Archive for Janeiro 2009
Vida breve.
Caros amigos,
Em breve chegará ao seu termo a horripilante sucessão de eventos a que chamei a minha vida nos últimos três anos. Tudo indica que este final de década, possivelmente trágico para o mundo, venha a ser de reconforto e prosperidade para mim.
Não vou narrar a história destes tempos sombrios, porque o esforço me obrigaria a remexer na memória dos que ficaram pelo caminho e a dilacerar a intimidade de quem lhes sobreviveu em condições bem mais frágeis do que podem imaginar.
Será um tempo de alívio mas não de felicidade, pois transporto ainda a mágoa e o estertor de uma ou duas ilusões que alimentei. Podemos ser prósperos em agonia? Podemos. Baixamos a cabeça e seguimos em frente — muito tristes, nem sempre muito sábios.
A vossa companhia foi preciosa durante estes anos em que fiquei preso em Lisboa como os heréticos de Dante nos seus túmulos em chamas. O blog foi um casulo, um recreio, um lenitivo. Agora, preciso de reencontrar noutro espaço as forças que ainda guardo em mim. Talvez volte, talvez não. Sei que vou ter saudades.
O meu email:
luismjorge@gmail.com

A polícia de sua majestade tenta impedir que José Sócrates vença as próximas eleições.
A caldeira.
Tenho a casa gelada desde segunda-feira. O aquecimento central não funciona e aqueço água em panelas que despejo a fumegar na banheira, como faziam as nossas bisavós. As súplicas ao representante da marca de caldeiras a gás resultaram numa visita breve hoje à tarde. O homem esquartejou a máquina e, num aceno melancólico, lamentou a minha sorte: o manómetro, ou o lá o que é, está condenado. Oh, ignominia. A coisa teve direito a demonstração meticulosa, com retórica floreada: está a ver ali, e tal, a àgua, e tal, e o ar, e tal, e ósdepois pimbas. Entretanto exigia-me escadotes, aspiradores com o bico de pato, espaço para trabalhar. Ao fim de meia hora fez-me pagar deslocação (30 euros) e uma hora de serviço (20 euros). Com o IVA, ofereci-lhe um jantarinho no Baena.
Amanhã diz que telefona a dar-me um orçamento. Sim, um orçamento. Depois há que fazer a encomenda, que vem de Espanha. Ele explicou-me pacientemente as subtilezas do processo: as peças demoram um ou dois dias a transportar, mas a firma só faz encomendas de quinze em quinze dias, para poupar trabalho no despacho. Por fim pegou com ares de aristocrata no dinheiro que eu lhe entregava e saiu para a tarde amena e agradável, deixando-me aqui sozinho. No frio.

We’re All Gonna Die—100 Meters of Existence, de Simon Hoegsberg. A fotografia mais longa alguma vez realizada.
“They’re not simply war criminals, they are fools.”
Via Arrastão.
Darkness visible.
Ontem ao jantar um católico assegurava-me que o diabo existia, sim, embora os agnósticos como eu preferissem tratá-lo por outros nomes: velocidade, desempenho, performance, aceleração da história. Julgo que o compreendi inteiramente.
Já nas bancas (por assim dizer).

O duelo de Manuela.
Quando estiver numa situação difícil desafie o seu adversário para um duelo. Se for trucidado provocará piedade, se perder por pouco verá nascer a esperança entre os que o apoiam e, se ganhar, a sua vitória será sempre triunfal. Como falamos de políticos, permitam-me exemplificar com detergentes.
O filme que se segue foi criado pela agência brasileira DPZ para Mon Bijou, um amaciador de roupa que entrou há muitos anos num mercado totalmente dominado pela Comfort. O anúncio compara o novo produto com o da marca líder, que elogia maliciosamente:
Ao mostrar os dois concorrentes lado a lado, numa aparente cortesia para com o adversário, a marca anunciante conseguiu equiparar-se ao líder de mercado na consciência do consumidor.
Percebendo os riscos que corria, a empresa proprietária da Comfort processou de imediato a Bombril. No dia seguinte ao da entrada da acção em tribunal, este anúncio apareceu nas televisões:
Os efeitos foram arrasadores, num mercado tradicionalmente complicado. Em muito pouco tempo a Mon Bijou da Bombril passou a disputar a liderança. Na altura não se faziam filmes de um dia para o outro, por isso é razoável supor que a DPZ sabia que o seu cliente iria ser processado — e que isso lhe poderia ser útil.
Agora compreende porque é que José Sócrates nunca aceitará um debate a dois com Manuela Ferreira Leite.
A gente de Obama.

Um belíssimo conjunto de retratos por Nadav Kander, no New York Times.
Como mudar o mundo.
Guy Kawasaky é um especialista em novas tecnologias (foi evangelista da Apple) e sócio de uma empresa de capital de risco. Além disso, é um ser humano encantador. Nesta conferência ele ensina aos jovens estudantes de Stanford como podem tansformar as vidas das pessoas e ganhar dinheiro ao mesmo tempo. Para enfrentar o que aí vem bem precisamos da ajuda — a menos que estejam a contar com o TGV.
Só fumaça.
A Standard & Poor’s prevê que, sob o auspicioso governo do engenheiro Sócrates, a economia portuguesa cresça a menos de um por cento nos próximos cinco, ou mesmo dez anos. Mas podemos ficar tranquilos: a blogosfera socialista já esclareceu que a Standard & Poor’s não presta para nada.
A jovem Dalila ficou muito triste com as declarações infelizes do senhor cardeal patriarca de Lisboa.
Inch’ Allah.
Não desejo contrariar a opinião abalizada do senhor Cardeal Patriarca de Lisboa; mas julgo que eu próprio, como português mais ou menos jovem, não me importaria de enfrentar os sarilhos decorrentes de um matrimónio com três ou quatro beldades muçulmanas.

O editor-chefe da National Geographic fala sobre as suas fotografias preferidas de 2008.
Uma história.
Em Julho de 2008, o lider parlamentar socialista Alberto Martins garantiu que o PS não recebia lições de combate à corrupção do engenheiro João Cravinho, então já exilado na sua gaiola dourada do BERD.
Cravinho afirmara, recordemos, que “a grande corrupção considera-se impune e age em conformidade e atinge áreas do funcionamento do Estado”. Tentanto calar a boca aos críticos, o PS tinha aprovado na época a formação de um Conselho para a Prevenção da Corrupção, mais tralha legislativa de igual calibre.
Cravinho queixou-se amargamente:
– Uma comissão governamental podia ter membros do Tribunal de Contas sem afectar a independência destes? E o Governo teria o direito de se colocar fora do âmbito de acção da autoridade que criava?
- Não era estranho que a obrigatoriedade de registo das procurações irrevogáveis se aplicasse apenas aos imóveis? Então os corruptos só traficavam casas? Não seria esta limitação uma maneira de os encaminhar, em vez de os desencorajar?
- E havia algum motivo para que essa estrutura não tivesse gente a tempo inteiro ou parcial, e ficasse obrigada a recrutar os seus funcionários na bolsa de mobilidade da Função Pública?
Finalmente, não teria sido melhor que Alberto Martins respondesse com naturalidade a estas perguntas todas em vez de pôr a mão na anca e dispensar lições?
A atitude do PS no combate à corrupção parecia-se estranhamente com a de uma noiva após um casamento arranjado: o pai insistira, a mãe aprovara, a boda tinha sido farta, e agora lá estava ela metida na cama com um barrigudo que nunca vira antes, trinta e cinco anos mais velho. Tal como aquela rapariga nunca quisera casar com aquele homem, o Governo e o grupo parlamentar do Partido Socialista aparentemente não queriam fazer o que quer que fosse para combater os crimes económicos. Era só isso: não lhes apetecia. Não estavam para aí virados. Não gostavam da ideia. Aquilo incomodava as pessoas e era chato.
Alguns meses mais tarde assistimos às trapalhadas do Orçamento de Estado para 2008, em que o PS tentou à sucapa despenalizar o financiamento partidário em dinheiro, para depois se retractar desastradamente.
No mesmo orçamento, o PS propunha que fosse possível comprar imóveis aos partídos políticos por um valor muito superior ao do preço de mercado sem que isso fosse considerado um donativo.
Cá fora, as movimentações dos amigalhaços sucediam-se à velocidade do costume. Armando Vara (o Vara da fundação, que Sócrates reabilitou nos primeiros meses do Governo) pulava de banco em banco, enquanto Jorge Coelho, patrão de uma construtura, metia ao bolso o novo terminal de contentores de Alcântara sem concurso público.
As novas medidas para aplacar a crise irão perpetuar esta tendência, perante a indiferença dos apoiantes e a inconsequência dos eleitores. O PS é o partido da corrupção e do tráfico de influências? Talvez não seja — mas se o fosse, não sei bem em que é que se distinguiria do actual.
A empregadinha nova da pastelaria Suiça deitou-me outra vez um olhar voluptuoso. Este sucesso recorrente entre as proletárias põe-me sempre a suspirar por uma carreira de torneiro mecânico, ou bate-chapas. Ah, as possibilidades…
Deixa-a cair.
Shakespeare até nos ajuda a enfrentar a crise. Durante décadas lamentámos os empresários medíocres, as chefias empoadas, os incompetentes no remanso dos pequenos poderes. Neste contexto, o que é uma recessão? Um vasto conjunto de oportunidades.
Quando Banquo encontra os três assassinos contratados por Macbeth, profetiza:
- It will be rain to-night.
- Let it come down, responde um dos carrascos antes de o apunhalar.
Eis um exemplo edificante.
Que sera, sera.

Porque gostamos tanto de Hamlet? A hagiografia aparatosa de Bloom não responde directamente à pergunta, e Frank Kermode só nos dá explicações estilísticas, embora interessantes.
Hamlet recebe um mandato do seu pai: vinga-te. No entanto, demora três ou quatro mil versos para consumar esse projecto. Se o fantasma do velho rei da Dinamarca tivesse aparecido a Macbeth, outro galo cantaria: o assunto ficava despachado no primeiro acto, a família extinta no segundo e toda a companhia de teatro enterrada à hora do jantar.
Este paralelo ajuda-nos a procurar uma teoria: Macbeth pertence ao signo de Maquiavel (como Ricardo III e Iago), enquanto Hamlet se desenrola na sombra de Montaigne. Macbeth é uma manifestação da vontade de poder, Hamlet do cansaço do poder.
Tudo isto é discutível: Gore Vidal explica na autobiografia que Montaigne tentava impressionar com os seus ensaios o rei de Navarra (ou seria de Leão? Agora não me apetece procurar).
Mas a tese não é literária, é emocional: o que nos atrai em Hamlet é que ele se deixa ir — apesar da sua missão urgente, cumprida a contragosto (quando encontra Cláudio a rezar não o mata, porque nessas condições a alma do rei se elevaria para o céu — justificação paupérrima, indigna de um espírito maduro).
A ausência de ambição, em Hamlet, não o impede de assassinar Polónio, de enlouquecer Ofélia, de ferir Laertes mortalmente, de conduzir a própria mãe ao suicídio e, eventualmente, de executar Cláudio como lhe competia.
Abrindo caminho entre as artimanhas da corte e o cerco melífluo da namorada (as intenções do príncipe ficam expostas quando se senta aos pés da rapariga antes do espectáculo que ele próprio encenou e lhe confessa como é uma bela coisa estar entre as pernas de uma mulher), Hamlet nunca se apressa porque sabe, escreve Nietzche, que a sua acção não alteraria a essência eterna das coisas, e considera ridículo ou humilhante ser chamado a pôr em ordem um mundo desordenado (citação de Harold Bloom). Apesar disso, ele vinga-se.
O encanto de Hamlet reside nesta lassidão eficiente, num sentimento de derrota que os deuses recompensam. Sempre nos sentimos atraidos pelos que se deixam ir: Greene e Thomas Mann fizeram disso uma carreira. Os lânguidos aristocratas venezianos de Carpaccio e o aventureiro Corto Maltese, animados pelo mesmo sopro filosófico, não nos emocionam por outra razão.
Um adolescente diria, em linguagem contemporânea, que Hamlet é cool. Por isso gostamos dele.
yes, minister
Nunca entendi as pessoas incapazes de reconhecer a qualidade dos adversários. O primeiro-ministro deu uma entrevista excelente: estava bem preparado e foi acutilante nas alturas certas. A sua demagogia não soou a falso, como as boutades de Portas, nem revelou sintomas da maldade cósmica de Francisco Louçã. Depois, basta-nos compará-lo com a doutora Manela para lamentarmos o triste estado a que chegou o PSD.
Sócrates não tem que ser derrotado porque é inepto — tem que ser derrotado porque é um déspota, e porque a sua visão do país conduzirá a nossa economia a uma decadência lerda e maltrapilha, subjugada por um partido de sectários que só se ouvem a si próprios. É isto que está em causa; não são as entrevistas.
dez anos
A história de um cavalheiro idoso e cultivado em Paris — um amigo de Gide — que quase expulsou um médico do seu apartamento quando ouviu que este trabalhava com leprosos. “Devia ter-me avisado. Sinto-me responsável por todos os residentes. Quanto tempo passará até eu saber se tenho lepra?” Ele tinha setenta e quatro. “Dez anos”. “Quer dizer que tenho que viver mais dez anos com esta dúvida?”
Graham Greene, In Search of a Character, tradução minha.
a fazer bolinhos
Os velhos e as crianças vivem no presente, sem quererem saber da tarefa seguinte. Quando fazem bolinhos tomam o seu tempo, para apreciar a experiência em todos os sentidos — avaliam a textura dos ingredientes, cheiram cada novo item, e provam com liberalidade as coisas mais doces. Uns e outros lutam com objectos volumosos, malgas pesadas, sacos de farinha. Ambos prestam muita atenção quando o seu companheiro pega numa faca. Há momentos em que os meninos protegem os avós e vice versa. Os avós sabem mais, mas as crianças vêem melhor. A avó conhece o utensílio que procura, mas é a criança que o descobre.*
* Adaptação de um ensaio de antropologia cultural, referido por Tom Kelley.