Meu reino por umas favas.
por Luis M. Jorge
O país está repleto de artolas para quem aquilo que temos de bom é invariavelmente o melhor do mundo. As nossas praias são as melhores do mundo. Os nossos vinhos são os melhores do mundo. Lisboa é a mais bela cidade do mundo (e o que diriam se a Câmara limpasse de vez em quando a bosta acumulada nos jardins e multasse os automóveis que assoberbam os passeios).
Como é evidente, também os florilégios das nossas cozinheiras formam aos olhos dessa gente a melhor gastronomia do mundo. Que os chineses, os franceses, os italianos, os japoneses, os peruanos, os mexicanos, os marroquinos, os tailandeses e os indonésios lhes perdoem, a esses patêgos que arrotam postas de pescada de pulseirinha na água choca em Cancun e Varadero, porque eu não consigo.
Se temos a melhor cozinha do mundo, porque é que ainda não comi umas favas decentes desde que regressei a Lisboa? Umas favas, senhores: não são lombos de cavalo-marinho com redução de beluga em cama de línguas de colibri das montanhas rochosas e aipo-bola flambeado. São favas, caralho.
É assim tão difícil, para os génios que pontificam nos nossos tascos, servir umas favas que se traguem: feitas com enchidos das berças, com molho apurado, com um pouco de amor? Será que tenho de ir comer favas ao Pap’Açorda?
Favas com molho apurado e com amor, ainda por cima? Só na casa das nossas mãezinhas, que são as melhores do mundo.
Tasca, tasca boa, é a Adega dos Lombinhos. Rua dos Douradores. Vai gostar. É tudo bom, até os peixinhos da horta.
Faltou-lhe dizer uma coisa: as nossas são as melhores coisas do mundo, quando confrontados com um estrangeiro. Entre nós é insultuoso dizer semelhantes coisas. É preciso sofrer-se esta merda…. se eu digo a um amigo que não acho que Portugal seja organicamente mau, dizem-me logo que isso é porque sou um poltrão que beneficia das maravilhas do estrangeiro.
Vou experimentar, obrigado pela dica.
Pode comê-las facilmente em Trás-os-Montes e no Douro. Claro que os restaurantes de que falo não têm a sofisticação (nem os preços) do Pap’Açorda!
Sou um leitor assíduo e divertido deste blogue.
Por isso permito-me exprimir-lhe a minha perplexidade pela ingenuidade, vinda de alguém com tanto “mundo”.
Pressinto no entanto, que esse seja o eterno problema dos “gourmets” citadinos: desconhecem alguns elementares fenómenos da natureza, como por exemplo os ciclos das plantas.
Estamos de acordo que vivemos num pardieiro apinhado de chauvinistas, mas a resposta à sua inquietação é bem mais prosaica e talvez possa encontrá-la em almanaques como o “Borda d’água” ou o “Seringador”.
Em caso de incursão ao “Pap’Açorda” antes de Janeiro ou Fevereiro, atrevo-me a avisá-lo que se arrisca fortemente a que lhas sirvam congeladas.
Tem a certeza? Eu era capaz de jurar que era agora. Penitencio-me com humildade.
Eu, congeladas, também não consigo comer. Favas crocantes não são o meu género
Fernando, o ciclo de vida das plantas está muito sobrevalorizado para este efeito. O Borda d’Água manda semear e colher, não manda comer. Faça-se a congelação bem feita, e esteja o molho bem puxadinho, nem o Fernando conseguiria distinguir a coisa. O amor pode tudo.
Estou a antecipar uma polémica. Para mim, Outono é tempo de favas. E para mim o outono começa agora, quer o Borda D’água queira quer não queira.
Esta é fácil:
Espaço Açores, na Ajuda. Umas favas d´unha daqui! (apertar o lóbulo)
Ok, fica o recado.
Favas fresca só entre Março e Junho.
Então mas não era em Janeiro? Cum catano, decidam-se.
Já chego tarde à polémica, mas ao que sei, o penúltimo comentador tem razão, Luís, toda a fava portuguesa é primaveril, Luís. Conforme o clima de cada ano, semeiam-se do final do Outono ao final do Inverno. As primeiras costumam aparecer lá por Fevereiro (ou mesmo já em Março). O Borda d’Água (sim, comprei…) deste ano vinha escandalosamente aldrabado – mandava fazer a primeira sementeira em Fevereiro.
[Em pequena detestava favas. Nunca detestei um alimento com tanto vigor. Hoje, não sei bem porquê, gosto daquelas muito pequenas, salteadas em vinagre, com morcela de jeito.]
com morcela de jeito é importante.
Credo, quase lhe gastava o nome, sorry.
Aqui, no Algarve, favas semeiam-se a partir de agora e estão prontas em Fevereiro. Depois apanham-se e comem-se, gulosamente no meu caso, durante uns tempos feitas à maneira algarvia/baixo alentejo: cozidas na panela de pressão e depois regadas com molho de cchouriços vários e fatias fininhas de touchinho. Se quer deliciar-se pode vir até ao Barrocal algarvio que qulquer tasca decente o deixará altamente satisfeito e a pedir “bis”.
Já vi, que tal como eu, não é pitagórico no que diz respeito a favas, pelo contrário. Bem vindo à claque de adeptos.
Já estou com água na boca.
Em minha casa são fantásticas… com morcela de arroz, está claro! uma iguaria que a família já não dispensa.
E eu aqui em Berlim sem saber sequer onde as encontrar congeladas!
Deviam dar um subsídio por causa dos custos de insularidade aos emigrantes.
deixe lá, pelo menos está em Berlim.
Ah, tem graça. Tinha-me esquecido que isso podia ser uma espécie de compensação…
Vão-se as favas, fiquem os berliner.
ich bin ein favein.
Pois meu caro eu durante anos fui como o Jacintinho em Tormes, abominei favas. E agora choro por elas.Mas também e como bom provinciano de origem,frescas eram as do início da Primavera. Estando de serviço e não tendo a receita de cabeça, depois lhe mandarei uma receita da minha Avó paterna, as ditas com molho amarelo. E se gosta de caça de pena, uns pombos-bravos como os fazia a minha Avó Inêz ou umas codornizes à Faustino Antolin. Ai o Outono …
Fico ansiosamente à espera. Não me falhe por favor.
Agradeço as dicas a todos.
No painel de Alcantara, penso que á Sexta Feira.
Aí está uma boa dica.
Veja que, ainda, ninguem se lembra de as comer, às favas, digo, em vagem. Tem que que ser das primeiras, em Fevereiro/Março, ainda tenrinhas.