vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Maio, 2010

Há um modelo social para Portugal? (1)

Em novembro de 2005, Andre Sapir, professor da Universidade Livre de Bruxelas, analisou o conceito de modelo social europeu e apelou à sua renovação num documento que podem consultar aqui. O desafio foi suficientemente interessante para merecer destaque na imprensa económica internacional.

O autor começa por invocar os riscos e as oportunidades da globalização, e refuta os que defendem a existência de um modelo social indiferenciado nos países do mercado único. Para Sapir, existem quatro modelos sociais europeus, que ele hierarquiza por critérios de eficiência e equidade:

  1. modelo nórdico (Suécia, Holanda, etc.) garante os níveis mais elevados de protecção social, forte correcção fiscal dos rendimentos do trabalho e sindicatos poderosos que asseguram baixa desigualdade.
  2. modelo anglo-saxónico (GB, Irlanda). Com transferências sociais amplas, mas de último recurso, concentradas na população em idade activa, e incentivos à obtenção de emprego. Sindicatos fracos, disparidades na distribuição da riqueza e uma incidência relativamente alta de baixos ordenados.
  3. modelo continental (Alemanha, França, etc.). Segurança social extensa, focada nas pensões. Sindicatos fortes, mas em declínio.
  4. modelo mediterrânico (Itália, Espanha, etc). Concentra as despesas sociais nas pensões. A legislação desencoraja os despedimentos. Proliferação de reformas antecipadas.

Quanto à eficiência de cada um:

  1. O modelo mediterrânico, caracterizado, por altos níveis de desemprego e alto risco de pobreza, não garante eficiência nem equidade.
  2. O modelo continental, com alto desemprego e baixo risco de pobreza, garante equidade mas não é eficiente.
  3. O modelo anglo-saxónico, com desemprego baixo e risco de pobreza alto, não garante a equidade mas é eficiente.
  4. O modelo nórdico, com desemprego baixo e risco de pobreza baixo, satisfaz ambos os critérios.

Uma nota importante: o autor afirma que a equidade exige carga fiscal elevada, mas assegura que esta não prejudica a eficiência do modelo, como se comprova pelos exemplos escandinavos.

Para começo de conversa, fiquemos por aqui.

Old England is dying.

A deputada trabalhista Liz Kendall, recém-eleita por Leicester, fotografou a Câmara dos Lordes com o seu iPhone e divulgou esta imagem no Twitter. Ela descobriu, tarde demais, que é proibido fotografar na vetusta instituição.

A senhora Kendall foi posta em grilhetas, chicoteada, expropriada, e apodrecerá nas masmorras da Torre de Londres até ao relutante perdão real.

Dois países.

Dois dias a correntado a um congresso mundial de vinhos em Vila Real, farol do cosmopolitismo. Para grande surpresa minha, o evento exibiu dois australianos, um tipo da califórnia, franceses, espanhóis, italianos em barda, e até um grego que escapou à vigilância do governo alemão.

Possivelmente vieram em carros de bois. Vila Real não tem comboio, e há cinco anos não tinha electricidade. As pessoas comiam a posta mirandesa às escuras e pensavam que era bacalhau. Os rapazes faziam filhos às irmãs, julgando que eram primas.

As pessoas desta terra, com excepção dos políticos, são encantadoras. Nisso se distinguem de Lisboa, que tem políticos encantadores e gente intratável. O colóquio foi inaugurado por cinco bigodudos que se homenagearam compulsivamente. O presidente da câmara da Merdaleja parabenizou o governador civil de Ranholas, que exaltou o estimado colega do Perdigoito, que se rojou perante o correligionário do Fundo de Cós, que comoveu o ilustre engenheiro, amigo e poeta de Regueiró dos Finos.

Um dos figurões informou a trupe: “pediram-me para ser breve mas eu, quando falo das belezas do Douro, tenho dificuldade em controlar-me.” Pois tinha: ficaram nisto uma hora, para além do estipulado.

Portugal são dois países: o que organiza congressos internacionais irrepreensíveis em Vila Real, e o que convida estes patêgos para os inaugurar.

Fausto no Mah-Jong, Mefisto na Mota-Engil.

(A tragédia que ides ler foi inspirada por esta graciosa homenagem).

Fausto:

O estudo das leis não me consola,
e a física não cura a peste,
a necromancia é a minha escola —
vou chamar Belzebu, invocarei o mestre:

Sint mihi dii Acherontis propitii.
Inferni ardentis monarcha propitiamus
vos, ut appareat et surgat
Mephistophilis!*

Mefisto:

Chamaste-me, lindeza?

Fausto:

És mesmo o diabo? Tens a certeza?

Mefisto:

Não vês o fatinho Gucci, o ar determinado?
Faço jogging de manhã e tenho casa no Chiado.

Fausto:

Estou farto de alfarrábios,
a ciência é uma chachada —
quero casar com o meu amigo,
e boda na Mealhada.

Mefisto:

Entrega-me a tua alma,
vem comigo pró Inferno —
onde a vizinhança é calma
e o socialismo é moderno.

Fausto:

Se me deres o contrato
farei um pacto contigo:
nenhum capricho te nego,
com ânimo estarei cativo.

Mefisto:

O meu comando é amável,
vou ser um pai para ti —
apenas te obrigarei a ler
o intragável Valupi.

Fausto:

Faz com que o Ricardão me ame —
toma lá dois pêlos púbicos.

Mefisto:

E reconhecerás a urgência
dos grandes investimentos públicos?

Fausto:

Quero ser levada ao altar com vestido de organdi!

Mefisto:

E não me dás cabo da cabeça quando comprar a TVI?

Fausto:

Já convidei a Io Apoloni e a duquesa de Guermantes.

Mefisto:

Divulgarei o teu copo d’água no estaminé dos Abrantes.

Fausto:

Então vá, que estou com pressa — hoje há sarau no Trumps.

Mefisto:

Com os leitores serei clemente
porque esta tragédia vai longa:
assina sem mais delonga —
passemos ao finalmente.

Fausto:

Isso, isso, vamos ao Finalmente!

Saem @s du@s.

* Roubado ao Christopher Marlowe. O corcelzinho é do Delacroix.