vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Setembro, 2011

Coisinhas boas.

As autoras do Jugular estão estarrecidas com a dívida madeirense. Parece que os benefícios do investimento público não se verificam nas regiões autónomas.

Ficha de leitura: “The Real Life of Sebastien Knight”, Vladimir Nabokov.

Em alguns livros de Vladimir Nabokov o plot parece subvertido pela exigência estilística até se assemelhar a uma ausência de plot; mas os livros são muito construidos só que obedecem a regras internas laboriosamente criadas pelo autor e castigam a nossa distracção. Veja-se o que ocorreu com The Vane Sisters, um conto recusado pela New Yorker até Nabokov se dignar a explicar em carta ao editor a extraordinária trouvaille do último parágrafo.

À primeira vista A Verdadeira Vida de Sebastien Knight é uma incursão jamesiana nas parábolas da ambição literária: um homem tenta biografar o irmão — escritor recentemente morto — enquanto esposteja o trabalho já publicado por um manga-de-alpaca. Depois a missão transforma-se em mania, a escrita complica-se, adquire matizes fársicos, e por fim compreendemos que o narrador, provavelmente louco, se confunde com o defunto que pretende revelar-nos.

A obra está repleta de citações de Knight em puro nonsense, retiradas de livros como The Prismatic Bezel, The Doubtful Asphodel ou Albinos in Black. Nabokov enfrenta pelos cornos o embaraço técnico a que Bolaño, por exemplo, se escapuliu em 2666: como é que criamos os textos de um grande escritor antes de o colocarmos num livro em que este é protagonista? Geralmente não criamos. Ele é Grande, como a natureza é bela ou Deus é ubíquo e isso deve bastar-nos. Mas Nabokov nunca recua perante as dificuldades e resolve a questão através de um narrador absolutamente inconfiável.

Na sua Verdadeira Vida, Knight é uma personagem quase ausente porque o livro, no fundo, não lhe diz respeito.

Peixe na água.

Está assim o melhor blogger da temporada:

O Conselho de Prevenção da Corrupção, presidido por Guilherme Oliveira Martins, veio ontem alertar para os riscos que o actual processo acelerado de privatizações pode acarretar. Recomenda a existência de um plano de prevenção de riscos para cada empresa a privatizar, e a criação de comissões de acompanhamento para cada processo de privatização. Não me admiraria que fosse aí que o governo começasse a cortar nas despesas…

Fica o aviso.

O cratês.

Talvez esta seja uma boa altura para recordarmos a Nuno Crato que ele não foi nomeado para contestar os relatórios da OCDE sobre a educação em Portugal, mas sim para ultrapassar o desempenho do Governo anterior nas matérias da sua responsabilidade. As instituições internacionais lá estarão para o avaliarem. Escrevo isto porque me aborreceria muito assistir ao regresso desta conversa de chacha em 2012. Como explica Medeiros Ferreira, o ministro deve esforçar-se mais.

Do André Macedo.

Para aqueles portugueses que não querem pagar as dívidas da Madeira mas se queixam muito da falta de solidariedade alemã.

Curiosidade.

Depois das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa e das Sete Maravilhas da Gastronomia, para quando as Sete Maravilhas da Literatura, reconhecendo os escritores que transportam as nossas palavras para além da Taprobana? Não é todos os dias que temos o privilégio de escolher entre os lusíadas de Camões e os lusíadas do Gonçalo Tavares, ou de integrar o Equador e o Codex 632 no cânone do Ocidente. Além disso, o Malato gosta muito de ler.

Ficha de leitura: “The Fox”, D. H. Lawrence.

The Fox é um conto longo ou uma novela pequena de 85 páginas. A introdução da Doris Lessing que vem no princípio do meu volume encontra-se aqui. O texto integral da obra, acabo de descobrir, também está disponível online.

Um enredo muito simples, cheio de reverberações. A raposa (no masculino em inglês) que assalta a quinta de duas mulheres é abatida por um rapaz que regressa da guerra e aí toma o seu lugar como predador. Ele conquista uma das amigas e enfrenta a outra, que acaba por matar numa espécie de acidente domestico.

Doris Lessing pergunta se as duas mulheres serão lésbicas, o que me angustia pouco. Prefiro pensar que a ambiguidade da relação entre ambas tem uma função importante na narrativa, que é a de contrastar com a extrema deliberação e propósito do jovem. Para usar uma metáfora fotográfica é como se Lawrence tivesse construído a sua história com uma objectiva aberta, de modo a recortar o que lhe interessa deixando tudo o resto entregue ao bokeh.

Esta estratégia confere grande elegância à execução e permite até que o uso simbólico da raposa seja muito franco, pois é compensado pelas sensações indefiníveis do leitor. The Fox tem algo de subtil e oriental, o que me surpreende em D. H. Lawrence.

Um congresso estimulante.

Tó Zzzzé Seguro apresenta o seu projecto para a Europa.

Ficha de leitura: “The Blind Assassin”, Margaret Atwood.

Não é que Atwood escreva como quem descasca batatas: há alguma verve, um brilho pontual, mas nunca chega para tornar o livro menos soporífero. Em quinhentas e vinte páginas que parecem mil a autora revela-nos a tragédia de duas irmãs e a história de um romance dentro do romance cuja mecânica se explica aqui.

A construção é inteligente, mas apenas porque o princípio é um pouco estúpido: Atwood quer que o leitor se interesse por uma protagonista passiva e sensaborona que só ergue o rabo da cadeira nos últimos capítulos. Até lá entretém-nos com uma profusão de fogos de artifício e coelhos na cartola que devem fazer as delícias dos maus professores de escrita criativa: recortes de jornal, crónicas do planeta Zycron, enredos enfiados em enredos, etc.

Como a personagem principal é uma sonsa todas as outras são extraordinariamente coloridas, mas tão planas como um pasto na Holanda. Não falta o tycoon sem escrúpulos, a irmã socialite, a criadagem fiel e com maus modos, o amante comunista varonil.

A artilharia pesada chega, como sempre, ao segundo toque: um caso doloroso de abuso sexual, uma reacção que muda tudo talvez por desenfado, uns papéis que trocam de mãos e castigam os vilões.

Nem a história da família ou a evocação dos anos trinta valem um caracol: o cruzeiro no Queen Mary parece uma romaria ao Fogueteiro.

O mono ensinou-me alguma coisa? Duas ou três técnicas para manter o leitor acordado enquanto o plot desacelera. Mas o que nos ajuda em cinquenta ou sessenta páginas pode matar um livro quando não há mais nada a fazer. Por não ter percebido isso, ignorance is bliss,  Atwood recebeu um Booker com o calhamaço.

O brainstorm.

Hoje conhecemos bem as circunstâncias em que foi codificada a Solução Final na Conferência de Wannsee. A reconstituição do planeamento do 11 de Setembro, a cargo Khalid Sheikh Mohammed, não seria menos interessante. Impressiona o contraste entre a singeleza da ideia e a complexidade da execução.

A imagem é do grande James Nachtway. Comparem com o que fez por exemplo Steve McCurry a uma distância segura.  Fotógrafo de guerra é outra loiça.

Too late?

O Tiago Mota Saraiva queixa-se do muro de silêncio que este ano se ergueu nos jornais para desdenhar a Festa do Avante. Ora, caros camaradas, é nestas alturas que dá imenso jeito ter por perto um profissional da comunicação como o António Figueira. Por que não o contratam?

11/9.

As melhores fotografias, aqui e aqui. Não deixem de ler os textos.

Não explicam.

O horror, a tragédia, a malandragem. No Jornal de Negócios dá-se hoje voz à angústia sem fim que devasta o sector do calçado. Os empresários do ramo precisam de mais 1500 pessoas, mas não há em Portugal 1500 pessoas que queiram trabalhar. Entre gritos lancinantes de impotência e desânimo, os nossos criadores de empregos confessam que já tentaram tudo, excepto aumentar salários — porque os salários baixos, evidentemente, não explicam a situação.

Claro.

O que explica a situação é o sol e a praia, a ausência de valores, o colapso das famílias, o tabagismo e o consumo de psicotrópicos, o declínio da fé verdadeira, o aborto livre e a natural propensão para a indolência do barrasco lusitano.

Tudo excepto os salários baixos.

Aliás, quatrocentos e oitenta euros por mês em Santo Tirso dão lindamente para alugar um T4 e pôr os filhos no colégio. Ao fim de semana joga-se golfe em Arcozelo ou dá-se um saltinho ao Bull & Bear.

Os salários não explicam, portanto. As leis da oferta e da procura funcionam em todo o lado mas são miraculosamente suspensas acima de Valongo, nas fábricas de calçado português. As empresas do mundo inteiro atraem funcionários com dinheiro e regalias, excepto na Cancela & Teresinha, na Natália Lda ou na Tavares & Irmãos. Aí podem lançar à rua libras de ouro ou maços de notas que não aparece ninguém.

Esta situação chocante  justifica que o Governo tome uma atitude firme para persuadir os nossos compatriotas a trabalharem um pouco mais. Talvez, enfim, com a subida do IVA, um aumento do preço dos transportes ou o fim das comparticipações nos medicamentos.

Já foi feito? Então mandem a polícia.

Ajudar as empresas.

Em resumo:

Nomear como Ministro da Saúde alguém ligado a diversas empresas com interesses nesse sector.

Anunciar cortes no sector que levarão a uma degradação significativa do Serviço Nacional de Saúde.

Nomear alguém próximo para estudar os cortes e pensar numa solução que passe pela criação de mecanismos que “sejam incentivadores de geração de receita própria”, de preferência tendo passado por empresas acima de qualquer suspeita, como é o caso do BPN, alguém que se possa invejar de ter um currículo inigualável na área da gestão de serviços de saúde e que possa constituir com sucesso uma comissão liquidatária do sector.

- Entregar o que restar à gestão de privados, transformando um direito humano universal num direito a que só pode aceder quem tem (muito) dinheiro.

Mais palavra ou menos palavra é isto mesmo.

Uma sugestão.

Forte Apache.

Agora que nasceu o Forte Apache, projecto que sucede ao Albergue Espanhol, aproveito para testemunhar o excesso de delicadeza e impecável civilidade com que o Pedro Correia se afastou do debate político, há cerca de dois meses, no Delito de Opinião. Não era preciso tanto, claro.

Adenda: caro João, só é pequeno porque não tenho a tua prática. Mas há muito mais aqui.

Cool.

Um longo convívio com publicitários fez-me suspeitar das pessoas que tentam ser originais. Metade da minha vida foi passada com gente que sabia o que era giro, ou fixe ou muito bom em todos os matizes, mas desconhecia o conceito de sublime. Sem acesso à cultura clássica, muitos dos meus colegas moviam-se num quadro de convenções a que chamavam criatividade — ignorando que existem tantos círculos de convencionalismo numa cabeça imatura como de padecimento no Inferno de Dante, e que o que julgavam giro, ou fixe ou muito bom não era frequentemente mais do que o exercício de uma convenção tardia num novo círculo exibido a cada trimestre pelas revistas da especialidade.

Por isto eu nunca quis ser original: gosto de cidades velhas, de livros velhos e de fotografia, que é a menos artística das representações. Tento conhecer os limites da minha prisão. O cool, com a sua língua de trapos, enfastia-me.

Ah, sim, temos de fazer sacrifícios.

O Hugo Mendes tem colocado informação preciosa no Jugular. (O que fazia ele no tempo de Sócrates? Assobiava para o lado). Certo é que este post sobre o imposto para ricos que tanto inflamou as almas sensíveis do PSD (e o que faziam elas nos tempos do corte ao subsídio de Natal e do aumento dos transportes públicos? Adivinhem) coloca a questão onde é preciso — nos antípodas de José Manuel Fernandes. Se alguém próximo do Governo se dignar a responder-lhe talvez vejamos o início de um debate público sério; o que, enfim, já cá vai fazendo alguma falta.

Ficha de leitura: “Rites of Passage”, William Golding.

Nota: estas fichas de leitura são escritas para consumo próprio, servem-me para compreender um pouco melhor as obras e não para as apresentar ao leitor. Muitas vezes irão versar sobre pormenores de composição um tanto ou quanto rebuscados, mas coloco-as aqui porque talvez interessem a meia dúzia de pessoas.

Rites of Passage, primeiro volume da trilogia To the Ends of the Earth, ganhou o Booker de 1980. Há uma excelente recensão ao livro no blog do Guardian.

O plot é muito simples, o que só acentua a extraordinária perícia técnica de Golding. A caminho da Austrália, no início do Séc XIX, um jovem dandy redige, para diversão do padrinho, o relato da travessia. Os passageiros são caracterizados em tom de comédia ligeira até ao momento em que o reverendo Colley é praxado em público pela tripulação. Colley fecha-se no quarto e morre de fome e ensimesmamento. Mais tarde saberemos que esta tragédia foi provocada pelo embaraço de ter proporcionado um fellatio ao garboso marinheiro que o conduziu aos aposentos durante a embriaguez.

O que me interessa aqui é a precisão de relojoeiro com que Golding nos transmite a informação a pouco e pouco até a tornar devastadora. Isto é feito com recurso a várias técnicas:

  1. Uma longa exposição, que introduz a obra em tempo lento, muito enganador.
  2. A opção por um narrador homodiegético, que participa na acção mas:
  3. está ausente em momentos essenciais, ou tem acesso à acção de modo imperfeito, como ocorre durante a praxe.
  4. Para justificar a ausência do narrador, Golding cria um subplot amoroso e faz coincidir o seu clímax com a humilhação pública do reverendo.
  5. Este subplot é imediatamente extinto depois de cumprir a função.
  6. Ergo: pormenor raro e interessante, o clímax do plot principal (a praxe e não o fellatio, que no livro é quase uma coda) é ocultado pelo clímax do subplot. É a primeira vez que encontro isto.
  7.  Depois chega o momento da grande revelação, quando Talbot, o narrador, encontra o diário do reverendo. O leitor respira de alívio porque agora já sabe que vai ter acesso aos pormenores do caso e à explicação do suicídio de Colley.
  8. O diário de Colley serve ainda para nos revelar uma personagem angelical que contrasta muito com a caricatura desenhada anteriormente por Talbot — o que tem uma função importante na retórica da narrativa, porque cria uma nova verosimilhança, mas não só:
  9. esse angelismo também prepara a surpresa que o leitor terá ao deparar com a revelação do fellatio ao marinheiro.
  10. Segue-se aquilo que parece à primeira vista a resolução do livro: um falso inquérito que serve apenas para proteger os responsáveis.
  11. O inquérito conclui e sedimenta, neste livro, um dos grandes temas de Golding: a ideia de que num espaço fechado o verniz da civilização dá em pouco tempo lugar à barbárie, e que esta sempre triunfa.
  12. Nas últimas páginas, quando já nos despedimos da novela, é então testemunhado por duas personagens secundárias o acto sexual que de facto originou a grande vergonha e a morte do clérigo.

Em outras mãos este enredo daria lugar a uma pepineira. Golding transforma-o numa pequena obra-prima.