Archive for Dezembro 2008
Até 2009.
Vou interromper este blogue por algumas semanas, mas não queria terminar o ano sem agradecer às pessoas que em 2008 me honraram com as suas recomendações, citações e bonomia.
Sem ordem premeditada refiro o Maradona, o António Neto, o Henrique Raposo e o Paulo Pinto Mascarenhas, o Miguel Pires, o Sérgio Lavos, o Daniel Oliveira, a io, o José Mário Silva, a Carla Quevedo, o Jorge C., o Pedro Correia, o Eduardo Pitta, a Helena, o Filipe Nunes Vicente, a miss Allen (que pena, o intervalo), a Isabel G (e pode-se dizer o nome?), o Filipe Guerra (digo este porque toda a gente sabe), o Francisco José Viegas (belo presente, o de hoje), o Vasco Campilho, o João Gonçalves (que grande poder de encaixe, João), o J.J. Amarante, o José Bandeira, o Armando Rocheteau, o Pedro Rolo Duarte, o Lutz (acorda, homem), o André Pinto e a Ana Matos Pires (not the least, of course).
Este post ficaria incompleto sem que eu sublinhasse igualmente a extraordinária contenção do JMM Fernandes, o espírito desportivo do Miguel Abrantes (sim, o Miguel Abrantes) e a paciência infinita de alguns comentadores. Quanto ao João Pinto e Castro, espero que quando acabar de trocar os links ainda tenha vontade de fazer aquilo (não é o que estão a pensar).
Se faltou alguém, a culpa é do blogroll. Agora seria a vez dos pedidos de perdão — mas a lista é interminável.
Um abraço,
L.
P.S.: o pastorinho entrou à perna na lista dos agradecimentos. E foi em 2008, que eu bem vi.

Óscares.
Também estive vai-não-vai para fazer uma listinha dos blogues do ano, mas entretanto li a história edificante do fotógrafo Peter Henry Emerson, que no final da carreira enviava medalhas de mérito a jovens fotógrafos que desconheciam por completo o seu trabalho, além de ignorarem quem ele era. Um pouco de modéstia fica-me bem nestas ocasiões.
Gaza.
A guerra é um assunto privado. É assim que a vejo, como uma extensão dos meus mortos — sem razões e sem perspectivas. Conheço os limites desta visão romântica, mas também conheço as pulsões de morte dos nossos generais de sofá. A guerra é necessária? Por vezes, é. Esta guerra é necessária? Não acredito. Encontro nos que a defendem um inquietante desejo de expiação. A imprensa fala nos hospitais destituidos, a transbordar de seres que ninguém trata, e só consigo ver os locais em que passei os últimos anos, bem apetrechados e ainda assim aterradores. Não sei quem tem razão, mas sei de quem não gosto. E nunca vou gostar.

O papa Bento XVI orou pelo fim da violência na Faixa de Gaza. Resta-nos saber se ele preferia que o Senhor o escutasse antes ou depois de acabar com o flagelo da homossexualidade.

Outras imagens aqui.
A esquerda caviar.
No blogue em que escrevia há tempos o Duarte Calvão, gastrónomo emérito, crítico profuso e animador de várias confrarias, apanhei hoje o meu caro Pedro Correia a insurgir-se contra a esquerda-caviar que adora trocar dicas sobre a melhor comida gourmet nos restaurantes de luxo da capital.
De facto, o caso é lamentável — ainda no outro dia vi um desses belugas a louvaminhar o sofrível Mezzaluna, chamando-lhe o melhor restaurante de não-sei-o-quê. Lá na direita, pelo menos, conseguem manter o nível: ou é o Tavares ou é o Terraço do Tivoli — daí para baixo, só o recreio da criadagem.

João Paulo Sousa publica um interessante texto sobre Le Rivage des Syrtes de Julien Gracq, morto há um ano sem que eu desse por isso. Gracq, com Ernst Junger e dois ou três nomes famosos em obras pontuais (Mann, Hesse, talvez Kadare, certamente Sebald), enobreceu a maravilhosa tradição centro-europeia do sonho acordado. O meu exemplar das edições José Corti estava ao alcance da mão e é um dos mais belos que guardo nas estantes, a começar pela capa que exibo acima.
O bom Governo e o outro.
No dia de Natal, Krugman explicou-nos a diferença entre o Governo de Sócrates e um bom Governo:
President-elect Barack Obama (…) has said that he wants to “make government cool again.”
Before Mr. Obama can make government cool, however, he has to make it good. Indeed, he has to be a goo-goo.
Goo-goo, in case you’re wondering, is a century-old term for “good government” types, reformers opposed to corruption and patronage. Franklin Roosevelt was a goo-goo extraordinaire. He simultaneously made government much bigger and much cleaner.
Será preciso acrescentar alguma coisa?
A criada do Primo Basílio fazia chantagem com a patroa porque queria ser rica e ter criadas como ela. Os barões do partido socialista fazem chantagem com os bancos porque esperam, um dia, ser banqueiros.
Feliz Natal.

E aqui, uma boa sugestão para os funcionários públicos que desejem recorrer aos empréstimos de emergência do Governo.

Stendhal.
Pour être bon philosophe, il faut être sec, clair, sans illusion. Un banquier qui a fait fortune a une partie du caractère requis pour faire des découvertes en philosophie, c’est-à-dire pour voir clair dans ce qui est.

Os lugares em que vivemos. Uma grande reportagem fotográfica de Jonas Bendiksen.
As fotos que tenho publicado nestes dias são de David Alan Harvey, seu colega na Magnum.

Cartas de amor.
Há dois ou três anos, quando era muito novo, escrevi a pensar em alguém um longo arrazoado que começava assim:
“Em ti, que és o meu mundo, o sol nunca se põe.”
Hoje escreveria:
“Bens perecíveis — os que se deterioram rapidamente, mesmo sem uso.”

Krugman: a Economia dona Branca.
We’re talking about a lot of money here. (…)
O texto é extraordinário.

O amor pode ser uma extensão da evidência do envelhecimento. Isto é, podemos escolher amar uma pessoa porque gostariamos de guardar, no futuro, uma recordação imperecível do tempo em que a desejávamos. Ou então, podemos escolher amar uma pessoa porque queremos recordar o tempo em que nos sentiamos desejados. Entre homens e mulheres este tipo de amor gera equívocos cruéis. Nos homens, porque se antecipam, nas mulheres porque se atrasam.
Muitas das mulheres que nos recusam os prazeres da juventude tentam oferecer-nos as consolações da meia idade. Demasiado tarde, claro.
A arte, o sublime e o Filipe Moura. Sim, o Filipe Moura.
Quem diria que o encontrariamos aqui, no Parnaso, a discutir assuntos elevados? Vale a pena ler este texto do nosso comunista preferido, bem como as loucas respostas do desamparado Carlos Vidal, prenhas de SABEDORIA e SENSIBILIDADE!!!??? A qualquer momento espera-se outro motim de gatafunhos contra pontos de exclamação.

E também tem um candidato para Braga.

O PSD já tem candidato para Lisboa.
Ideias.
O parágrafo seguinte de Medeiros Ferreira ilustra bem o que se diz por aí nestas alturas:
A acumulação de termos como neo-liberalismo reinante, forças de esquerda e novas formas de organização não engana: é paleio de circunstância. Medeiros Ferreira, compreensivelmente, quer ver onde param as modas. Que ele seja um crítico ligeiro da actual direcção do PS é uma coisa, mas que se queira aproximar de um saco de gatos com o Alegre e os barnabés é outra completamente diferente. O homem hesita, tal como eu hesitaria.
A esquerda não precisa de novas ideias, precisa de um PRD — de algo que trave a maioria absoluta, traga Sócrates à terra e desapareça para sempre no nevoeiro de uma coutada coimbrã. Não se trata de um desafio intelectual, mas de uma questão de poder.
As ideias que interessam à esquerda são só três ou quatro, e já foram descobertas por Mário Soares.
Ouvi agora as notícias. Parece que o Manuel Alegre atirou um sapato ao Sócrates.
Ler os outros.
De vez em quando apanho mais um castiço a mudar os links ao blog só porque eu disse mal do partido dos eleitos ou fui sarcástico com uma potestade qualquer. Essas pessoas esquecem que o sopro vital da blogosfera é exactamente o talento para pôr em contacto vozes discordantes — o que o Eduardo Pitta faz com brilho e intencionalidade.
36 horas em Lisboa com o New York Times.

Um tranquilo restaurante à beira-rio, ainda sem vista para uma parede.
As nossas praias podem estar perdidas para o mundo civilizado, mas Lisboa continua a atrair a imprensa internacional. O New York Times esteve aqui antes da greve do lixo e da falência do Bairro Alto em horário burguês. Entusiasmada, a jornalista Elaine Sciolino elogia o playful side da capital portuguesa, com as suas lojas de design e os ambientes nocturnos em que as pessoas se comportam jovialmente. Na próxima visita talvez consigamos deliciá-la com as amenidades de um novíssimo terminal de contentores entre o Museu de Arte Antiga e os pastéis de Belém.
Os podcasts da Monocle.
Sigo há vários anos o percurso de Tyler Brûlé, na Wallpaper, no Financial Times e agora na Monocle. Sempre gostei de ver grandes profissionais em acção, embora no caso de Brûlé o produto dos seus esforços me cause um sentimento de desconforto. O problema é o perfeccionismo maníaco de tudo aquilo. A arrumação doentia das referências, das classificações, do bom gosto bizantino e excessivamente comportado. Tudo tem classe, mas em nada se encontra um rasgo de criatividade, um vestígio de risco. É uma coisa um pouco estéril, que parece feita por designers com baixa auto-estima acorrentados a uma eterna busca de aprovação.
No entanto, continua a atrair-me a complexidade das suas realizações. Os podcasts, por exemplo, são inconfundíveis. Encontramos neles, como seria de esperar, um apuro técnico que está a anos-luz das condições normais de produção neste género de conteúdos. Os temas são inspirados: veja-se esta entrevista com a senhora Yvonne Cochrane, grande dama de Beirute oriental. Ou este episódio dedicado à marca japonesa Tomorrowland, com um texto sensível e penetrante sobre a indústria da moda.
Uma coisa é certa: o tom dos artigos e a atmosfera dos episódios nunca são petulantes ou pomposos. E isso, meus amigos, para quem mora em Lisboa é um grande alívio.
O Governo tem um plano para salvar a economia.

“Questão encerrada.”

Vital Moreira assegura-nos que o Governo deu por finalmente encerrada a questão da avaliação de professores.
Granta 103: o fundamentalismo islâmico.
Chegou aparentemente atrasada a Granta deste Outono, mas vale a pena fazer o anúncio porque se encontra nela um documento interessantíssimo sobre a Jihad britânica, assinado pelo jornalista Richard Watson. Aqui encontram uma entrevista ao autor e uma explicação do seu trabalho.
Outro momento Pacheco Pereira, desta vez pela mão do leitor GL — um simpático e fervoroso apoiante do primeiro-ministro que é natural de Bregapólis, entre Jamiroquaiquai e o Rego Grande do Sul.
Clueless.
Numa crónica um tanto ou quanto indigente, o Pedro Lomba pergunta:
As convicções políticas de quase todos nós dependem de sermos bem ou mal pagos. O leitor que faça um esforço: quantas pessoas bem pagas conhece a dizerem que são de esquerda, ou que votam à esquerda?
Uh, deixa cá ver. Oitenta e cinco por cento? Noventa? Definitivamente, ser betinho é viver noutro planeta.
“Produzir resultados”.
O que levaria o Miguel Abrantes a citar beatificamente um serventuário da corporação dos juizes? Foi sequestrado? Passou o prazo das neurotoxinas no refeitório do Rato? Nada disso, leitores. A explicação é tão simples como tocante.
A elevada figura do Juiz Conselheiro Eduardo Maia Costa alberga muito mais que um magistrado: nele coexistem também um patriota e um amigo. Entre todas as personagens que ocuparam tão extravagante função, o juiz Maia notabiliza-se por considerar o combate à corrupção como um delírio recorrente do populismo penal, um tema característico da extrema-direita e também a bandeira de alguma esquerda (em boa hora despachada, digo eu, para os gabinetes do BERD).
Sim, leitores. O juiz Maia lamenta que periodicamente venha à baila o combate à corrupção, a necessidade de o levar a sério, a ineficácia da justiça nesse campo, etc. É de facto imperdoável. Porque destes caprichos só podem resultar coisas nefastas, como o sobressalto de indignação popular. E, pior ainda, que os tribunos desse combate se tornem ídolos do Zé Povo.
Erguendo-se contra a exigência de propostas radicais, que procurem, vejam lá, a eficácia, o juiz Maia conclui prudentemente que é bem melhor respeitarmos a lei e seguirmos com tranquilidade os velhos trâmites que não se compadecem com as loucas aspirações do Zé Povo: nomeadamente a de “produzir resultados” e acabar de vez com a corrupção — as aspas são do juiz.
Assim se prossegue uma luminosa carreira na judicatura, e assim se atrai o respeito do Miguel Abrantes e de outros justiceiros das corporações. Estamos bem entregues.
Os leitores deste blog enchem-me de orgulho. Eis a primeira canção de amor proposta pelo meu amigo Fernando. Outras se seguirão.
O Pedro Marques Lopes encontrou o responsável pela crise do PSD: é o populismo. Em breve, alguém irá invocar o clima.
Uma canção de amor para a Carla. E claro: beijinhos.