Foi uma injustiça não destacar no próprio dia este post do Daniel Oliveira, mas há bom remédio. Eis um excerto:
Num excelente almoço organizado pela Câmara do Comércio e Indústria Luso Francesa, onde perorou sobre a pobreza, Leite Campos explicou que “quem recebe os benefícios sociais são os mais espertos e os aldrabões e não quem mais precisa”.
Seria impensável eu dizer que o senhor Leite Campos é um “aldrabão”. (…). Como não insulto o senhor, fica apenas este facto: estando ainda a trabalhar, já recebe uma reforma do Banco de Portugal. Quando se retirar da Universidade de Coimbra, juntará o que recebe já hoje ao que receberá dali. Acumulará duas reformas vindas do Estado.
Seria um argumento “ad hominem” atacar o professor Leite Campos, competente fiscalista, por causa das suas duas reformas. Dizer que ele é “esperto” e que gasta recursos do Estado que podiam ir “para quem mais precisa”. Espertos são os pobres que ficam com os trocos. Quem consegue acumular reformas por pouco trabalho é inteligente. Os pobres enganam o Estado, os outros têm direitos. Os pobres roubam o contribuinte, os outros têm carreiras. Fico-me por isso pelos factos: a reforma que o senhor Leite Campos recebe do Banco de Portugal resulta de apenas seis anos de trabalho naquela instituição.
Cheira-me que se a generalidade dos portugueses recebesse reformas, estando ainda no ativo, por seis anos de trabalho e as pudesse acumular com outras dispensaria bem o abono de família e até o cartão de débito para ir à sopa dos pobres.
Aquilo que realmente está esgotar o crédito da minha paciência é ver tanto “esperto” que vive pendurado nas mordomias do Estado a dar lições de ética aos “aldrabões” que recebem subsidios miseráveis.
Alguém devia escrever sobre o estofo darwinista das consortes reais. Imaginem o talento de que necessitam estas mulheres para encantarem durante décadas um palerma mimado, afastarem as harpias, persuadirem a família de Windsors ou Saxe-Coburgs, honrarem as instituições e comoverem o povo durante noivados sem mácula até à glória de uma boda triunfal. Ser doida na cama ajuda, mas não chega.
No último dia, um empregado do riad transportou as nossas malas pelas ruelas do souk para apanharmos o táxi. Quando lhe ofereci a gorjeta que julguei adequada a um hotel de quatro estrelas (desconheço as equivalências da hotelaria tradicional), ficou tão satisfeito que me pregou dois beijos na face e me abraçou com carinho. A minha namorada, hélas, não teve a mesma sorte e recebeu apenas um aperto de mão.
Tenho muita pena do que ocorreu hoje em Marraquexe, pois gostei daquela gente tão trapalhona e simpática. Os turistas, de que a sua economia depende, não são racionais. A partir de hoje esquecerão os atentados de Madrid, de Londres e de Nova Iorque: Marrocos, um país muçulmano, um país inseguro, será durante algum tempo um país a evitar.