Archive for Julho 2009
Sangue.
A guerra santa entre os amigos dos homossexuais e os amigos da Tânia Márisa foi longa, mas parece que a Sofia Loureiro dos Santos ganhou:
Expurguei o texto das cores garridas e das sentenças em caixa alta porque já não há pachorra, no entanto a reflexão é de um bom senso inatacável. O mesmo não podemos dizer das respostas.
Crónicas venezianas (1): Ca’ Favretto.

A residenza d’Epoca San Cassiano, que acolheu este vosso servidor, ergue-se num local tranquilo de Santa Croce com vista para o Canal Grande, muito perto da igreja de San Stae. Ao lado fica o palazzo Corner della Regina; em frente, a Ca’ d’Oro. Os panfletos turísticos designam este edifício por Ca’ Favretto, numa homenagem ao pintor menor que aí habitou em finais do século XIX — mas a sua história remota, quase ignorada, é mais interessante.
O palazzo foi erigido pelos Bragadin, uma das quatro famílias que assinaram o acto fundador da cidade, em 725. O primeiro Doge da república, se esquecermos os dois sancionados por Bizâncio, chamava-se Orso Ipato — o nome da família até ao Séc VIII. Os Bragadin notabilizaram-se em funções diplomáticas e militares: Andrea conquistou o Chipre em 1400, e Marc’ Antonio, Governador de Famagusta em 1571, sucumbiu aos turcos com extraordinário heroismo.
É longa a fama deste homem, que perdeu cem mil soldados no cerco de Lala Mustafa, tornado infame pela chacina de Nicosia. Exausto, o comandante turco propôs a Marc’ Antonio uma rendição honrosa, que poupava as mulheres e as crianças da cidade, e o governador anuiu aliviado. Mas Mustafa não cumpriu a sua parte do acordo, massacrou os cristãos e tentou aliviar Bragadin dos segredos da República, sujeitando-o a duas semanas de laboriosas sevicias.
Marc’ Antonio não disse uma palavra, começou por perder as orelhas e acabou por ficar sem a pele. Esta seria depois curtida, empalhada, exposta no mastro da galera do Almirantado Turco e tratada com desvelo em Constantinopla. A história da sua recuperação dava um romance. Hoje encontra-se num túmulo de SS. Giovanni e Paolo, para edificação dos turistas.
A Ca’ Bragadin-Favreto é um edifício gótico, do Séc. XIV, que guarda ainda traços bizantinos da outra encarnação.

Estava a investigar os workshops leccionados pelo fotógrafo nova-iorquino Jay Maisel (o meu optimismo é indestrutível) quando encontrei um artigo sobre a casinha que ele comprou na Bowery. Vejam o slideshow.

Ah, a dolce vita. Se não fossem os amiguismos blogosféricos punha aqui um ponto de exclamação.
O democrata e o outro.
José Sócrates, ontem à entrada para uma reunião com bloggers afirmou-se partidário de “uma liberdade respeitosa”. Não gosto do conceito. Prefiro o de liberdade responsável. Não é preciso mais.
Alguns dos nossos comentadores políticos acreditam, talvez, que a doutora Joana Amaral Dias foi má, muito má – e que por isso merece apanhar umas nalgadas. Eu compreendo-os.
O Governo é uma “criatura que sabe assustar”? Ora, caro amigo, sei lá eu — pergunte ao deputado Miguel Vale de Almeida.
«É também assim que as “reformas” actuais se impõem: primeiro gera-se o medo do futuro, com previsões catastrofistas matraqueadas todos os dias. Perante o medo as pessoas apenas desejam que não sejam elas as visadas pelas “reformas” e calam-se. Multiplicado por todas as pessoas, esta atitude leva a uma desmoralização generalizada, que redunda numa self-fulfiling prophecy: a ideia de que já ninguém está para isso e de que o mundo é mesmo assim, sem escolhas, sem alternativas, sem sequer se perguntar se é mesmo assim (…) Na Europa, infelizmente, Portugal parece ser um exemplo de vanguarda. Do governo às empresas, passando pelas universidades. Um “bom” político hoje já não é a criatura vagamente populista que promete coisas boas, mesmo que incumpríveis; é antes a criatura que sabe assustar.».
Miguel Vale de Almeida, quando tinha uma visão a-histórica e descontextualizada da sua “coerência”. (Via Ladrões de Bicicletas).
Uma “arrogância que vem da cultura paternalista e hierárquica portuguesa”? Um partido “zangado com as pessoas”? O “polvo do Governo”? Não se preocupe, leitor, é só um futuro deputado do PS a falar dos colegas.
Descanse: o Miguel Vale de Almeida já corrigiu o seu tiro. Ou melhor, corrigiu o nosso — como aliás lhe competia: é que, dentro destas cabeças duras o leitor e eu mantivemos uma ideia a-histórica e descontextualizada de “coerência” além, desafortunadamente, de pensarmos o mundo em caixinhas herméticas transtornadas pela demagogia populista.
Eu, aqui na caixinha, só posso pedir desculpas ao Miguel Vale de Almeida. Em primeiro lugar, por ter cometido o erro de o levar a sério. Em segundo lugar, valha-nos deus, porque concordei com ele.
Mas afinal, o que pensam os candidatos do PS sobre o Governo de Sócrates?
Dizia uma colega minha outro dia, comentando o governo: “Estes tipos parece que estão zangados com as pessoas”. Leia o resto deste artigo »

As listas, e tal.
1. Isto é que é ter sorte: chegamos a Lisboa na segunda-feira e descobrimos que o Sócrates vem nessa mesma tarde ao nosso local de trabalho, com o Paulo Querido e outros vinte bloggers previamente inscritos.
2. Francisco José Viegas explica por que é que a renovação nas listas de candidatos a deputados do PS pode ser mortal para o PSD.
3. Há cerca de um ano delineei o take-over do Bloco de Esquerda pelo PS. A maldição de um blogger, leitores, é que a partir de certa altura já previu quase tudo e o seu contrário.
4. Palavras e expressões que continuam ausentes da blogosfera de Sócrates e de Ferreira Leite: Liscont, contentores, Mário Lino, demissão, Jorge Coelho, corrupção, Alcântara, demissão, tráfico de influências, Dias Loureiro, crime económico, Arlindo de Carvalho, BPN. Vou continuar atento a estas ausências sem qualquer significado aparente.
Ontem em Loulé.
Ouvi Chick Corea e Gary Burton ao ar livre, numa noite de verão perfeita (muito mais agradável do que a sala de concerto deste filme antigo, mas é o que se pode arranjar).
O “estilo”.
Este post do Pedro Rolo Duarte encerra uma boa refutação da tese que enuncia. O Pedro declara que mais vale ter um estilo, mesmo mimético, do que não ter estilo nenhum — lacuna que aplica com modéstia a si próprio. Dessa asserção retira que é melhor escrever como o Alberto Gonçalves, o Vasco Pulido Valente dos pequeninos, do que escrever como o Pedro Rolo Duarte.
Não concordo. Embora reconheça as vantagens do estilo próprio, resolvido, nuancé, prefiro sempre os textos límpidos, não estilizados, a uma caricatura alambicada do prosador da moda. Não se trata de uma opção estética mas de um imperativo moral, porque o estilo que escolhemos é o espelho da nossa integridade.
Claro, podiamos defender que Vasco Pulido Valente copiou Mencken, e que a limpidez de Hazlitt ou Francis Bacon nos transforma em banais imitadores, mas evito as subtilezas: à falta do maradona, ou do Miguel Esteves Cardoso, julgo que não ficamos mal servidos com esta prosa tranquila, gentil, talvez um pouco anónima.

Primeiro conselho para o visitante: saia de São Marcos, depressa.

Esta carranca assombra os turistas que perscrutam a torre de Santa Maria Formosa, e serviu de pretexto a Ruskin para outra catilinária edificante:
A head – huge, inhuman, and monstrous – leering in bestial degradation, too foul to be either pictured or described, or to be beheld for more than an instant; yet let it be endured for more than that instant; for in that head is embodied the type of evil spirit to which Venice was abandoned in the fourth period of her decline; and it is well that we should see and feel the full horror of in on this spot, and know what pestilence it was that came and breathed upon her beauty…
Nunca mais se queixe, leitor, do nosso amável João Gonçalves.
O principio do fim.
O Financial Times de hoje revela que a China vai usar as reservas de moeda estrangeira para apoiar a expansão internacional das suas empresas. Aparentemente, a manobra faz parte de uma estratégia para reduzir o impacto do dólar como moeda de reserva. “Habituem-se”, terá sussurrado o primeiro-ministro Wen Jiabao enquanto se afastava dos malvados repórteres ocidentais.

Além da mulher de Verdade, da política de Verdade, dos colóquios e comícios de Verdade, dos bailaricos saloios, jogos florais, serões Tupperware e tertúlias de canasta de Verdade, o PSD bem podia esforçar-se para alinhavar um programa de verdade a tempo das próximas eleições. Uma página bastava. A alergia ao Sócrates não dá para tudo, e os ex-ministros de Cavaco Silva pincelam com matizes suaves o grosseiro embuste dos contentores de Alcântara.

À falta de melhor ocupação, o Vida Breve contribui para manter Portugal na vanguarda fotográfica do Século XXI.

Para que se mantenha.
Um grupo de almas generosas pegou nas tamanquinhas e fez um blog: o Simplex. Objectivo?
Que o Partido Socialista ganhe as eleições de 27 de Setembro próximo, de preferência com maioria absoluta. Só ele pode contribuir decisivamente para que Portugal se mantenha na vanguarda política do século XXI.
O sublinhado é meu.
Do sofrimento (2).
As pessoas que sofrem têm uma voz mais frágil. Conheci uma mulher obrigada a frequentar a mesma sala de espera a que acompanhara o marido pouco tempo antes. Enquanto aguardávamos a consulta, dizia-me com suavidade que não lhe apetecia muito estar ali. Reparem na ironia: o homem estava morto, ela estaria morta pouco depois, mas não lhe apetecia muito. Como é mais frágil, a voz dos sofredores permanece ignorada. A ela se sobrepõem todos os ruídos do mundo, incluindo as vozes dos outros.

Do sofrimento (1).
O instinto natural leva-nos a ajuizar o sofrimento dos outros: dizemos que alguém está a reagir bem a uma doença ou à morte de um familiar. As revistas cor-de-rosa enchem-se de casos heróicos, da actriz que enfrenta o cancro com coragem, do amputado que não perdeu a alegria de viver. Há algo de imoral nestas avaliações, tantas vezes formuladas por gente incapaz de manter o sangue-frio quando parte uma unha. O sofrimento dos outros está fora do nosso alcance, mas isso não nos impede hierarquizar comportamentos, de esperar dos que sofrem um exemplo, uma olímpica imperturbabilidade. Como se tivéssemos o direito de esperar alguma coisa.


Rica tasca.
Não sou de romarias ao Pap’Açorda. O local é escuro como breu, a criadagem pedante, pouco viril, e a ementa — a que não falta nada — também nunca foi um prodígio de elevação criativa.
Mas ontem petisquei por lá uns peixinhos da horta fritos na hora, com polme delicioso, jantei uma caldeirada suculenta, generosa, que rescendia, e não furtei encómios à mousse mais notável de Lisboa. O Verdelho do Esporão acompanhou com dignidade, sem o brilho de outros verdelhos, e o moscatel de Setúbal, para bom entendedor, bastou.
Fiquei consolado, o que não é dizer pouco, após quinze dias de horrível amesendação veneziana. Já se comeu bem na Sereníssima, corria o Século XIV, mas em seiscentos anos a decadência foi abrupta. Hoje é um buraco negro e fundo e doloroso, em que brilha fugazmente a cantina do senhor Giuseppe Cipriani.

Seria um crime não recomendar o Veneza de Jan Morris, recentemente editado pela Tinta da China. E, já agora, esta magnífica recensão.
O mito da “governabilidade” (1).
A campanha eleitoral vai glosar até ao infinito o já estafado tema da governabilidade, tal como é vista pelo PS.
Ora, é compreensível que o pessoal político e meia-dúzia de grandes empresas patrocinem maiorias absolutas ou, em desespero de causa, a formação de um bloco central. Se o leitor fizesse assessoria a um ministro ou suspirasse pela outorga de uma empreitada, também não gostava que a plebe ignara lhe estragasse os planos quinquenais.
Mas os inventores do expediente protestam, com abnegação, que só querem o bem do país. Num certo sentido, isto é verdade: a raposa, à beira do galinheiro, não deseja a morte do lavrador. O talhante, quando esposteja um lombo, não quer que acabem as vacas.
O problema é que, prolongando a metáfora, a conquista da governabilidade se transformou na arte de deixar as raposas à solta no quintal. As vantagens de um Executivo estável sucumbem à sujeição abjecta aos abusos dos seus titulares.
A governabilidade é o mais nefasto mito da nossa vida política, e uma ameaça grave à qualidade da democracia. Vale a pena demonstrar esta asserção em ocasiões futuras.
O umbigo do cozinheiro, e notas soltas.
- Há algum tempo o chef José Avillez, do Tavares, concedeu uma entrevista ao Semanário Económico. Por falta de espaço esse depoimento foi encurtado. A versão integral está agora disponível no Mesa Marcada, o novo blog de Duarte Calvão, Miguel Pires e Rui Falcão, que leio todos os dias.
- Entretanto, o Francisco José Viegas voltou. Leia o resto deste artigo »

A pequena Serenela queria uns óculos escuros da Prada, mas o papá mimoseou-a com a encíclica Caritas in Veritate, de Bento XVI (o Galambinha teria gostado).
Não é difícil conceber reportagens fotográficas quando se frequenta a nossa blogosfera. Tudo o que aprendi, devo-o ao banquinho do Jardim de Santo Amaro, do Abrupto, e à excelente rubrica Lugares de Encanto do deputado europeu Vital Moreira.

Fora de Lisboa há locais quase desertos, com uma extraordinária abundância de crepúsculos.

A Ria Formosa. É difícil comprender o que leva tantos compatriotas a viajarem para o estrangeiro antes de conhecerem o nosso belo Portugal.

Não há dúvidas, leitores: o Photoshop faz milagres. Num ápice, esta igrejinha dos arredores da Bobadela adquire uma dignidade majestosa que evoca brevemente a basílica paladiana de San Giorgio Maggiore.

Sim, sim, ainda cá estou. Uma vaga de fundo exigiu o meu regresso à blogosfera — à qual acedi, enfim, com enorme sacríficio da vida pessoal, da família, etc. Mas a Pátria ditosa merece-nos todas as renúncias. Aqui deixo, para recreio dos leitores, esta imagem de um local em que passei duas semanas há pouco, longe do meu berço, em mais um exemplo de estimável abnegação.
O Governo vai encomendar vacinas da gripe A para 30% dos portugueses. É demais. Após a divulgação dos resultados das eleições europeias, 26% seriam suficientes.
