vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Outubro, 2009

loja-bandeira-1

Ontem à noite. Nikon D700, Zeiss ZF 100 mm Makro-Planar, ISO 560, 1/125 seg.,  f/4.0. As cores ficaram esmaecidas na passagem para o blog, não me perguntem porquê.

E o Galambinha, já foi à pica?

A jornalista de causas Fernanda Câncio encerrou a noite de segunda-feira com esta prosa bem humorada:

às vezes sucede a todos ao mesmo tempo. um dia inteiro sem jugular. é giro.

vá, por favor, teorias de constipação, não se arranja? eu tenho uma para oferecer: fomos todos à vacina.

Mais ou menos a essa hora uma criança de dez anos arrostava a última dor de cabeça da sua curta vida. Durante a madrugada o miúdo desfez-se em merda, com crises de vómitos e diarreia, e foi parar às urgências do hospital D. Estefânia, de onde o transferiram para o serviço de Infecciologia em que viria a morrer nessa mesma tarde.

vá, por favor, teorias de constipação, não se arranja? eu tenho uma para oferecer: fomos todos à vacina.

Sim, eu tenho uma teoria. Após um ano de campanha no blog que administra, uma campanha marcada pelas indignações selectivas e pela adulação inane, mas bem recompensada, dos refluxos do primeiro-ministro,  a Fernanda Câncio antecipou um problema ético maçadoramente real: como justificar a decisão do seu Governo de incluir os titulares dos órgãos de soberania entre os primeiros beneficiários da vacina contra o virus da gripe A?

fomos todos à vacina.

Na América, o Presidente Obama já assegurou ao povo que vai esperar pacientemente pela sua vez. Ou seja, vai ser vacinado depois das crianças americanas, como qualquer adulto saudável. E em Portugal? Por cá, a jornalista de causas Fernanda Câncio, eminência colorida da blogosfera de Sócrates, prefere chutar para o canto, assobiar para o lado e vitimizar-se antes que alguém lhe faça perguntas incómodas. Só é pena que a sua estratégia nos pareça tão destituida de sentido de oportunidade.

é giro.

Pois é, é muito giro. Mas o Adriano, ao contrário dos políticos que a Fernanda Câncio defende, morreu.

Meu reino por umas favas.

O país está repleto de artolas para quem aquilo que temos de bom é invariavelmente o melhor do mundo. As nossas praias são as melhores do mundo. Os nossos vinhos são os melhores do mundo. Lisboa é a mais bela cidade do mundo (e o que diriam se a Câmara limpasse de vez em quando a bosta acumulada nos jardins e multasse os automóveis que assoberbam os passeios).

Como é evidente, também os florilégios das nossas cozinheiras formam aos olhos dessa gente a melhor gastronomia do mundo. Que os chineses, os franceses, os italianos, os japoneses, os peruanos, os mexicanos, os marroquinos, os tailandeses e os indonésios lhes perdoem, a esses patêgos que arrotam postas de pescada de pulseirinha na água choca em Cancun e Varadero, porque eu não consigo.

Se temos a melhor cozinha do mundo, porque é que ainda não comi umas favas decentes   desde que regressei a Lisboa? Umas favas, senhores: não são lombos de cavalo-marinho com redução de beluga em cama de línguas de colibri das montanhas rochosas e aipo-bola flambeado. São favas, caralho.

É assim tão difícil, para os génios que pontificam nos nossos tascos, servir umas favas que se traguem: feitas com enchidos das berças, com molho apurado, com um pouco de amor? Será que tenho de ir comer favas ao Pap’Açorda?

Livros.

Venice: Pure City, de Peter Ackroyd.

NF-Venice-b

Nunca conseguiria ganhar a vida a escrever sobre livros: um terço fica por ler, outro é lido aos solavancos; e entre as obras que sobrevivem à punção nevrótica do meu modus operandi não são raras as que acabam posternadas, magras e exangues num banco de pau ao Jardim da Estrela.

O último livro de Peter Ackroyd, que por enquanto escapa ao golpe de misericórdia, seria um bom candidato a vítima se eu não amasse o assunto e não respeitasse o autor. Venice: Pure City está longe, muito longe de competir com a joie de vivre de J.G.Links, o belo estilo de Jan Morris,  o humor eduardiano de Norwich, a alta literatura de Brodsky ou a atenção fascinada de Matvejevic. Nem vale a pena metermos na lista John Ruskin e Margaret Plant.

Por outro lado, é uma obra que acompanha bem Mary McCarthy, Tiziano Scarpa, Paul MorandLiliana Magrini e a excelente síntese de Diehl. Ou seja, Venice: Pure City nunca será uma introdução indispensável, mas também não despreza a inteligência do leitor (para isso já temos  os pastelões de John Berendt e Freely).

Ackroyd revela-se um homem consciencioso, que estudou as suas fontes. Infelizmente, como afirmou McCarthy, tudo o que podia ser dito sobre Veneza já foi dito, incluindo isto que estamos a dizer. O déjà vu de 400 páginas agora publicado não acrescenta um chavo à vasta bibliografia ou hagiografia venezianas.