vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Dezembro, 2010

Ah, os bons velhos tempos.

O debate.

Que Manuel Alegre nada tem na cabeça é uma revelação tardia para quem acompanhou as anteriores incursões do bardo na alta política. A estratégia da candidatura — defender a pátria da fúria dos mercados, resguardar o estado social — nem era má; mas exigia alguém que a executasse com talento. O perfil do candidato — uma alminha impoluta, um independente do PS — tinha sentido, mas dispensava a incarnação de um poetastro oco e egotista.

Havia mais gente adequada à estratégia e ao perfil? Havia, pois.

Vida urbana (9).

Donas de casa torrenciais. Pedem um cafézinho muito quentinho curtinho numa chávena escaldadinha porque são umas lambonas e não podem sair à rua por causa do frio e dos pés inchados e dos quebrantos e dos bicos de papagaio e do goto inflamado e das dores na junta e da bicha solitária e da astrite e da astrose e do lumbago e do monco caído e da espinhela partida. Compram doze não trinta carcaças bem cozidinhas porque veio ontem de Paris a-filha-que-está-casada-com-o-engenheiro e só gosta do pãozinho português que é branquinho e cozidinho e não é o pão que os franceses carregam nos sovacos todos suados que aquela gente nunca toma banho como nós os mais limpinhos e branquinhos e cozidinhos da Europa e as porcas das francesas molham a cara com panos húmidos e nunca se lavam por baixo. Ai que nojo. Querem um euromilhões premiado senhor Teixeira para ir ao Brásiu laurear a pevide no Léblon e ver a Bruna e dar um beijão ao Marcelo e fofocar com a Taís e cutucar o Dirceu e transar com o Maurício e ficar no bem-bom com a Dulcineide a Débora a Renata e a Solange e cuspir nas fuças da jararáca que fazia de Rafaela no Viver a Vida.

São as nossas Sherazades. Mil e uma noites e café da manhã para dois — sem saber o que virá depois, bem bom.

Vivian Meier.

Não é invulgar que uma grande obra se revele após a morte do autor, e parece que ocorreu outra vez. O millieu fotográfico sobressaltou-se com o trabalho de Vivian Meier, uma nanny de Chicago morta em 2009. Há um artigo e um filme que contam a história. Valem a pena.