vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Junho, 2011

Obrigado.

A propósito do post anterior, conto uma história. Há alguns anos fui convidado a criar a campanha de promoção de um grande programa da RTP. Normalmente proponho orçamentos com um valor fechado, mas naquela vez, por inspiração divina, aceitei cobrar ao dia. Tudo correu bem até à apresentação da campanha; e depois correu melhor. O baronato da casa pôs-se a rever e a alterar os anúncios, o que os arruinou para sempre, mas graças ao taxímetro recebi três ou quatro vezes o valor previamente calculado, já muito generoso.

Como foi dinheiro dos seus impostos, leitor, aqui lhe manifesto o meu sentido reconhecimento.

Boa pergunta.

Que falta faz esta televisão pública? Talvez o ajude a pôr as coisas em perspectiva saber que a RTP recebeu no ano passado 230,6 milhões de euros de fundos públicos e gastou 289,6 milhões de euros — 103 milhões dos quais em pessoal. No mesmo período o grupo Impresa, proprietário da SIC, gastou em televisão cerca de 148 milhões de euros; quase metade da despesa do serviço público. Valeu a pena? Você é que sabe — você é que paga.

O ano americano (7): Exit Ghost.

Exit Ghost é o último dos livros de Zuckerman, que tinha vinte e tal anos no primeiro romance. Agora é septuagenário, desmemoriado, impotente, incontinente e só. Ao visitar um hospital encontra Amy Bellette, a rapariga que o fizera sonhar em Ghost Story. Tal como ele, Amy está um caco: vive na miséria e enfrenta com as humilhações do costume um tumor na cabeça.

O contraponto da história (que bem precisa) chega pela incarnação de um casal jovem e de um predador literato que aparece aqui como um espelho irónico e tardio do escritor. Zuckerman talvez esteja podre mas não está morto, e alimenta uma paixão puramente idealizada pela amável texana enquanto o marido é despachado com uns afazeres na província.

Como a acção é limitada por imperativos biológicos, fala-se de Bush, do politicamente correcto e, num belo momento, da The Paris Review.

A minha sinopse não faz justiça à obra, muito interessante se a encararmos como um Tempo Reencontrado em que tudo correu mal. Ao contrário de Proust, que reserva uma certa elegância à decrepitude, o tempo de Roth é trágico para as personagens. Aqui não há ilusões.

O Sr. Requeijão.

Durante muitos anos tentei gostar de requeijão. Provava-o quando podia, misturava-o com coisas, comprava embalagens que apodreciam no frigorífico intocadas ou debicadas, logo abandonadas. Não tenho má vontade contra o requeijão. Nem aquela matéria branca, esponjosa, insonsa, popular tem culpa de que eu não a aprecie. Há alturas em que o mundo deve seguir o seu caminho, e nós o nosso, sem ressentimentos.