vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Fevereiro, 2010

A entrevista (2).

Na minha meninice devorei os romances de Harold Robbins: nessas narrativas corajosas, em palavras duras, os protagonistas ficavam multimilionários e conduziam bólides nas 24 Horas Le Mans. Mal sabia o dr. Pais do Amaral que anos depois cumpriria as aspirações de uma criança intoxicada por má literatura.

O que me agradava sobremaneira nas aventuras dos canalhas mais ricos do mundo era a exibição das suas acrobacias eróticas: esses homens, leitor, tinham falos, e esses falos, leitor, só conheciam dois estados — ou estavam erectos ou, hélas,  entumescidos. Pontualmente também os encontrávamos rijos, túrgidos, e até mesmo, se a memória não me falha, tumefactos — mas nunca, nunca por amor de deus se achavam moles, tenros, frouxos, indolentes ou descaídos.

Recordo um capítulo em particular, no qual o protagonista fodia uma groupie platinada com mamas grandes e botas à cowgirl no jacuzzi de uma penthouse com vista para o rio Hudson — se não foi isto, perdoem a liberdade poética. Pouco antes do orgasmo a mulher gritava com arrebatamento:

— Ben, tu és o maior!

E ele responde, entre duas bombadinhas:

— Obrigado, Mandy.

E ela retorque, triunfante:

— Eu não sou a Mandy, sou a Sandy. Mas podes chamar-me o que quiseres, desde que continues a foder.

Ao assistir à entrevista de José Sócrates na semana passada compreendi finalmente a natureza da relação entre os portugueses e o primeiro-ministro: ele pode dizer o que quiser, desde que continue a fodê-los.

A entrevista (1).

Ao contrário da doutora Manela, do paquete Simões da Mercearia  Ideal e dos meninos da escola C+S de Alhos Vedros, o primeiro-ministro ignorava, como uma carmelita descalça, o plano da PT para dominar a TVI. O Pedro Lomba revela-nos alguns pormenores desta inocência comovedora.

Riva degli Schiavoni.

Aqui.

Polímato.

Podia ter escolhido literatura, mas não aprecio as virtudes formativas da pobreza. Essa razão explica que o convite para estagiar no departamento criativo da J. Walter Thompson me tivesse chegado, inesperadamente, enquanto frequentava o quarto ano da Faculdade de Direito de Lisboa.

Nunca uma carreira auspiciosa começou de um modo tão descuidado. Nos anos seguintes percorri duas ou três agências portuguesas e seis ou sete multinacionais. Ganhei um prémio em Cannes e pus anúncios na Archive. Fui feliz no Bairro Alto e vivi como um burguês na Avenida da Liberdade.

Sempre trabalhei muito, até me cansar de trabalhar. Ainda assim, passei dois anos a fazer bonecos na Sociedade Nacional de Belas Artes. Durante alguns meses animei, com graciosa inaptidão, um curso de pintura e outro de teatro. Em 2003 e 2004 ocupei as minhas noites a revelar negativos no Instituto Português de Fotografia. Muita gente me ensinou coisas, sem que eu tivesse aprendido uma fracção do que devia.

Fiz blogs, revistas, exposições, colecções e traduções. Viajei muito, mas não tanto como sonhava. Entretanto, descobri a internet: em Janeiro iniciei um curso de programação. Eis o pobre (e, ainda assim, orgulhoso) testemunho dos meus esforços desta manhã.

// JavaScript Document
var nomes = new Array();
var listarBtn;
var inserirBtn;
var list;
window.onload = init;
function init()
{
listarBtn = document.getElementById(‘listarBtn’);
inserirBtn = document.getElementById(‘inserirBtn’);
list = document.getElementById(‘listagem’);
listarBtn.onclick = listarHandler;
inserirBtn.onclick = inserirHandler;
listarBtn.disabled = “disabled”;
}
function listarHandler()
{
list.innerHTML = “”;
for(var i = 0; i < nomes.length; i++)
{
list.innerHTML += nomes[i] + ‘<br />’;
}
}
function inserirHandler()
{
var nome = prompt(“Insira um nome por favor: “, “<o seu nome aqui>”);
nomes.push(nome);
if(nomes.length == 5)
{
alert(‘Ja pode listar os nomes que inseriu’);
listarBtn.disabled = “”;
}
}

// JavaScript Document
var nomes = new Array();var listarBtn;var inserirBtn;var list;
window.onload = init;
function init(){ listarBtn = document.getElementById(‘listarBtn’); inserirBtn = document.getElementById(‘inserirBtn’); list = document.getElementById(‘listagem’); listarBtn.onclick = listarHandler; inserirBtn.onclick = inserirHandler; listarBtn.disabled = “disabled”;}
function listarHandler(){ list.innerHTML = “”; for(var i = 0; i < nomes.length; i++) { list.innerHTML += nomes[i] + ‘<br />’; }}
function inserirHandler(){ var nome = prompt(“Insira um nome por favor: “, “<o seu nome aqui>”); nomes.push(nome); if(nomes.length == 5) { alert(‘Ja pode listar os nomes que inseriu’); listarBtn.disabled = “”; }}

Aos 41 anos olho-me no espelho e descubro que sou uma espécie de polímato — ou melhor, uma pessoa com problemas.