com bons motivos, que o SIS não estivesse da dependência do Governo. Entretanto, Daniel Oliveira escreveu este post:
Num país normal, claro que sim. Não deixa de ser revelador que sejam os apoiantes de partidos com origens revolucionárias a defender a dignidade das nossas instituições democráticas. O motivo é simples: não há mais ninguém.
Entretanto, em Palermo.
- Giggio, vene qui.
- Si, Dom Giuseppe.
- Questo problema de Mora Guedi, stai tratati?
- Si, Dom Giuseppe. No é ancora um problema.
- Bene, bene. E anche…
- Si, Dom Giuseppe…
- …Questo altro problema de Giuseppe Manueli Fernanddi. Come vai?
- Stai tratati, Dom Giuseppi. Anche essi Fernandi no é ancora um problema.
- Bene, bene, Giggio. E Dom Cavaquio Silvio? Anchora vivo?
- No, Dom Giuseppi.
_ Bene, bene Giggio. I ai parlato com aquelo catzo, quelo Francesco Louçati, del Bloqui Sinistro?
- Si, Dom Giuseppi. Ai parlato co el.
- E cosa ché?
- Gli ai feto una propostia irrecusabile, Dom Giuseppi.
- No vuollo sapere. Esso es tuo problemi, Giggio…
- Si, Dom Giuseppe.
- E que ha dito esse Francesco? Ai aceptato nostra generosia proposta irrecusabile?
- Si, Dom Giuseppe.
- Bravo, Giggio. Sei un buono ragazzo.
- Grazzie, Dom Giuseppe.
(Publicado também aqui).
Ajudar Portugal.
Também eu gostaria que Cavaco Silva desse explicações mais detalhadas sobre o caso das escutas em Belém. Por isso, com o intuito de ajudar o senhor Presidente da República neste momento difícil, e satisfazer os ansiosos que aqui, na blogosfera, lhe suplicam para abrir a boca, tomei a liberdade de escolher um guião adequado ao seu alto magistério:
Isto serve, não serve?
Paulinho das feiras.
Porque lhes quebrámos as estátuas
porque os expulsámos dos seus templos,
não morreram, não, os deuses.
A ti, terra da Jónia, ainda eles amam,
e em suas almas sempre te recordam.
Quando a manhã de Agosto é alvorada em ti,
passa em teu ar um ardor dos deuses vivos;
e às vezes uma etérea forma juvenil,
indefinida, em trânsito subtil,
teus montes sobrevoa.
Constantino Cavafy
trad. de Jorge de Sena
Sim, a justiça está ausente da campanha eleitoral. Mas, sejamos práticos, qual dos nossos grandes partidos ganharia alguma coisa com tribunais eficientes?
Deus ex machina.
Parece que António Preto e Helena Lopes da Costa foram coniventes com a compra de votos de militantes pobres durante as disputas internas pela distrital de Lisboa do PSD. O caso seria grave, se não tivesse vindo parar aos meios no segundo dia da campanha eleitoral. Quando uma notícia surge com tanto sentido de oportunidade, o observador inocente pergunta a si próprio se é fruto do trabalho honesto ou do desespero. Um cínico talvez conclua que esta será uma boa semana para o Bloco de Esquerda.
Ruy.
Hermann Broch escreveu que os poetas são intermediários do adeus. Ruy Belo tomou a sério esse axioma em alemão. Já não me surpreendem as suas aparições na blogosfera, nas rádios, nos jantares. As velhas glórias enterradas nos Prazeres, o Namora, o Virgílio, o Ribeiro, os poetastros da Presença, os castiços da Seara Nova, os bocejos do Novo Cancioneiro, o Redol, o Soeiro, o Fonseca, essa gente com rótula no panteão, tíbia na basílica e o vácuo alívio de um cenotáfio bacoco — todos, misericordiosamente, em carcaça. Mas Ruy Belo ainda me salva de um ou outro dia, anos depois.
Muita gente me tem falado a meu respeito
como quem me chamasse pelo nome e eu me voltasse
e nesse nome dito nessa boca fosse toda a minha vida
e eu morresse quando entre pinhais quem me chamara a fechasseMuita gente me tem falado a meu respeito
mas eu cresço e decresço não reparo e anoitece
e já nem sei ao certo quantos dias meço
Regresso com o gado contra o sol rasante
Mas é de névoa ou fumo o algodão que cobre as casas
aonde regressamos atraídos pela luz que já nos campos se consome?Os ciprestes os pássaros saúdam-me e eu passo
com um olho vasado transpareço o meu passado
e tudo esqueço e peço mesmo a Deus que esqueça quanto sou
além dessa medida simples onde me vasou
Sabermos nós que a face de algum mar ao pôr-do-sol pode mudar
e nenhum dia-a-dia consentir ao homem mais que a morna superfície
dos gestos por que troca a mais íntima morte que mereceNada na minha poesia é meu
juro por Deus dizer toda a verdade
Ponho a mão na cabeça o dia é escuro e vago e eu respiro
Espero pela manhã como quem nasce
Ninguém sabe o meu nome porque
eu já perdi ao longe alguns dos olhos
e fui feliz em cafés de província onde me vi sentarDigam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto nem
na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algumÉ de manhã caminho nem meus passos oiço
oitenta passos diz-se que darei
Vão-se fechando os dois alinhamentos das moradas
arredonda-se o largo, alguns problemas camarários
Duvido de mim próprio: quem serei?
O carro rega coisas tão profundas como esta
Meu Deus meu Deus, que mal eu fiz?
Eu estive em Dinard e vou talvez casar
Acordo e transistorizo os dois ouvidos numa música abundanteMuita gente me tem falado a meu respeito
mas eu cresço e minguo certas vezes anoitece
Sou coisa que se molha encolhe e envelhece
tudo me aquece e tudo me arrefece
Dois pés e duas mãos, algumas pás de terra
E sabem mesmo que o meu nome é Rá, por isso me conhecem
Sou a doença e sou onde me dói
sou sítio onde se nega que se morre
Tem graça haver quem fale a meu respeito
Somos todos maquiavélicos (4).
1.
Regresso à comunicação comercial: o grande trabalho de uma marca é escutar criticamente, em permanência, os consumidores.
Os nossos partidos políticos não escutam os eleitores, por isso perdem.
2.
O segundo trabalho de uma marca é apontar um caminho, através dos seus produtos. Veja-se o caso da Apple, como a marca nos surpreende, como nos revela um futuro que não imaginávamos antes de existir.
Os partidos portugueses não apontam caminhos, por isso perdem.
3.
O terceiro trabalho de uma marca é comunicar o seu caminho de um modo sintético e emocional.
Todos os esforços dos partidos portugueses se concentram neste trabalho, ignorando os anteriores — por isso perdem.
4.
Eu sei que esta sequência de posts é um pouco abusiva, mas ajuda-me a pensar.
Somos todos maquiavélicos (3).
De acordo com o raciocínio anterior:
Paulo Portas, que muda de discurso em todas as campanhas, nunca ultrapassará os oito por cento.
Sócrates, que virou à esquerda em apenas um ano, não será recompensado.
Manuela Ferreira Leita pode ter sucesso porque simboliza um retorno à linha de comunicação iniciada há mais de uma década por Cavaco Silva.
Louçã colherá os frutos da sua coerência.
Só há um problema nesta reflexão: o PCP teria a maioria absoluta. Ou não?
Somos todos maquiavélicos (2).
No que respeita à comunicação comercial, o assunto está bem estudado: o sucesso atinge-se com uma combinação de tempo e coerência. Levamos vinte anos a construir uma marca, e isso só é possível se evitarmos a dispersão. Um teórico comparou a gestão estratégica das marcas à condução de um cargueiro: primeiro viramos o leme, e depois ficamos à espera. À espera. À espera. Até que o barco obedece.
Ou seja, a manipulação das emoções funciona, mas é lenta, delicada, e não admite contradições internas (ninguém pode ir virando o leme por impaciência, por tentativa e erro, por desespero).
A qualidade intrínseca do produto tem alguma importância para o seu sucesso? Nem sempre. Mas esse é outro problema.
Somos todos maquiavélicos.

Estimativas de resultados eleitorais. Uma série de dúvidas:
Suponho que o mau desempenho de Manuela Ferreira Leite nos debates não alterará muito a intenção de voto dos seus eleitores. Isso quer dizer que há um cansaço retórico (e a retórica, aqui, seria protagonizada por Sócrates) na democracia portuguesa?
Ou trata-se, antes, de um outro tipo de retórica: o homem (neste caso a mulher) de poucas palavras, insuflado de gravitas, que não perde tempo com discursatas nem com gráficos em powerpoint? Neste caso, Manuela teria um bom desempenho.
Ou será que há mesmo uma consciência política das alternativas estratégicas por parte do eleitorado, um instinto profundo que o leva a ir ao osso dos discursos e a desprezar pormenores? De acordo com esta hipótese, os debates seriam muito menos importantes do que se julga.
Somos profissionais de comunicação, mas ficamos sempre pela rama destas coisas. Talvez não saibamos ouvir.
Bucólicas.

Não é o Lake District, mas eu também não sou o Coleridge.
Deve ser isto o tal coito interrompido: passei o fim-de-semana numa caverna das berças acorrentado a um presunto serrano, a beber vinho mau e a fotografar ciganada (ou, para os meus leitores de esquerda moderna, as etnias minoritárias) — aí pude ler a bloga, mas não tive acesso ao blog. Nem os ares do campo nem o iPhone são tão vivificantes como esperava. Reduzido a uma condição extrema de debilidade intelectual, só tenho forças para recomendar alguns amigos que aqui, na civilização, pensavam por mim:
O Filipe deu esta belíssima réplica a um dos simplexes menos sobredotados. O Francisco José Viegas não perde uma novela. O Eduardo Pitta alertou-nos para as milícias islâmicas anti-homossexuais (um título digno de Tarantino, uma história digna de Alan Resnais). O Miguel Pires fez uma ode às pirâmides de Rio Maior. O Daniel Oliveira segue outra novela longe do clímax. O José Mário silva divulgou a shortlist do Booker Prize (tenho três, só li um: a recensão — um termo desmesurado — chegará quando recuperar a minha dignidade). Entretanto, o Lourenço descobriu toda a verdade a respeito da jovem mandatária socialista — mais um desconsolo para a Sofia Loureiro dos Santos.
Fora daqui:

O fotógrafo Willy Ronis morreu aos 99 anos (em cima, Le Nu Provençal). Outro fotógrafo, David Burnett, fez publicar um livro com imagens fascinantes da revolução iraniana (cliquem na Feature Gallery, do lado direito). E Dona Ferrato captura cenas clássicas de Tribeca, Nova Iorque.
De acordo com o Global Competitiveness Report 2009-2010 é o 9º país do mundo em qualidade das vias de comunicação rodoviárias, 23º nas vias de comunicação ferroviárias, 45º na qualidade dos portos e 49º na qualidade das infraestruturas aeroportuárias. Portugal é também 83º no défice das contas públicas e 113º em poupança nacional e 117º em dívida pública. Qual destes factores é que Portugal deve tentar melhorar para melhorar a sua competitividade?
Até agora.
A doce irresponsabilidade da blogosfera permite-nos debitar prognósticos antes do fim do jogo. Aqui ficam os meus:
O PS conseguiu reposicionar-se como um partido de centro-esquerda (há um ano era de centro-direita). Esvaziou o Bloco das suas causas e carregou nas tintas da protecção social. Sócrates sobrevive a tudo: ao Freeport, aos contentores de Alcântara, ao ódio da administração pública e ao desvelo dos administradores da Prisa. Com Cavaco Silva apardalado (as escutas em Belém deixarão marcas), o primeiro-ministro arrisca-se a que ainda o confundam com um pilar do regime. Quanto às eleições: ganhas, evidentemente. Podemos esconder as carteiras.
O PSD não é um partido, é uma associação recreativa. Nunca uma boa promessa (a política de verdade) se transtornou tão velozmente em ópera bufa. Manuela Ferreira Leite leva um vigarista de bairro com o bracinho ao peito para a assembleia da república, mete Santana num espectáculo de robertos e vai bater palminhas ao Bokassa dos ananases. Ao redor da líder, afiam-se os cutelos. O cangalheiro tira notas. Os últimos apoiantes buscam sem glória alguma coisa que faça sentido. O pano cai no fim do mês.
Paulo Portas refina-se, como um vício antigo. A sua campanha é amoral mas eficiente: ninguém perde votos por apelar aos instintos assassinos do populacho. Vai ter nome de rua (em Ponte de Lima), e uma ala no museu da marinha.
Louçã é um daqueles líderes partidários que, quando ganham debates, perdem eleitores. Truncando a boutade de Wilde, podiamos dizer que tem amigos mas nenhum gosta dele. A campanha do Bloco foi medíocre, o entusiasmo escasso, o futuro é incerto. Suponho que sobe, mas não sei para onde.
Quanto ao PCP: quem quer saber do PCP?
Os que apontam o dedinho.
Jaime Gama, Madeira, Março de 2008:
José Sócrates, Luanda, Julho de 2008:
Ainda hei-de ver o deputado Vale de Almeida abraçado ao soba do Funchal.
Sócrates Vs. Louçã.
Sócrates venceu — conduziu a disputa, abalroando a moderadora, e transformou Louçã numa caricatura gaga e atarantada do verboso herói bolchevique exilado na Riviera Maya. O velho Trotsky não ficaria contente, pois não. Sócas é agora um homem de esquerda, enquanto o cérebro de Louçã borbulha com projectos doidos para condenar as famílias do Rebordelo e de Miranda do Corvo a uma indigência maltrapilha. A filharada vai parar à cave no dia das eleições, antes que se ponha com ideias.
Para o primeiro-ministro, foi um passeio no parque. O Mário Crespo não está com boa cara.







