A defesa do primeiro-ministro está agora reduzida a um só argumento: as formalidades do Direito devem protegê-lo do escrutínio dos cidadãos. Este tema foi ontem desenvolvido em dois posts, de João Pinto e Castro e Isabel Moreira.
O primeiro sujeita Kant a tratos de polé e desemboca numa inesperada tontaria a sugerir que somos herdeiros de Hitler e Estaline. Há respostas à altura do doutoral desabafo (embora mais educadas) neste e neste blog, cuja leitura se recomenda.
O post de Isabel Moreira seria respeitável se fosse honesto, mas não é. A autora assume uns ares de rigor científico enquanto proclama a impunidade do primeiro-ministro: acho de gargalhada a ideia de sócrates ter tentado fazer o que se diz que tentou fazer, escreve a certa altura.
No seu texto explica-nos que quando defende valores como o respeito pela lei, pela privacidade, pela intimidade de cada um, está também a defender todos nós, esta coisa que se chama a cidade e a democracia, pois, acredita ela, não há liberdade sem lei.
A seguir, no entanto, estraga tudo ao lamentar que não se possa fazer nada quando fica demonstrado que Belém tem uma tramóia montada contra o Governo.
Eis o problema do post, leitores: a tramóia da presidência que ela refere só ficou demonstrada pela divulgação de e-mails privados no jornal em que a Isabel Moreira publica os seus textos de opinião. E quando o assunto foi discutido, a autora não invocou valores, como o respeito pela lei, a privacidade ou a intimidade de cada um para proteger a pólis, a democracia nem os cidadãos.
Não o fez antes, e não o faz agora. Ao invocar o caso Fernando Lima, uma tramóia que segundo os seus altos critérios devia ignorar, Isabel Moreira revela-nos os limites da sua doutrina e, muito pior, da sua boa-fé.