A caldeira.
Tenho a casa gelada desde segunda-feira. O aquecimento central não funciona e aqueço água em panelas que despejo a fumegar na banheira, como faziam as nossas bisavós. As súplicas ao representante da marca de caldeiras a gás resultaram numa visita breve hoje à tarde. O homem esquartejou a máquina e, num aceno melancólico, lamentou a minha sorte: o manómetro, ou o lá o que é, está condenado. Oh, ignominia. A coisa teve direito a demonstração meticulosa, com retórica floreada: está a ver ali, e tal, a àgua, e tal, e o ar, e tal, e ósdepois pimbas. Entretanto exigia-me escadotes, aspiradores com o bico de pato, espaço para trabalhar. Ao fim de meia hora fez-me pagar deslocação (30 euros) e uma hora de serviço (20 euros). Com o IVA, ofereci-lhe um jantarinho no Baena.
Amanhã diz que telefona a dar-me um orçamento. Sim, um orçamento. Depois há que fazer a encomenda, que vem de Espanha. Ele explicou-me pacientemente as subtilezas do processo: as peças demoram um ou dois dias a transportar, mas a firma só faz encomendas de quinze em quinze dias, para poupar trabalho no despacho. Por fim pegou com ares de aristocrata no dinheiro que eu lhe entregava e saiu para a tarde amena e agradável, deixando-me aqui sozinho. No frio.
Tudo certo, apenas um senão:
“as peças demoram um ou dois dias a transportar, mas a firma só faz encomendas de quinze em quinze dias, para poupar trabalho no despacho.”
Aqui ele perde a comissão. No lugar dele encomendar, diz a si o nome e referencia da peça. Com a ref. encontra na Internet o fabricante. Você encomenda à Espanha. A resposta dele e as razões que apresenta não têm cabimento. Você é o cliente, a empresa é que tem de se adaptar para que não sinta frio. Se quiserem negócio.
A deslocação está bem, a €3,9 /km não está mal. Acho que já é mais, até.
GL
22-01-09 em 19:54
Corrigindo: afinal está mal: €0,39/km. Vc foi roubado. A menos que ele tenha vindo de Loures.
GL
22-01-09 em 19:57
tá bem, tá.
Luis M. Jorge
22-01-09 em 20:35
Eu estou a pensar se digo alguma coisa, se fico calada – a atitude mais decente, neste caso. Ó Luís, desculpe!
Em momentos destes (é nestes, e é quando falam das Finanças…) sei porque é que continuo a viver na Alemanha e me sinto aqui tão bem. É que não é só o desconforto: é o que uma pessoa se desgasta a fazer a gestão deste tipo de crises intermináveis.
Para já, estou habituada a pagar depois de o problema ter sido resolvido. Enquanto a caldeira não estiver a funcionar, não há nada para ninguém.
(Outro dia veio aqui um electricista tentar consertar o meu frigorífico. Olhou para a máquina, fez-lhe umas fosquinhas, e disse: ó minha senhora, compre um frigorífico a sério em vez de gastar dinheiro a tentar consertar esta anedota. E foi-se embora sem pedir um cêntimo. Pensando bem, já me aconteceu isto com um mecânico de automóveis nos EUA.)
Depois fico a pensar que os portugueses têm fama de desenrascados, mas se desenrascanço é isso, prefiro a organização…
Finalmente, ocorre-me: porque é que ninguém cria uma empresa que ofereça realmente bons serviços? Que ganhe fama no mercado por ser capaz de resolver os problemas no próprio dia em que ocorrem? Estou a pedir muito? Não sei – noutros países, não é pedir muito.
Pós-finalmente: se faltasse o aquecimento na casa que eu arrendei a terceiros, os meus inquilinos iam morar para o hotel até o problema estar resolvido, e mandavam-me a conta. Também é verdade que a renda de casa que eles pagam lhes dá o direito moral de exigir que o aquecimento funcione sempre. Estou a falar da Alemanha, claro.
A verdade é que me ponho a falar disto, e é só pontas por onde se lhe pegue, e todas vão dar a nós górdios…
Alguns exemplos de como a vida pode ser bem mais fácil:
O prédio onde moro é velho, e já tivemos duas vezes rebentamento de canos. É claro que não demora nem meia hora entre o telefonema a avisar que alguma coisa está a correr mal e a chegada do canalizador. Mal o canalizador acaba, é questão de horas até vir o pedreiro fechar a parede. E outra vez questão de horas até vir o pintor.
Ou, bem mais importante: entre a descoberta de um “nó” na mama e a operação, se necessária, não vai mais que uma semana. Nos hospitais públicos.
Helena
23-01-09 em 14:13
Como a compreendo.
Luis M. Jorge
23-01-09 em 14:49
“Para já, estou habituada a pagar depois de o problema ter sido resolvido. Enquanto a caldeira não estiver a funcionar, não há nada para ninguém.”
Ora, nem mais.
Para isso nem é preciso estar na Alemanha, também faço o mesmo cá em PT.
GL
23-01-09 em 17:53