O eleitor racional vota em Sócrates.

por Luis M. Jorge

Se o leitor usasse apenas o lado esquerdo do seu cérebro, processaria a informação de um modo linear, sequencial, lógico e verbal. Isto é, começaria pelos detalhes para chegar às conclusões. Faria listas e organizaria prioridades. Sintetizaria os cálculos numa linguagem simbólica, talvez recorrendo à matemática. Criaria um discurso articulado e fluente para demonstrar as suas conclusões. 

Convidado a votar, ou melhor, intimado a votar (para o lado esquerdo do cérebro, a adaptação ao meio é uma necessidade — o lado direito prefere modificá-lo), o leitor avaliaria a herança do Governo antes de tomar uma decisão.

A equipa deixou a sua marca no sistema educativo, com o inglês nas escolas e a distribuição de computadores a baixo custo. O programa Novas Oportunidades alargou a formação de adultos. A avaliação dos professores, embora precise de alguns ajustamentos, nunca será pior do que a ausência de uma avaliação. 

A reorganização dos serviços de saúde ficou a meio, mas a nova ministra demonstra tacto e frontalidade no difícil dossier da gripe A. O combate à burocracia é hoje em dia perceptível: a empresa na hora, o cartão único, as reformas no notariado falam por si. O défice foi controlado antes da crise internacional. As prestações sociais cresceram. As obras públicas prosseguem a bom ritmo.  

É verdade que o maior partido da oposição (o lado esquerdo do cérebro manifesta-se assim) disputa a oportunidade do novo aeroporto, das auto-estradas e do TGV. O principal obstáculo é a dívida pública, que não pára de crescer. Mas os apoiantes do Governo defendem que se trata de um investimento, capaz de transformar em clusters vários sectores da nossa economia. 

Na prática, ninguém sabe se a dívida é ou não é incomportável: como dívida, talvez fosse. Mas como investimento, talvez dê frutos que permitam abater a dívida. Em caso de incerteza parece boa ideia investir, mesmo com sacrifício, e ficar com o património. Ou seja, o argumentário do PSD tem um fraco grau de racionalidade. 

As desvantagens de um Governo PS podem ser afastadas com equanimidade. O autoritarismo é muito relativo: ainda estamos em democracia, não estamos? Quanto à corrupção, talvez seja apenas um modo informal de distribuir incentivos pelas elites políticas, tradicionalmente mal pagas. 

No fundo, feitas as contas, o eleitor racional prepara-se para votar em Sócrates.