vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Novembro, 2009

The Road.

Demorei a ler esta novela de Cormac McCarthy, porque a sinopse me recordava In the Country of Last Things. Foi um erro. O calhamaço de Auster é entediante e inverosímil, a distopia romântica de uma coqueluche da Ivy League — enquanto o livro de McCarthy pertence à alta literatura. The Road não serve para fazer suspirar colegiais: o plot é escasso, a construção subtil, o estilo descarnado com breves precipitações poéticas — e o enlace das duas personagens, nunca nomeadas, a sua oscilação entre a inocência e a experiência perduram na memória do leitor. Não tenho jeito para papaguear sobre livros, embora admire quem tenha. Mas leiam-no.

…………………………………………….

Comentário em destaque:  AMC

É uma obra-prima do escritor-recluso. Aliás, em toda a sua bibliografia é difícil encontrar um ponto fraco. Escrevi, em Junho de 2007, este pequeno texto sobre esta obra de McCarthy.
Porém, Luís, discordo da análise de No País das Últimas Coisas. Joga no mesmo campeonato de A Estrada, das “Grandes Distopias”, mas distancia-se daquela na difusa fronteira bem austeriana, o fio da navalha, ou se quisermos, o limbo, entre a consciência e os impulsos oníricos de uma das mais célebres personagens de Auster, Anne Blume.
Em relação a A Estrada consigo encontrar mais pontos de contacto com Órix e Crex de M. Atwood e A Possibilidade de uma Ilha de Houellebecq. São ambas, tal como as 2 anteriores, de um fôlego literário ímpar.

Leituras em atraso.

A Ana Matos Pires fez um link para estes textos sobre “psicopatas socialmente adaptados“. Em que é que eu pensei logo? Ah, as implicações políticas

2017.

O presidente da União Europeia lamentou o impasse do encontro de emergência de Potsdam, em que a Escandinávia, a Alemanha e a Grã-Bretanha exigiram que as economias do Leste e da Europa do Sul fossem excluídas da moeda única. Este momento de incerteza na vida das instituições europeias foi recebido com indiferença em Portugal, a braços com o rescaldo das legislativas.

Numa entrevista ao Diário de Notícias, Pedro Passos Coelho comprometeu-se a reforçar a cooperação estratégica entre o seu partido e o Governo de José Sócrates, invocando os inúmeros sucessos da última legislatura.  Fontes anónimas garantiram-nos que o social-democrata Ângelo Correia será o novo presidente do Conselho de Administração da EDP, enquanto Miguel Relvas ocupará funções idênticas na REN.

Os dados recentes sobre o agravamento do défice das contas públicas e do saldo negativo da balança de transacções correntes, bem como a confirmação do crescimento da taxa de desemprego para 18,3 por cento não desencorajam o primeiro-ministro,  que se mostra determinado e confiante no rumo que traçou para o país. Atribuindo os maus resultados pontuais à persistência da crise internacional, José Sócrates recordou que está previsto um crescimento de 0.2 por cento do PIB em 2018, uma consequência evidente das iniciativas encetadas pelo Governo.

É verdade que há sinais de vitalidade na economia portuguesa. O presidente da Sonae, Armando Vara, anunciou a edificação do maior centro comercial da Península Ibérica, que servirá as populações de Vinhais, da Sobreira de Baixo e do Parque Natural de Montesinhos. Também o governador do Banco de Portugal, José Lello, declarou ontem a sua confiança no efeito multiplicador dos novos investimentos públicos, como a construção do aeroporto internacional de Castelo Branco, outorgada à Mota-Engil.

A reforma da justiça continua a obter resultados. Esta semana a polícia judiciária efectuou buscas nas residências de quatro juízes desembargadores e de seis magistrados do Ministério Público, em conformidade com o mandato do senhor presidente do Supremo Tribunal de Justiça — o meritíssimo Lopes da Mota. O ministro dos assuntos parlamentares, João Galamba, congratulou-se com mais uma vitória do Estado de Direito contra a insídia da espionagem política.  Os quinze jornalistas recentemente acusados de calúnia e ofensa agravada ao bom nome do primeiro-ministro foram condenados em processo sumário a penas que variam entre os 14 e os 24 anos de prisão efectiva.

Hoje a Assembleia da República votará mais um orçamento redistributivo e a proibição de símbolos católicos em lugares de culto — uma medida há muito exigida pelos blogs da maioria. Para a próxima semana está agendada a discussão da proposta de lei que visa uniformizar os títulos das bibliotecas universitárias, sujeitando as novas aquisições à aprovação prévia de uma entidade reguladora.

O primeiro-ministro afirmou que a proposta segue as melhores práticas em vigor nos países desenvolvidos, acusando os profetas da desgraça e os bota-abaixistas que persistem em obstaculizar os esforços reformadores do seu governo. Não terão sucesso, concluiu. Portugal está no bom caminho.

Os anos transformam tudo em elegia.