vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

Month: Agosto, 2009

O verdadeiro culto de Byron.

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Rio-me sempre desta referência ao Childe Harold’s de Byron, que decora uma loja de souvenirs em Sintra. Tecnicamente, é verdade que o poeta romântico chamou à vila um glorious Eden. Mas aqui ficam os versos anteriores da mesma estrofe, para verificarmos o respeito que nutria pelos indígenas: 

Poor, paltry slaves! yet born ‘midst noblest scenes –
Why, Nature, waste thy wonders on such men?
Lo! Cintra’s glorious Eden intervenes
In variegated maze of mount and glen.

E depois ainda o citam. Paltry slaves, indeed.

Marketing. Sim (suspiro), marketing.

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Uma das coisas que me impressionam neste capitalismo primitivo que viceja em Portugal é a relutância das empresas em criarem produtos diferenciados. Um café, quando nasce, é igual aos outros cafés. Um restaurante há-de servir as mesmas pataniscas de bacalhau. Uma decoradora, se já não estiver na sua fase Salavisa, recomendará cadeiras Charles Eames e tecidos Designers  Guild. Um banco falará para a mesma classe média suburbana ou para o mesmo arrivista-da-posta-de-pescada (cartão status, conta golden eye, fundos de investimento excelsior)  que os bancos da concorrência. 

É neste campo que as marcas de luxo nos servem de inspiração. Como diferenciar um champagne, por exemplo? Para o público não especializado trata-se de uma bebida uniformemente cara, que acompanha qualquer coisa e estimula por igual o hipótalamo do belo sexo.

Em alguns casos podemos associar a marca à sua origem —  como ocorre com o Cristal de Louis Roederer, criado para o czar Alexandre II da Rússia em 1876. Noutras situações as marcas criam uma cuvée de prestige que associam a um nome sonante, como o Sir Winston Churchill de Pol Roger. Mas esses nichos de mercado, que impressionam o patêgo, não fazem vender o mais comum dos produtos incomuns. 

A Veuve Clicquot promove o seu champagne com panache há um ror de anos. Muitos defendem que os vitrais da catedral de Reims exibem algumas garrafas da marca. Todos os anos o Veuve Clicquot Award recompensa as senhoras que, tal como a bigoduda viúva do século XVIII, revelam um talento excepcional no mundo dos negócios. A Veuve Clicquot Season associa o produtor a prestigiados eventos da moda, da arte ou dos desportos elegantes.

Em Lisboa, no Jumbo das Amoreiras ou no Corte Inglês, o leitor poderá encontrar um belo exemplo de mestria nesta arte da diferenciação: cada garrafa chega ao seu carrinho envolvida num ice jacket capaz de manter a bebida fresca, fora do frigorífico, durante cerca de duas horas. 

Num país incapaz de criar uma sandes original, as marcas de luxo ensinam-nos a combater a maldição da fungibilidade.

À espera dos bárbaros.

Estava em Veneza quando vi uma burqa pela última vez. Foi no palazzo Grassi, que hoje em dia alberga a colecção Pinault. Aí, por entre centenas de obras de arte ocidentais (muitas delas violentas, ímpias, ou descaradamente pornográficas), passeava-se com toda a civilidade uma família muçulmana. A senhora, a quem só vi os olhos, trajava de negro da cabeça aos pés. 

O Filipe ficou muito alvoroçado com este post do CAA. Parece que está a chegar, valha-nos deus, uma cultura baseada na religião, na hierarquia rígida, na submissão da mulher e da criança, no primado do homem, na repressão sexual. Tudo isto, vejam lá, porque uma rapariga quis nadar com um burquíni em Emerainville, esse farol da ilustração europeia. 

Ainda bem que o CAA fez soar os alarmes: o problema é sério, assegura-nos ele, lá na Arcádia portuense. Os muçulmanos exigem que as piscinas tenham horários especiais só para mulheres. 

Oh, ignominia.

Horários para mulheres? Não podemos fazer concessões a essa escancarada barbárie. Temos que mobilizar-nos. Pelo meu lado, vou já intimar algumas amigas para não frequentarem uma cadeia de ginásios que abriu há pouco em Lisboa. E à prima que tenho a estudar no Japão, suplico daqui com urgência: não viajes nesses comboios, Francisca — mais vale seres apalpada do que perderes o gosto pela liberdade

 


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O fotógrafo Kevin Carter cobriu a grande fome sudanesa de 1993. Quando ia a caminho de um posto de auxílio encontrou uma menina caida no chão. Pouco depois, um abutre pousou a alguns metros. Carter passou cerca de vinte minutos a fotografar a cena, espantou o abutre e ficou por ali, enquanto a criança se afastava. Em 1994, recebeu o Pulitzer. As críticas foram quase imediatas: por que não tinha o fotógrafo ajudado a rapariga, em vez de perder vinte longos minutos a fotografá-la? Em 27 de Julho do mesmo ano, Carter suicidou-se.