vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Maio, 2011

Ainda queres “restruturar a dívida”, Falâncio?

  1. Orderly Greek restructuring a ‘fairytale’. Talk about Greece reneging on debt commitments “has been very damaging” and suggests “that investing in the euro area is unsafe,” (…) “a debt restructuring, or exiting the euro, would be like the death penalty – which we have abolished in the European Union”.
  2. Greece set for severe bail-out conditions. With political opposition to new loans to Greece growing in several northern eurozone countries and the European Central Bank adamantly against any restructuring of Greek debt, European leaders see the privatisation plan as the best hope of staving off insolvency. (…) But several diplomats and officials said repeated failures by Athens to start such sell-offs have convinced them of the need to impose new conditions on the programme, including the possibility of an international agency running the divestments. “The state is not functioning,” said one senior European diplomat.

O ano americano (4): “American Pastoral” e “Portnoy’s Complaint”.

Resuma Hamlet: Ah, e tal, um príncipe da Dinamarca descobre que o pai foi assassinado, hesita um pouco e mata toda a gente. Resuma American Pastoral: Ah, e tal, um homem esfalfa-se, obedece ao pai, respeita o irmão, cria uma família, ama a mulher, protege a filha e todos o odeiam.

Resumir um clássico — eis a questão.

Sem saber desenvencilhar-me, avancei para Portnoy’s Complaint. Foi uma boa ideia, porque agora posso compará-los enquanto lhe explico a minha teoria revolucionária sobre a dupla identidade de Philip Roth. É simples: o livro de Portnoy, publicado 1967, não pode ter sido concebido pelo mesmo homem que escreveu a Pastoral vinte anos depois.

Que o equívoco, agora desfeito, se tenha prolongado durante várias décadas não deve surpreender-nos. Ainda hoje Hamlet é atribuído pela plebe ignara a um burguês prudente de Stratford-upon-Avon e não a Francisco Bacon, apesar das provas irrefutáveis que apontam para o filósofo. A verdade, em literatura, nem sempre coincide com os factos.

Roth, o autor de Portnoy, a promessa ávida de glória, foi rendido por “Roth”, o usurpador. Roth era um romancista, “Roth” é um demiurgo. Roth explicava, “Roth” revela. Roth contava, “Roth” constrói. Roth exibia-se, “Roth” aterroriza-nos.

Se Portnoy era o Adrian Mole da América judia,  Swede Levov é Cândido guiado por Virgílio a uma parte do inferno que Dante não frequentou. Mas nós frequentamos. O pai que vê na rua uma criança atropelada e tem palpitações, frequenta-o. Depois reconhece o seu filho, e frequenta-o. Embora o estilo de “Roth” seja contaminado por certa nostalgia, o irrecuperável é menos importante que o inútil. A história de Swede é a descoberta da inutilidade de um homem bom — o leitor descobre-a ao ritmo de Swede, e daí resulta uma extraordinária eficácia narrativa.

A história secreta.

Almerindo Marques vai ser presidente da Opway, uma construtora do Grupo Espírito Santo. Ocorreram várias coisas antes de lá chegar. O Rui Costa resume, eu adapto:

1. Almerindo Marques, presidente da Estradas de Portugal, renunciou ao cargo em Março de 2011.

2.Dois meses depois, o Tribunal de Contas audita uma renegociação de dívida entre as Estradas de Portugal e as concessionárias das SCUT:

  • A dívida do Estado às concessionárias passou de 178 milhões para mais de 10.000 milhões de euros;
  • A Ascendi (liderada pela Mota-Engil e pelo Grupo Espírito Santo) garantiu mais 5400 milhões de euros em rendas, que não dependem do número de carros em circulação;
  • A Euroscut (liderada pela Ferrovia) garantiu mais 1186 milhões de euros em rendas;
  • Em 2011, o Estado recebe 250 milhões de euros em portagens e paga 650 milhões de euros de euros em rendas, com um prejuízo de 400 milhões de euros (62% do valor das rendas, 160% do valor das portagens)

Pior:

O Governo não só nomeou as comissões de negociação (ver aqui) , como criou condições para escapar ao controlo do Tribunal de Contas. Em 2006, a maioria socialista aprovou uma alteração aos poderes do tribunal que permite modificações a contratos antigos:

«Não estão sujeitos à fiscalização do Tribunal de Contas os contratos adicionais aos contratos visados», determina a Lei 48/2006, de 29 de Agosto.”

3. Almerindo Marques nega que as Estradas de Portugal tenham concluído um negócio ruinoso (0:53 no filme).

4. A 23 de Maio o Jornal de Negócios noticia que Almerindo Marques vai ser o próximo presidente da Opway, a construtora do grupo BES.

O que diz o PSD? Nada. O que diz o CDS? Nada. O que diz a blogosfera de Sócrates? Nada. O grupo Espírito Santo é a história secreta de Portugal.

Burn.

Benjamin Rusnak no Haiti.