É o mundo ao contrário.
Estou muito chocado. Então não é que o João Pinto e Castro, um homem que sempre tive por sensato, se pôs a criticar o nosso Partido Socialista? De um dia para o outro, confessa-nos que uma boa parte das políticas económicas do Governo é desastrosa, que este possui uma visão saloia da modernidade e do avanço tecnológico, que o PS promove incompetentes e arrivistas medíocres a cargos de responsabilidade na política, nos negócios e nos media — terá apanhado sol na moleirinha?
Ainda assim, valha a verdade, não deixou de reconhecer publicamente o trabalho notável do senhor primeiro-ministro. E claro, cerra fileiras contra o cadáver putrefacto do PSD, tentando salvar o estado de Direito e o nosso viver colectivo.
Quem não está para isso é o Pedro Lomba, que neste artigo do Público manifesta um grave desrespeito pelo merítíssimo presidente do Supremo Tribunal de Justiça e pela lei das escutas do PS, feita para proteger o viver colectivo das nossas elites políticas.
Você devia ter vergonha, Pedro. Não nos diga que também votou no cadáver.
A defesa de Sócrates é aquilo de que a casa (Jugular, entenda-se) gasta, e não me choca. Cada qual defende os seus; concorde eu ou não, e não concordo, é assim desde que o mundo é mundo.
O Estado de Direito, porém, é também aquilo que os cidadãos fazem dele. Os cidadãos portugueses saem à rua aos milhares para se manifestarem contra um processo de avaliação (não estou a dizer se concordo ou não; apenas exemplifico), mas comem calados a corrupção e o nepotismo que lhes entra pela casa dentro à hora de jantar como se fosse um acepipe. Os que lutaram, como o ex-deputado socialista Cravinho, foram “corrompidos” com um emprego de luxo em Londres. (Não queria também o Luís um desses? Eu queria.) Mas voltemos aos cidadãos comuns. Também não ficaram particularmente chocados com certas prioridades na vacinação contra o h1n1; se ficaram, mais uma vez comeram e calaram. O “nosso viver colectivo”? Este? Vá ele com o raio que o parta.
(E gente como o Manuel Godinho, a quem a imprensa se refere sempre por “o sucateiro” – o correcto seria empresário, penso eu -, não é em nada pior do que os “lordes” da Opus Dei ou da Maçonaria que mandam neste país. Aliás, eles acabam por comprar estas supostas elites, em cash, como quem compra uma caixa de puros cubanos. Alguns até saem mais em conta.)
Carlos Azevedo
12-11-09 em 14:36
Não concordo com a sua avaliação de Cravinho, Carlos. De resto, estamos em sintonia.
Luis M. Jorge
12-11-09 em 14:50
No que se refere a Cravinho, coloquei a palavra “corrompido” entre aspas, porque evidentemente não me referia ao sentido jurídico de corrupção. Contudo, acho que aqueles que têm uma causa a defender, e sempre me pareceu que aquela era uma causa prioritária para Cravinho, não desistem dela em favor de um exílio dourado. Ficam e lutam, no Parlamento e/ou fora dele. Há muitos meios, como o Luís certamente saberá bem melhor do que eu. No final, Cravinho até podia não conseguir nada, mas não desistia sem lutar, caraças.
(No limite, ia e continuava a lutar pela sua dama. Seria difícil? Com certeza. E então? A dificuldade é desculpa?)
Carlos Azevedo
12-11-09 em 16:46
É isso mesmo Carlos. Tenho a garganta seca de o repetir.
Corrupçao é coisa encarada colectivamente com naturalidade em Portugal. A semente está na mentalidade de cada português, que nao hesita, nem se envergonha, quando se socorre da cunha, das segundas vias. Pelo contrário, é considerado um tipo desenrascado pelos seus patrícios. Mais do que ser normal, a corrupçao é estrutural e afectiva. Já é quase identitária; nao sabemos ser de outra forma. Noutros países, uma simples – só um português para a apodar de “simples” – cunha é fonte de profunda vergonha e desprezo social.
André Pinto
12-11-09 em 17:21
Cravinho continuou a manifestar-se sobre o assunto, o que fez com ânimo, sempre que pode. Julgo que ninguém lhe pode exigir mais que isso (principalmente quando se exige tão pouco a quem nada diz sobre o assunto).
Luis M. Jorge
12-11-09 em 17:44
Caros todos,
efectivamente o português é, “por natureza” muita coisa má: espertalhão, mesquinho, acomodado, etc, e como tal “só tem aquilo que merece (que escolheu)”.
Antes do mais é de salutar a vulgar generalização blogista, onde quem adjectiva está-se assim a “empacotar”, apesar da absoluta certeza de que é diferente dos demais – um exemplo. Assim somos todos também exemplares. Portanto filhos da puta enquanto filhos da santa.
Do muito que se chama a esse povo, estúpido e acomodado é das que mais aprecio. Só não percebo é como é que tanta gente inteligente e capaz tem a ousadia de impoutar incompetência a um estúpido. Se é estúpido é incompetente e manipulável, logo quem espera que dali venha algo espera mal. Assim não percebo o porquê de tanta espera relativamente a esse povo quando tantos são os notáveis influentes inteligentes neste país.
Quando o Carlos se choca com esse que povo vem para a rua contestar a política de educação e não a corrupção eu pergunto: o que é que o olho do cu tem a ver com a feira de são mamede?
Esta tristeza a que se assiste no nosso país tem a culpa de muita gente mas não do povo. Têm culpa todos aqueles que de alguma forma têm alguma influência ou visibilidade e que quando se deviam ter mexido e denunciado se refrearam com receio de perder a almofadinha; são aqueles que vão dizendo “eu bem disse” e os que vêm afirmar que “sabem muito quem mas não podem dizer mais”.
Por favor dobrem a língua porque o povo tem as costas largas e é estúpido mas não é bombeiro, antes fosse. O mal deste país é o eterno provincianismo das várias elites deste país. Leia-se Eça e outros e percebe-se que o problema subsiste.
Quando se cospe para o ar tb nos cai em cima.
Que tal se os notáveis conscientes deste país perdessem o amor à almofadinha e fossem homens uma vez na vida – como o Cravinho tem sido sempre que pode. Viessem mais como ele.
Cumprimentos a todos
Pedro
Pedro
12-11-09 em 20:10
No que me diz respeito: não me choco com o povo que vem para a rua contestar a política da educação, porque não só não sou tolinho, como não me choco com pouco. Aliás, nem manifestei a minha opinião quanto ao que estava em causa nessas manifestações. Apenas pretendi dizer que as pessoas manifestam-se mais facilmente quando lhes querem mexer na carteirinha do que quando o Estado está claramente a saque ou quando prejudicam os seus filhotes no acesso à saúde. Estão no direito delas, claro. Como eu estou no direito de me exprimir em relação a essas, chamemos-lhes assim, prioridades.
Quanto ao conceito de povo, incluo-me nele. E sei muito bem que o povo inclui de tudo: bom, mau e assim-assim.
A frase «Que tal se os notáveis conscientes deste país perdessem o amor à almofadinha e fossem homens uma vez na vida – como o Cravinho tem sido sempre que pode.» morde-se a si mesma. Sempre que pode? É como dizer que o Manuel Godinho foi honesto sempre que pôde.
Carlos Azevedo
13-11-09 em 00:06
“O mal deste país é o eterno provincianismo das várias elites deste país. Leia-se Eça e outros e percebe-se que o problema subsiste.”
De acordo, quanto às elites. Já citar o Eça, o mais provinciano dos nossos grandes escritores – “(…) a França chega de comboio.” – como exemplo de diagnóstico do provincianismo português, parece-me irrisório. A forma como as elites intelectuais incesam o Eça é, em si, signo de provincianismo.
Diga antes “leia-se Pessoa”, que pôs de facto o dedo na ferida do provincianismo luso, Eça incluído.
André Pinto
13-11-09 em 01:09
Caro André,
Seja então Pessoa e seja talvez aquele Eça tardio, já reconciliado com o povo (e suas tradições), que ele levou tempo a enaltecer.
Caro Carlos,
Concordará comigo se afirmar que sem líder, sem alguém que comande não há manifestações. A dos profs teve os sindicatos na frente; e os movimentos de cidadania têm figuras públicas na frente (ex. Alegre).
O povo (nós) saí à rua quando a motivação é comum, mas mais importante, quando à frente segue alguém “capaz”. O povo não sai por iniciativa própria (não acredito em movimentos espontâneos).
A minha questão leva-me noutro sentido:
Se é quase unânime que caminhamos para o abismo e que as nossas instituições caminham para o descrédito absoluto, como algumas entidades e figuras o têm demonstrado, como é possível ainda não ter travado isto?
Porque o povo já não sabe no que acreditar: por um lado temos um sr. engenheiro muito bem parecido, um homem bonito e firme que querem desacreditar, por outro, temos bastantes notáveis da finança a fazer a “apologia da desgraça”. Para quem está de fora parece que este país virou um galinheiro onde largaram alguns galos. Mas qual deles é afinal mais legítimo?
Peço desculpa se no post anterior fui agressivo mas o peito por vezes escarra quando o país começa a parecer uma latrina romana.
Cumprimentos
Pedro
Pedro Gama
13-11-09 em 09:39
Não acho que tenha sido agressivo, Pedro. Portanto, não há pelo que pedir desculpas.
Eu acredito que as pessoas, quando querem e lhes interessa, se manifestam espontaneamente. Ou, pelo menos, providenciam rapidamente um líder para seguir. Os lideres, as mais das vezes, limitam-se a detectar os sinais e dar-lhes seguimento. Acha que os professores, mesmo sem sindicatos, não se tinham organizado e manifestado? Com certeza que sim. (E lamento voltar a este exemplo, mas é o mais recente e paradigmático do que pretendo dizer.)
Eu acho que o povo, no fundo, sabe que algo se passa. E eu nem subscrevo o ditado popular que diz que “não há fumo sem fogo”, mas, convenhamos, tanto fumo sem qualquer fogo começa a ser inverosímil até para a mais cândida das almas. E não me refiro concretamente a Sócrates. Culpá-lo exclusivamente seria cair mais uma vez no mesmo erro, ou seja, arranjar um bode expiatório para uma responsabilidade que é de muitos.
Viu a conversa, mediada pela imprensa, entre o Presidente do STJ e o Procurador-geral da República? Acha que aquilo é admissível num país civilizado, que se diz do Primeiro Mundo? Gente com responsabilidades de topo no Estado de Direito, e com as regalias e privilégios inerentes, a comportar-se como comadres de bairro desavindas. É a total falta de sentido, não só de Estado, mas de tudo.
Carlos Azevedo
13-11-09 em 10:37
Ao Luís M. Jorge: desculpe, mais uma uma vez, abusar do seu espaço. Abancamo-nos como se isto fosse tudo nosso.
Carlos Azevedo
13-11-09 em 10:40
Ora essa, eu até gosto. Anima o blog.
Luis M. Jorge
13-11-09 em 10:42
Caro carlos,
é à conta do que tenho visto que me apetece escarrar constantemente.
Do mal o menos, venham a música e os livros.
Caro Luís,
obrigado pelo blog – que descobri faz pouco tempo.
att
Pedro Gama
13-11-09 em 11:32
Mi blog es su casa.
Luis M. Jorge
13-11-09 em 11:59
Venham eles, Pedro. Pelo menos, para ajudar à manutenção da serenidade que sobra, referida pelo Luís 2 posts acima.
Carlos Azevedo
13-11-09 em 12:19
Não foi Napoleão que disse algo como “dêm-me um exército de soldados portugueses e conquistarei o mundo, mas, se me derem um exército comandado por generais portugueses, até a França perderei.”?
Ora essa Pedro, não tem que pedir desculpa por escrever com paixão.
Caro Luís, hoje que é feriado do santo da Universidade (!!!) deixo-lhe aqui a receita do dia:
Cogumelos rechados de farinheira
Corte o pé, deixando aberta a cavidade na campânula dos cogumelos género boletus (ou parecido, se não estiver para gastar tanto dinheiro) e guarde o que cortou. Pique em pedaços fininhos os pés que extraiu e disponha as campânulas em fiadas numa bandeja, ou pirex.
Numa frigideira, refogue, em azeite, alho picado, e frite um pouco os pés dos cogumelos, que antes picou. Dê um golpe longitudinal na farinheira e deitei lá para dentro o seu recheio. Eu gosto de adicionar hortelâ fresca, mas isso fica ao seu critério. Vá mexendo até isso estar tudo cozinhado.
Com uma colher de chá (ou como quiser, mãos incluídas) recheie as campânulas de cogumelos que já tem na travessa. Cubra com um queijo que funda bem e ponha no forno a gratinar. Entretanto as campânulas assam.
Eu gosto de acompanhar com salada de rúcula, mas, caso esteja esfomeado, o arroz branco também vai bem. E pinga encorpada.
André Pinto
13-11-09 em 12:48
Isso parece muito interessante. Mas como se processa a farinheira? Abre-se e deita-se na frigideira para junto dos cogumelos? Essa parte não percebi.
Obrigado pela dica.
Luis M. Jorge
13-11-09 em 15:02
Para além dos livros e dos discos, cozinhar também não parece mau para ajudar à tão desejada serenidade.
Já agora, perdoem a eventual estupidez de um leigo nas andanças da culinária, mas um pouco de pimento no refogado ficaria mal? Apetece-me experimentar, mas eu tenho tendência a pôr pimento, sobretudo vermelho, em tudo.
Carlos Azevedo
13-11-09 em 15:09
Neste caso não punha. A farinheira e os cogumelos, especialmente se forem boletos, são intensos. O que diz o André?
Luis M. Jorge
13-11-09 em 15:37
Caros,
desculpem a intromissão mas já tenho a mesa posta, o Miles a soprar no aparelho e o Keegan ao lado a debitar histórias de guerra. Só preciso que me informem de uma ou duas pingas encorpadas que liguem com repasto.
grato
Pedro
13-11-09 em 15:37
Quanto quer gastar?
Luis M. Jorge
13-11-09 em 15:40
à volta dos 20. mas se se quiser esticar mais diga que eu aponto.
Pedro
13-11-09 em 15:44
Por esse preço já deve chegar ao Dolium. Se quiser boa relação qualidade/preço peça conselho na garrafeira sobre uns ribatejanos de topo — fiz boas descobertas este ano, e é onde vou continuar a apostar. Explique o que vai comer, é assim que eu faço.
Luis M. Jorge
13-11-09 em 16:03
Ok. Obrigado Luis. Que sejam então ribatejanos.
Pedro
13-11-09 em 16:07
Sim, Luís. Faz-se um golpe ao comprido, na pele, e deita-se o recheio da farinheira para a frigideira, onde já está refogando o alho e os pés dos cogumelos picadinhos.
Carlos, com certeza, que pode compor o recheio como entender. Tenha em conta que a cavidade das campânulas é pequena e não conseguirá picar o pimento de tal forma fino, que não domine o recheio. A não ser que consiga ralar o pimento…
Esta receita tem muitas variações, em que o recheio de pé, alho e outro ingrediente são a nota comum. A minha mãe experimentou uma vez com caranguejo e também ficou excelente. Para o tempo invernoso, gosto da combinação do sabor terroso dos cogumelos, com o fumo das farinheiras.
André Pinto
13-11-09 em 15:46
Ok, muito obrigado. Uma excelente receita de outono, parece-me.
Luis M. Jorge
13-11-09 em 15:55
Sim, Luís, os pimentos são demasiado fortes para o recheio.
Mas, se o Carlos gosta tanto de pimentos, procure pela internet a receita de “Pimientos Rellenos de Bonito”. Vai gostar e não é difícil. Se realmente é grande apreciador do legume, tente a versão com pimentos “del piquillo”.
André Pinto
13-11-09 em 16:11
Com bonito já experimentei; a outra é que não. Vou procurar. Gracias.
Carlos Azevedo
13-11-09 em 16:50
Obrigado a ambos.
Já que não há consenso, vou experimentar de duas maneiras: sem pimento e com pimento o mais ralado possível. Logo se vê o resultado.
Pinga encorpada parece-me bem.
Para acompanhar, e dado o carácter outonal da receita, sugiro Norma Waterson, “The Very Thought of You” (passe a publicidade: http://thecatscats.blogspot.com/2009/10/ouvindo-very-thought-of-you-na.html#links).
Carlos Azevedo
13-11-09 em 16:19
boa ideia.
Luis M. Jorge
13-11-09 em 16:32