O horror.

Portugal descobriu a pedofilia a 23 de Setembro de 2002. Nesse ano a opinião pública concluiu subitamente que era um crime hediondo e repugnante aquilo que antes lhe parecia uma conquista singela da ascensão social.

Durante toda a minha adolescência, e uma boa parte da idade adulta, não desconhecia que no parque Eduardo VII alguns meninos pobres trocavam favores com senhores importantes. Lisboa inteira tratava pelo petit nom deputados e ministros que divagavam à noite entre as alamedas frondosas, aspirando o perfume vivificante das acácias.

Quem travou amizades na mailing list do circuito Lux-Frágil pôde discorrer entre vodkas-tónicos sobre as orgias homossexuais de um figurão das noites Lisboetas — eventos cuidadosamente encenados, dizia-se, em que os mais jovens não iam para a cama com o Vitinho.

Fora de Lisboa o fenómeno tinha outro bucolismo: o pai chegava bêbado a casa, dava um sopapo na mulher e uma pinocada na filha. Na manhã seguinte esta ia guardar cabras, como de costume, e aos treze anos dava o salto para França com o irmãozinho nos braços.

Agora, em 2010, a Igreja assume que encobriu a pedofilia. Dizem que leva umas décadas de atraso.

Pois leva. Mas não é a única, nem somos todos parvos.