Livros e vinhos.

por Luis M. Jorge

Ontem à noite, na Feira do Livro, encontrei semelhanças úteis entre o mercado editorial e o da produção e comércio de vinhos. Chamo-lhes úteis porque talvez possam iluminar as estratégias dos seus operadores.

Os dois mercados sofrem constrangimentos do mesmo tipo. A capacidade das empresas é muito desigual (em 2004 Porter afirmou que só havia 12 ou 14 produtores de vinho com capacidade exportadora, enquanto mais de 80% dispunha apenas de um hectare). A distribuição é dominada por oligopólios. As margens de lucro são habitualmente escassas. A segmentação é casuística, por vezes irracional (pensem na quantidade de marcas premium que há nos vinhos do Douro).  Os casos de sucesso são muito determinados por opinion leaders, ou intérpretes do gosto educado. O word of mouth é espontâneo, pouco dirigido pelos produtores. O packaging encontra-se numa fase de transição, oscilando entre a diferenciação e o caos. O uso da internet, e em particular dos social media, é rudimentar mesmo nos casos de sucesso. E finalmente, mas poderia elaborar, os dois mercados persistem ainda numa lógica de let’s build it and they will come: ou seja, apresentando ao público os seus produtos sem uma pesquisa prévia bem estruturada.

Claro que há diferenças, em benefício ou prejuízo de um dos mercados perante o outro. Por exemplo: é mais fácil para um editor mudar o foco da sua actividade do que para um produtor de vinhos plantar uma nova casta e esperar que dê frutos. Por outro lado, é mais provável que em teoria um produtor de vinhos tenha acesso à exportação, pois não enfrenta barreiras linguísticas (enfrenta outras, mas a conversa já vai longa).

Dito isto, é interessante verificarmos que nos dois mercados ocorrem, em simultâneo, pequenas revoluções. Ontem, na Feira do Livro, encontraríamos matéria para vários case studies: a) como criar uma identidade forte a partir do portfólio: Cavalo de Ferro. b) Como testar, sem sobressaltos, um novo mercado: Alfaguarra. c) Como conquistar o acesso aos opinion leaders: Tinta-da-China. d) Como fazer a transição para uma nova editora: Quetzal. e) Como projectar a liderança: Leya. g) Como criar uma identidade coerente através do packaging: Cotovia, Tinta-da-China. h) Como reinventar um canal: o pavilhão da Babel. i) Como morrer sem glória: Europa-América.

Falta muita coisa: por exemplo, não vi extensões de marca feitas com sucesso (apesar das tentativas, salvo erro, da Asa), não vi marcas de culto (uma oportunidade perdida para os pequenos editores), nem vi qualquer ligação entre a presença em feira e os canais online (uma oportunidade perdida para todos). O esforço de fidelização assenta nas colecções, o que é uma estratégia testada mas pouco imaginativa. As promoções vivem apenas do desconto. A comunicação em feira é de fugir. Mas há sinais de que alguma coisa mexe, o que não é mau.

Sei que alguns editores visitam o meu blog. Peço-lhes desculpa se escrevi muitas asneiras sobre um mercado que conheço mal, mas considerem que escrevo como quem pensa em voz alta — para organizar ideias, mesmo que depois as reveja.