vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Fevereiro, 2012

De antologia (2).

Da matéria oxigenada em que imergem os blogs raramente sai alguma vida. Qualquer sobredotado é um ideólogo e imensas senhoras transformam as suas secreções num grande amor. Depois há o vício lusitano da sentença, que alimenta os florilégios dos indignados, o frissonzinho da estatística e da escolástica, a tentação irresistível da chalaça. O que falta, quase sempre, é realidade. Ninguém anda de metro, ninguém é despedido, ninguém chega sem dinheiro ao fim do mês. Os dias da semana passam-se a ler e os sábados a viajar pelo Alentejo (sim, os meus também).

Por isso gostei tanto deste texto da Isabel Lucas, em que a autora quase pede desculpa por fazer aquilo que nos compete: falar do que vemos na rua sem o bullshit arrebicado do costume.

Camilos.

Entre as luminárias do regime resplandecem os espíritos sempre airosos dos Camilos Lourenços. Enquanto outros encontram dificuldades, os Camilos revelam-nos em palavras simples os bons princípios da nossa salvação. Há dividas? Paguem-se. Há despesas? Cortem-se. Há défices? Ide buscar o cilício e mortificai-vos. Há desemprego? Emigrem. Há pobres? Trabalhem. Há fome? Comam brioches. Há mulheres que tentam vender os filhos nos subúrbios? Pois que baixem o preço dos mais pequenitos, a quem faltam vantagens competitivas. Há suicídios, mortes por inanição? Eis um modo elegante de reduzir as transferências sociais. Há velhos sem medicamentos? Um sério aviso para os jovens que não aderiram à Médis. Há ordenados muito baixos nas empresas? Extingam-se. Há ordenados muito altos na EDP? São as leis do mercado, nada a fazer.

O mundo dos Camilos obedece a valores testados em séculos de miséria abjecta e desespero universal. Antigamente eram feitores e capatazes, hoje são jornalistas e lideres de opinião. Os Camilos Lourenços dão imenso jeito. Todos os ricos deviam ter um.

Mucho trabalho. Regresso quando puder. (E já agora: eu nem disso posso falar).

Contas à parlamentar.

O importante não é o assunto, é o método. Se fazem assim com a água, imaginem com o défice, com as PPP, com os investimentos públicos e com o Orçamento de Estado. Nem vale a pena esmiuçar a aritmética, já percebemos todos.