Itália, etc.

by Luis M. Jorge

1. Itália

Não é uma pátria espiritual, porque lhe conheço bem os defeitos: a frivolidade, a corrupção, a cupidez, a afectação, o chauvinismo e a bajoujice. Em país algum se escuta música tão má ou se espremem os turistas com tanto desaforo. O que amo na Itália, para além das cidades improváveis, das tascas ruidosas, da cortesia lhana,  da melancolia ao virar da esquina é o que a Itália me ensina sobre nós.

Se um povo é aquilo que faz, muito pouco nos distingue: tal como Itália fazemos vinhos, sapatos, fatos, couros, queijos e presuntos, móveis, doces, cafés. Mas onde estão as Edra e as Capellini de Passos de Ferreira? Porque não se vendem os nossos Tourigas em Greenwich Village? Não existirá em Portugal inteiro um  Salvatore Ferragamo, um Ermenegildo Zegna?

Assisto, desde que me lembro, a reflexões sobre modelos de desenvolvimento para Portugal. Da Finlândia a Chicago, de Paris a Dublin, de Cuba aos amanhãs que cantam. E vejo a três horas de viagem um país igual ao nosso, governado por crápulas, imerso em impostos, que apesar disso funciona e cujas lições teimamos em ignorar.

2. Saudades

De regresso à blogosfera encontro sinais de espírito crítico que escapam aos alinhamentos ideológicos. É uma sensação agradável.

O Pedro Picoito, membro da comissão de honra da candidatura de Cavaco Silva, explicou ao presidente eleito que nenhum político pode usar uma vitória nas urnas para se negar a dar explicações sobre eventuais ilegalidades. Foi, que eu saiba, o único.

Daniel Oliveira, militante do Bloco de Esquerda, reduziu ao absurdo a moção de censura anunciada pelo seu partido.

Francisco José Viegas, um conservador sui generis, escreveu que a saída de imigrantes é um mau sinal.  Nos últimos anos, acrescenta,  foram eles que trouxeram sangue novo a um país envelhecido (…). A integração de muitos desses estrangeiros contribui ou para mudar a nossa palidez, ou para mudar os nossos hábitos de trabalho, ou para impedir a solidão portuguesa.

3. Tontarias

Mas nem todas as surpresas são boas, nem todas as más surpresas surpreendem. Helena Matos, com o fervor hidrófobo de uma passionária ultramontana, no estilo ilegível que tomou de empréstimo ao Clarim e ao Arautos do Evangelho, continua a inventar uma esquerda que não existe para gáudio da direita boçal que insiste em lê-la.

Entre o seu rol inesgotável de tolices, destaco uma: a autora considera que os nossos jovens adultos, 25% dos quais desempregados, devem andar todos a cantar que são parvos e à espera de um emprego para toda a vida na função pública como antropólogos.

Leva-se esta criatura a sério, e ainda a recitam quando calha.

About these ads