vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Outubro, 2011

Sem filtros.

A blogosfera em peso rasgou as vestes quando leu estas declarações do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto. Num país em que a palavra juventude serve de eufemismo a uma casta de adultos indolentes e primadonas agastadas da classe média urbana, e em que por desporto se toma o futebol — prática criminosa só debelável com a interdição — qualquer laracha que o burocrata responsável pelos dois buracos negros proferisse ao microfone teria potencial incendiário. Ainda por cima se fosse verdade.

E o que disse o homem? Que os nossos inúteis, se não encontrarem trabalho cá dentro, devem procurá-lo lá fora. Isto, na economia do euro, é uma lapalissada rudimentar, mas causou as apoplexias do costume.

E o que acrescentou o homem? Que depois de conhecerem as boas práticas dos países de destino poderão voltar à origem e realizar os seus projectos com outra segurança. Tem algum mal? Não tem. É o bê-á-bá da autonomia que uma sociedade civilizada deve exigir a maiores de dezoito anos.

Infelizmente, os nossos jovens ainda querem esta merda:

Tretas, corrupção e muita mama. E a mama, por agora, acabou.

Austeridade (1).

Foi o pior dos tempos, foram tempos do pior. Numa rua calma, o engenheiro Armando erguia uma beata da borda de um canteiro quando se deixou sobressaltar pela voz do Albertino, velho camarada do Técnico.

- Ainda fumas, pá?
- Não, Albertinho — é esta canalha que enche as ruas de lixo…

Com certo pesar deitou fora o cigarro e anuiu ao convite do amigo para tomar uma bica na esplanada da Mexicana. Maldisseram o Governo, o estado social, as elites muito reles e o populacho acabrunhado.

- E o que podíamos ser com este sol e este mar, Armando: Londres, Berlim, Nova Iorque!

Ficaram em silêncio, a pensar em Nova Iorque.

- Nunca vi gajas tão boas, Albertinho…

Quando chegou a conta — dois euros e quarenta—  puseram as mãos nos bolsos com gestos imperiosos.

- Deixa estar.
- Não, eu é que convidei.

Mas um conjunto de circunstâncias explicava que, tendo um deles saído à pressa, sem carteira, e o outro posto roupa de Outono por causa da manhã enevoada, não reunissem entre ambos mais de setenta e cinco cêntimos.

Armando foi ao multibanco. Pouco depois, Albertino desertou.

Borda d’Água.

Chegando o frio, vá jantar ao Cantinho de São Pedro, leia autores vitorianos (brevemente nas fichas de leitura) e reserve um fim de semana na pousada de Santa Maria do Marvão. Agora a partir de 65 euros por noite, senhor funcionário público.

Ficha de leitura: “A Visit from the Goon Squad”, Jennifer Egan.

Noventa anos depois, a autora aplica a descontinuidade proustiana a um mundo sem aristocratas. Mas enquanto um escritor menor nos serviria a receita com maneirismos de virtuoso, como um esqueleto demasiado visível, Egan utiliza as histórias desta gente que desaparece e reaparece quando lhe dá na telha para ilustrar as dores de crescimento de uma geração. Ou seja: o livro, com as suas narrativas cruzadas, o seu desprezo pela cronologia, só funciona porque é também, clandestinamente, uma obra moral. Eu sei, estão fora de moda, mas não deixa de intrigar-me que as recensões tenham ignorado este aspecto.

Obra extraordinária, refrescantemente despojada de qualquer afectação, A Visit ganhou o Pulitzer Prize for Fiction e o National Book Critics Circle Award de 2011 — uma honra para os jurados americanos, os últimos que ainda gostam de ler. Se Jonathan Franzen tivesse um cérebro, talvez escrevesse assim.