Reconciliação.
por Luis M. Jorge
O equilíbrio de forças que resultou das eleições agrada-me. O PSD tem a autoridade mas não tem maioria. Sócrates obteve menos votos que Santana em 2005. Paulo Portas não arrasou. O Bloco foi castigado por não ter feito, no tempo certo, uma oposição decente à economia vodoo dos socialistas. O PCP — um anacronismo útil em tempos de crise — reforçou o seu mandato para defender os mais fracos, com ou sem Coreia do Norte.
Agora precisamos de sossego. O sossego que nos falta desde que o escândalo Casa Pia transformou o PS numa instituição acossada, raivosa, sectária, com delírios revanchistas. Foi esse o partido que pegou em Sócrates e o acompanhou no triunfo, na inconsciência, na pulsão de morte e na ruína do país. É provável que muitos socialistas despertem hoje estonteados e que sintam, para sua surpresa, um secreto alívio: como foi possível, perguntarão. Eis uma boa pergunta.
Por enquanto as perspectivas não são más: o pagamento das dívidas ocupará os vencedores, vexames vários entreterão os vencidos. O país terá um Governo, se se pode chamar governo à administração de um protectorado, enquanto o PS e o Bloco procuram novos líderes.
Sim, vai haver miséria: a miséria é o legado destes seis anos. Mas, sinal dos tempos, Francisco José Viegas foi eleito em Bragança, Daniel Oliveira está em reflexão (alguém esteja) e poucos, a começar pelos seus autores, levam a sério as promessas de luta de um blog com quatro deputados. Ontem, ao escutar o barítono técnico de Pedro Passos Coelho, aquela voz terrível que desafinava o hino de Portugal, não pude deixar de sentir o regresso, provavelmente ilusório, a uma espécie de normalidade.
“O Bloco foi castigado por não ter feito, em tempo útil, uma oposição decente à economia vodoo dos socialistas”?
O Bloco foi castigo por fazer uma oposição pouco decente aos socialistas, que deu o braço à direita, seguindo uma política de rigidez que se centrou no combate a uma certa personagem de esquerda. O Bloco foi castigado, portanto, pela incongruência e inconsistência, e pela inexistênca de soluções governativas nas políticas (não) aventadas (é o que acontece quando nos centramos em demasia nos outros…descentramo-nos de nós).
Não concordo consigo, Sílvia.
O Bloco foi castigado porque as pessoas sabem perfeitamente que partidos como o Bloco (e que funcionam como o Bloco) só existem em países ricos, confortáveis, em que a malta porreira das cidades se entretém a perseguir os males do capitalismo e às causas fracturantes (que Sócrates fez o favor de lhes rapinar logo na primeira legislatura, mais a mais). Ou seja, quando tudo vai bem e há carcanhol no pagode. Quando não há carcanhol as pessoas compreendem que vão ter que meter mãos à obra. Acho que foi isso que se notou nestas eleições. Muita gente acordou para a realidade dos próximos 3-4 anos.
Políticas à parte…… tudo gente com Blog no SAPO. Gente de bom-gosto, portanto
(Lamento muito, as minhas sinceras desculpas, mas não resisti
À vontade, Mª João.
Mas eu leio isto e comparo com a sua justificação de voto e fico sem entender nada. Por um lado, o principal seria impedir Sócrates de vencer, mas por outro havia também que impedir uma maioria absoluta do PSD. Votar em branco, ou abster-se, nestas eleições, favoreceu José Sócrates, a tal catástrofe que se pretendia primordialmente evitar a todo o custo. Como os partidos à esquerda do PS estavam fora da equação, quem pretendesse livrar-se de Sócrates tinha duas opções simples: votar PSD e arriscar uma maioria absoluta liderada por Passos Coelho, ou votar PP, com tal de impedir um governo monopartidário. Esta era a conta simples para quem não queria ajudar Sócrates. Não estive no país, mas se tivesse votado, era no PP. Não porque simpatize com o partido, nem com Portas, mas porque Sócrates tinha de ir e porque não me agrada uma maioria absoluta do PSD. Voto cínico? Voto lúcido. Es lo que hay, macho.
Eu sou muito contraditório. A minha consciência não suportaria ver a pobreza a crescer sabendo que tinha votado no PSD. Mesmo que isso fosse uma necessidade política, havia a necessidade social. Qual escolher?
Eu votei no CDS precisamente na esperança de impedir a maioria absoluta de um só partido. Acho que é necessário o tal “equilíbrio de forças” que Luís refere no início do post. Ainda que populista, o CDS tem mais objectivos sociais no seu programa do que o PSD e ver-se-á obrigado a estar à esquerda dos laranjas no próximo Governo – isto se o Programa de Governo for uma fusão dos dois programas eleitorais.
Puxa, isto está cheio de fássistas.
LOL. Eu também era “natural” do PS… Até Guterres. Depois votei em branco durante anos. Agora tinha que fazer alguma coisa, “pá”.
E juntou-se ao agricultor domingueiro? Mon dieu.
Por falar em hortaliça, há ali ideias em que acredito como a valorização do sector primário, das pescas, etc. É a nossa matriz original, vendo bem as coisas. Entretanto também fui descobrindo que o PS, que passou de um partido de técnicos para um partido de tecnocratas e de gente oportunista sem a mínima vergonha na cara. De certa forma, desde 2000 fui sendo empurrado para esta minha nova leitura das necessidades políticas. Espero não me arrepender, de facto.
E como se valoriza o sector primário? Com subsídios à família espírito santo?
Exactamente por isso é que votei desta forma.
Não sei. Mas não é com subsídios para arrancar vinha, queimar laranja e quejandos.
Por falar nisso. Estive num boteco em Salamanca, abarrotando de ébrios salivantes, cujo mote era morcela. Só. Uma carta com variedades de morcela de toda Espanha (prémio “revelação” para a morcela branca de Jaén, “escolha acertada” a de fígado, de Málaga).
Hombre, que se me lambio los bécios, ou alguio do génerio.
Já num cabe.
Idem.
(Não se faz, André. Merecia que eu descrevesse a morcilla que me faz viajar até León…)
Quanto ao Bloco, este cometeu um erro capital, ao excluír-se das negociações com a troika depois da palhaçada da moção censura. Esta tomada de posição definiu claramente os curtos horizontes políticos que o partido tem para si mesmo, na opinião de muitos votantes do Bloco. A mensagem passada foi a de que o Bloco não pretende ser um partido de governação, mas sim uma eterna voz de protesto. Uma tremenda desilusão para os que tinham adivinhado no Bloco uma possibilidade de alternativa política para um sistema bipolarizado por defeito. Apesar de tanta esperança, e na circunstância inevitável, já consumada, de uma intervenção externa, o Bloco resolveu abandonar a sua base votante, recusando-se a defender os seus princípios políticos nas negociações que definiriam o futuro do país. Os eleitores não “castigaram” o Bloco. Antes “desertaram” do Bloco. E, deduzindo o óbvio ululante dos resultados, os habituais indefectíveis bloquistas já começam a cair no erro de culpar o eleitorado pela própria inépcia política – o desespero de causa. Se tivermos em conta a amálgama ideológica e sectária que compõe o partido, não é de todo exagerado temer pela sobrevivência do mesmo, entre purgas, dissidências e facas longas.
Vou tentar perceber o que dizem os tipos do Bloco. Talvez se faça luz.
Eu nunca voto nos que podem chegar ao poder… Era o que mais faltava!
Vou copiar esse lindo princípio.
O BE são os “betinhos de esquerda”.
(tirando a Ana, o Rui e o Miguel)
Estou com um melão dos antigos…e ainda não digerido!
Tadinho.